RIO - "As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar..." Opa, espera aí. Abram alas à alegria, mas, neste carnaval, quem antecipou a festa já notou que não dá para beber tanto assim sem pensar num detalhe tão importante quanto a fantasia: onde será o para o xixi na hora do aperto? Apenas nos blocos que saíram às ruas na primeira metade deste fevereiro, aumentou muito o número de pessoas multadas por urinarem em via pública. Foram 557, mais que o triplo das 176 punidas na pré-folia de 2016.
Isso apesar de a quantidade total de banheiros químicos para este ano, ao menos na promessa, ter aumentado quase 25%, de 25.496 para 31.800 - um para cada 141 dos 4,5 milhões de súditos de Momo que devem tomar as ruas do Rio. De qualquer forma, tem muita gente se prevenindo para não terminar a fuzarca ouvindo outra marchinha: "Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí".
Não tem zombaria carnavalesca nessa história, não. A fiscalização está ferrenha. Em relação a 2016, são as mesmas 235 equipes do programa Lixo Zero, formadas por funcionários da Comlurb e agentes da Guarda Municipal de olho nos infratores da Lei de Limpeza Urbana do município. A multa para quem for pego no flagra - que começou em R$ 157 e chegou a R$ 510 no ano passado -, subiu ainda mais: agora, vale R$ 548. Como o colunista do GLOBO Ancelmo Gois informou na quinta-feira, ficou tão salgada que levou uma foliona a passar o chapéu no site Vakinha.com para ajudar uma amiga a pagá-la.
"Tinham exatos seis banheiros para aquela população toda. Bexiga de mulher já é menor e, com mais algumas cervejinhas, fomos procurar um banheiro: tudo com fila maior do que do aniversário do supermercado Guanabara. Andamos, andamos, andamos, até que nossa querida amiga não se aguentou e precisou recorrer à moita com uns carros... Foi aí que o fatídico momento aconteceu: acabamos abordadas pela campanha do Lixo Zero", descreveu ela na página da campanha.
Neste pré-carnaval, apesar de a prefeitura ter anunciado que há mais banheiros químicos nas ruas, o que se avoluma são as reclamações de que, na verdade, é pequena a quantidade disponível para o "ufa". No último dia 5, teve ensaio do bloco Sereias da Guanabara na Praça Marechal Âncora, no Centro. O município alegou que, por não ter sido avisado, não instalou banheiros químicos para lá. Mas agentes do Lixo Zero marcaram presença em massa.
Para tentar driblar essa patrulha, houve quem comprasse bebidas em garrafas ou copos plásticos para transformá-los em penicos improvisados e, por fim, jogá-los no lixo. Um folião que preferiu se identificar apenas como Rodrigo, de 33 anos, não recorreu ao jeitinho. Levou para casa uma multa que daria para comprar 91 latões de cerveja (considerado o preço de R$ 6 por unidade, valor normalmente cobrado por ambulantes nos blocos).
- Estava muito apertado e comecei a procurar um banheiro químico. Nada! Estava meio receoso, porque tinha sido assaltado recentemente no Centro. Então, quando vi um rapaz urinando numa árvore, resolvi fazer o mesmo. Imediatamente fui abordado por um guarda municipal. Sou a favor da multa, desde que haja contrapartida. Nesse caso, o problema é que não havia banheiro, nem químico, nem público nem de qualquer estabelecimento por perto, numa praça que, independentemente do carnaval, deveria tê-los. Vou recorrer, com certeza - sacramentou Rodrigo.
Um amigo dele passou pela mesma situação. Só que o rapaz, alegando que ainda nem tinha começado a urinar, num primeiro momento se recusou a entregar seus documentos aos agentes da prefeitura. Por pouco não foi levado para uma delegacia. Escapou porque Rodrigo chegou para apaziguar os ânimos.
Essa, aliás, seria a única forma de um folião, surpreendido na hora do alívio, ser detido na folia. Até o pré-carnaval de 2015, os mijões eram conduzidos às DPs, além de receberem uma multa que, na época, era de R$ 170. Em agosto daquele ano, no entanto, o valor da pena triplicou para R$ 540, e a fiscalização foi transferida da Secretaria de Ordem Pública (Seop) para a Comlurb. Desde então, ir para o xadrez passou a ser uma medida aplicada somente aos que desrespeitam os agentes da lei.
- O objetivo nunca foi deter, mas multar. Quando a multa era barata, a detenção era a maior punição. Agora, com um valor significativo, avaliamos que a pena maior é a multa - diz Mario Filippo, gestor do comitê do carnaval da Riotur, que acredita que, com o apoio dos blocos, pode reduzir a quantidade de penalidades aplicadas. - O diálogo é a solução. É difícil estarmos onipresentes. Mas estamos pedindo a colaboração dos foliões. E dos produtores dos blocos também, para que, no trajeto, eles reforcem a necessidade de usar os banheiros químicos. Nossa convicção é que o maior beneficiário será a cidade - afirma Filippo.
Sonhar não custa nada, já dizia o samba. Mas, apesar da esperança de Filippo, desde 2010 o número de mijões punidos só faz crescer. Sete carnavais atrás, 360 foram detidos, menos do que os 557 multados só nos dois primeiros fins de semana de fevereiro deste ano. Desde então, sucederam-se recordes. O último, em 2016, teve 1.978 foliões multados, 56% a mais que os 1.264 de 2015.
No balanço final, a previsão de arrecadação da prefeitura era tão pomposa quanto o abre-alas de uma campeã da Sapucaí: R$ 1 milhão. Mas só cerca de 40% das pessoas flagradas (804) pagaram as multas. Os demais, afirma a Comlurb, foram inscritos no Serasa, recorreram da punição ou ainda estão negociando o pagamento com o município.
O valor arrecadado, segundo a companhia, é investido na manutenção do Lixo Zero: o pagamento das multas banca a compra de combustível e a manutenção dos veículos do programa, além dos salários de parte dos agentes. Ao ser abordado cometendo a infração, o folião precisa informar seu CPF e tem um prazo até o dia 10 do mês seguinte para quitar o débito ou recorrer.
O questionamento dos organizadores dos principais blocos do Rio, no entanto, é que o aumento progressivo da quantidade de banheiros químicos nem sempre surte efeito. Para chegar às 31.800 unidades deste ano, serão colocados vasos e mictórios em contêineres. O número representa um em relação a 2010, quando eram apenas 4.200.
Para se chegar à estatística da prefeitura, a conta é a seguinte: se uma cabine fica disponível por cinco dias numa esquina de uma determinado bairro, ela será contabilizada como cinco posições de banheiros químicos. O que é criticado por Rita Fernandes, presidente Associação de Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro (Sebastiana).
- É claro que existe uma minoria que vai fazer xixi na rua porque é má educada. Mas a maioria faz porque não tem banheiro - diz Rita. - Nunca vai existir um número suficiente. A quantidade de banheiros é superestimada com a conta feita em cima de posições. Acreditamos que falta clareza nesses números. Onde ficarão essas 31.800 mil posições? Além disso, se os banheiros não têm manutenção a cada duas horas, perdem completamente a capacidade de uso. Outro problema é que nós, organizadores, nunca sabemos, de fato, quantos banheiros teremos disponíveis. Os blocos menores são os que mais sofrem. Essa é a verdade.
A Riotur, por sua vez, afirma que a quantidade de banheiros para cada bloco é definida por uma estimativa de público esperado, discutida em reuniões semanais entre representantes da prefeitura e dos blocos.




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