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Rio de Janeiro

Palco de sonhos e lágrimas longe dos holofotes da avenida

RIO — Na dispersão da Apoteose, madrugada de terça-feira, Ellen chorou. Menina de 14 anos, fantasiada com o brilho dourado da São Clemente, pensava na tia Gloria Maria Belo, rainha de bateria da agremiação no fim dos anos 80 e início dos 90. Chininha, como era chamada pela família, morreu de câncer no pulmão há cinco anos, no dia em que completou 50. Não viu a sobrinha desfilar, mas Ellen sentiu sua presença. Ao cruzar a linha de chegada e abraçar o pai, o diretor de bateria da agremiação, Tião Belo, entregou-se a à emoção que misturava amor, saudade e uma certeza: a de que seguirá os passos da tia.

— Éramos muito ligadas e também parecidas. Pensei nela o desfile inteiro. Senti cansaço e, de repente, me veio força para continuar. Foi como se a alma dela tivesse entrado em mim na avenida — afirma Ellen Belo. — Todos os dias eu desço o Santa Marta pensando na minha São Clemente. Agora tenho certeza: quero ser passista dessa escola e, depois, virar rainha de bateria.

Longe dos holofotes, um carnaval de histórias se passa na dispersão enquanto foliões tiram suas fantasias e voltam à realidade, sem muito tempo para digerir o que sentem, pois lá vem outra ala e, atrás dela, muitas outras. Não são poucos os que choram, de alegria ou tristeza, superação do cansaço ou dor nos pés depois de vencidos 700 metros da Sapucaí.

O ritmista Alfredo de Souza, da Unidos da Tijuca, tocava sua caixa com as mãos molhadas de enxugar lágrimas, sem tirar da cabeça a imagem do acidente com a alegoria que deixou 12 feridos, e corre o risco de rebaixar a escola. Emocionou-se por outro motivo o engenheiro aposentado Manoel Barbosa, de 72 anos, que veio de Mossoró, no Rio Grande do Norte, e desfilou pela primeira vez, na Vila Isabel. Sua mulher viria com ele, mas morreu em outubro do ano passado, vítima de um acidente de automóvel.

— Desfilei por mim e por ela. Vesti a fantasia e rezei na concentração. Pensei nela e disse “eu te amo” — contou o potiguar.

Com um largo sorriso, Nazidi das Graças também desfilou pela primeira vez, aos 66 anos. Sempre sonhou atravessar a Passarela do Samba, um sonho que também era de seu pai, fundador de uma agremiação já extinta, a Boca Negra, na cidade de Três Rios, interior do Rio.

— Passou um filme na minha cabeça durante o desfile, lembrei dos meus carnavais de criança. Eu me fantasiava de flor — ela disse.

Enquanto a Mocidade encerrava o desfile, Adriana Paixão Reis, de 49 anos, guardava silêncio, olhando para frente como se visse o infinito. Tem 30 anos de escola — começou como baiana e chegou à diretora. Este ano, vestiu-se de guerreira marroquina e desfilou como mais uma entre os bambas.

— É muito emocionante ver o que uma comunidade é capaz de fazer. Carnaval é um eterno amor. Em 2005, desfilei grávida de oito meses. Hoje meu filho desfila comigo.

Do lado de fora da Sapucaí, há um outro carnaval: o da reciclagem. Gente de todo canto chega para reaproveitar fantasias abandonadas, disputando cada pena, cada pluma, com 16 garis da Comlurb.

— Ano passado ganhei R$ 10 mil com tudo o que catamos aqui. Por isso venho com a família inteira e só volto na Quarta-feira de Cinzas — conta Efigênia Gonçalves, de 58 anos, mineira de Belo Horizonte, com o neto Vitor deitado no seu colo, ao lado da filha e do marido.

A reciclagem também garante a festa em cidades pequenas, como Além Paraíba, em Minas Gerais, graças ao trabalho de Sandro Soares, fundador do projeto social Impacto Urbano. E há ainda meninos como Ronaldo Brandão, de 12 anos, morador de um cortiço no Estácio, que não conseguiu uma fantasia inteira, como queria. Mas voltou para casa com um adereço: uma coroa de rei.

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