RIO - Foram seis horas de intenso tiroteio até uma equipe da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da comunidade Nova Brasília, no Complexo do Alemão, conseguir chegar ao Largo do Samba, no último dia 25. O objetivo era acabar com um ponto de venda de drogas e dar início à instalação de uma torre blindada. Na época, a iniciativa foi criticada por especialistas em segurança pública, que questionaram o abandono do conceito de polícia de proximidade e a eficácia de uma estrutura isolada em meio a uma área dominada pelo tráfico. Agora, no entanto, a PM revela que a pequena fortificação faz parte de um plano maior: a corporação vai colocar 26 bases, entre torres e cabines de concreto, no conjunto de favelas que é considerado o maior território do crime organizado no Rio.
Nos cinco dias que antecederam a instalação da torre blindada de seis metros de altura, capaz de resistir a disparos de fuzil e explosões de granadas, quatro pessoas morreram e cinco ficaram feridas durante confrontos entre PMs e bandidos. Hoje, o comandante da UPP Nova Brasília, major Leonardo Zuma, garante que cessaram os tiroteios no Largo do Samba.
— Os confrontos na área acabaram. Tal fato reforça a ideia de que a presença ostensiva da PM proporciona paz aos moradores do Complexo do Alemão. Os criminosos estavam em posição de vantagem, ocupavam uma área estratégica, e isso fazia com que policiais e cidadãos comuns fossem alvos em potencial. A política do entra e sai de áreas de risco não dá certo; o PM tem que ficar, só assim estará garantida a segurança de todos — diz Zuma, um dos idealizadores do novo plano de ocupação da região.
Ao assumir o comando da Polícia Militar, em outubro do ano passado, o coronel Wolney Dias anunciou uma reformulação do projeto das UPPs. Entre 2011 e 2016, a corporação registrou um aumento de 13.746% na quantidade de tiroteios em favelas com unidades pacificadoras. Em uma reunião com os comandantes dessas bases, o oficial cobrou um plano de ação para dar fim ao problema. A instalação de torres e cabines surgiu como solução para o Complexo do Alemão.
— Haverá um cinturão de segurança para impedir o vaivém de criminosos armados, que, nos últimos anos, voltaram a assustar os moradores. Muitas casas estão cravejadas de tiros. Isso não podia continuar assim, e a polícia não podia recuar. Decidimos fazer um mapeamento, com o auxílio do setor de inteligência da nossa unidade, e identificamos os pontos mais vulneráveis, onde seria necessária a presença permanente de policiais — explicou o comandante da UPP Nova Brasília, que chegou a pegar emprestado um drone para captar imagens de zonas dominadas pelo tráfico.
Zuma justifica a ação mostrando fotos e vídeos de bandidos com pistolas e fuzis na favela. No material, é possível ver muros de concreto com seteiras (buracos onde são posicionados fuzis), erguidos pelo tráfico. Para manter um número razoável de PMs na comunidade, o major alterou a escala de serviço, que passou a ser de 12 horas de trabalho por 48 de descanso, em vez de 24 de serviço por 72 de folga.
Uma outra iniciativa da PM no Alemão provoca polêmica: a construção de uma mureta que impede a passagem por uma viela do Largo do Samba, denunciada na última quarta-feira pelo jornal “Voz das Comunidades”. Segundo o comandante da UPP Nova Brasília, será construída ali uma guarita suspensa de concreto.
— A mureta foi uma forma de cercar o ponto onde serão montados os pilares para a instalação da guarita. Causa alguns transtornos, mas é algo temporário. Quando a obra ficar pronta, retiraremos a mureta. As pessoas terão que dar uma volta maior, mas se trata de uma medida de segurança adotada em um ponto estratégico — afirma Zuma.
Pedindo anonimato por temer represálias, um morador da área, que vive há mais de 40 anos no Complexo do Alemão, reclama que a mulher, que tem dificuldade para andar, vem passando por um sacrifício.
