RIO - A água da chuva é aproveitada. O esgoto tem tratamento natural e volta à natureza sem impurezas. Para equilibrar a temperatura, um jardim vertical e, nas paredes, lã de garrafa PET. No piso, um tipo de porcelanato feito de lâmpadas fluorescentes recicladas. No telhado, um minigerador de energia eólica (que aproveita o vento) e painéis solares. Tudo isso reunido em uma casa feita de contêineres descartados de empresas marítimas, a 70 quilômetros do Rio, na localidade de Tinguá, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Assim é o Centro de Economia Criativa, um dos três prédios ocupados pela ONG Onda Verde. Totalmente sustentável, o espaço, chamado de casa conceito, é aberto para visitas de crianças e jovens de escolas da região. Também hospeda voluntários de outras cidades que estão de passagem por Tinguá.
No mês passado, alunos do 3º ano de uma escola municipal da região fizeram uma visita ao espaço, guiada pelo professor Diogo José Luiz. Ele passou a trabalhar na Onda Verde há oito anos, depois de fazer a monografia da pós-graduação em gestão ambiental sobre a ONG. Diogo explicou para o grupo como funcionam a “luz que acende e apaga sozinha”, as tintas com baixo teor de solventes e o sistema de ventilação cruzada, que permite deixar o ambiente mais fresco e com mais renovação do ar.
Na visita, as crianças aprenderam noções de biodiversidade, reflorestamento, educação ambiental e habitações sustentáveis. Curiosas, pediram para conhecer o viveiro educador, onde a Onda Verde cultiva 80 espécies que serão usadas no replantio de florestas. Também ouviram detalhes do projeto Pássaro Solto, que ensina fotografia da natureza a jovens, com ênfase na beleza de aves que vivem fora da gaiola.
A equipe da Onda Verde se orgulha de dizer que a casa conceito é a única sede totalmente sustentável de uma ONG ambiental no país. Recados espalhados pelas paredes estimulam a economia de água e luz.
— Essa é uma casa educadora, que nos remete sempre à ideia de pensar a sustentabilidade — resume Luís Fernando Pedreira Rodrigues, coordenador da ONG, onde trabalha há 16 anos.
Embora seja otimista em relação ao avanço das habitações sustentáveis, o educador diz que o maior entrave à ampliação desse tipo de construção é o custo, por causa da pouca oferta de material ecológico no mercado. Construída em 2015, a casa teve patrocínio da Petrobras e custou R$ 480 mil. Ainda recebeu R$ 120 mil em doações como madeira de origem certificada e material hidráulico para o banheiro.
Formado em educação física e pós-graduado em educação ambiental, Luís Fernando nasceu e sempre viveu na região, onde fica a Reserva Biológica do Tinguá, importante unidade de conservação da Mata Atlântica, que abrange seis municípios. A maior parte está em Nova Iguaçu.
— Existem dois cenários bem diferentes no Rio de Janeiro. Um, na capital, onde, apesar das dificuldades, há iniciativas como a revitalização do Porto e o Centro de Operações Rio (onde a prefeitura reúne informações de trânsito, clima, condições de aeroportos e ocorrências da defesa civil, entre outras). Aqui na Baixada, há muita vontade, espaços de discussão, inclusive sobre cidades inteligentes, mas avançamos devagar. Considero que nós somos o pontapé inicial — diz Luís.