— Para ela, a situação está difícil. Mas, se for para acabar mesmo com os tiroteios, vai valer a pena. Não aguentamos mais tanta violência. Queria vender minha casa, mas ninguém quer comprá-la. Quando a UPP chegou aqui, ela valia R$ 80 mil. Agora, não vale absolutamente nada — afirma o morador.
Segundo Guilherme Pimentel, coordenador do Defezap, projeto que registra denúncias de situações de violência na Região Metropolitana do Rio, já foram recebidas sete reclamações de moradores contra a mureta instalada pela PM na Nova Brasília.
— As pessoas reclamam que seu direito de ir e vir está sendo cerceado. Além disso, há casas de moradores ocupadas por PMs. Se fosse a residência de um promotor no asfalto, ele não gostaria de ver seu imóvel tomado — diz Pimentel.
De acordo com o comandante da UPP Nova Brasília, hoje, apenas uma casa está ocupada por policiais. Ainda segundo Zuma, documentos comprovam que o imóvel está em processo de desapropriação pelo estado.
Ex-secretário nacional de Segurança Pública, o coronel reformado da PM de São Paulo José Vicente da Silva ressalta que a violência no Rio chegou a níveis intoleráveis, bem maiores que os registrados por outros estados e até mesmo países, mas ele acredita que a instalação de dezenas de estruturas policiais no Complexo do Alemão não resolverá o problema:
— O domínio de território pelo tráfico é um problema específico do Rio. Estudei essa questão em São Paulo, Bogotá e cidades da África do Sul, e posso garantir que ninguém passou pelo que a polícia fluminense enfrenta. As UPPs foram um remédio, mas, hoje, o projeto está defasado. Em relação ao Alemão, maior base do crime organizado, acho que mudar a escala de serviço dos PMs uma decisão acertada, não dá para alguém trabalhar 24 horas seguidas. Porém a estratégia de instalação das torres e cabines, ao meu ver, não é suficiente. É necessário pensar a segurança de forma ampla, a solução não virá de ações localizadas. As UPPs precisam trabalhar realmente integradas aos batalhões e às delegacias. Não dá para encher as comunidades de policiais e enfraquecer o patrulhamento no asfalto. A PM tem que buscar os policiais emprestados à Assembleia Legislativa e a outros órgãos, recrutar homens do Corpo de Bombeiros para trabalhos de reforço. São Paulo tem 8 mil bombeiros; o Rio, que é bem menor, conta com 17 mil. Se os bombeiros atuam na Força Nacional, por que não reforçam o policiamento, com treinamento específico?
Para o consultor de estratégias de segurança pública André Luis Woloszyn, autor do livro “Guerra nas sombras”, as estruturas da PM no Alemão farão com que policiais percam mobilidade durante ataques de criminosos:
— Trata-se de uma solução paliativa. Os policiais vão ficar menos vulneráveis, mas, ao mesmo tempo, menos atuantes, já que ficarão dependentes da blindagem das torres e cabines. Essa estratégia, vale lembrar, é amplamente utilizada na Cisjordânia e em bairros da cidade de Bagdá, onde forças militares buscam reduzir riscos para soldados. Considerando que PMs deverão permanecer nas estruturas, eles só poderão neutralizar ataques.
A cientista social Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, acredita que a aproximação entre policial e morador ainda é a melhor fórmula para a continuidade das UPPs:
— Se a situação em termos de segurança apresenta-se tão grave a ponto de necessitarem de blindagem para proteção, a pergunta é: como e com que agilidade outros efetivos policiais vão adentrar aos locais conflagrados em apoio a solicitações de PMs em torres e cabines, já que não contarão com a mesma proteção? Estruturas blindadas dentro de favelas são o oposto de tudo que as UPPs representaram quando foram criadas: eram a esperança de que a segurança chegaria às áreas mais pobres do Rio através do respeito mútuo, do diálogo e da legitimidade. A fórmula da polícia de proximidade funcionou muito bem nas áreas em que havia um comandante disposto a conversar com moradores.



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