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O lado B do Leblon: moradores e trabalhadores garimpam serviços mais em conta

Se a crise abateu até quem mora no pedaço, imagine o que fez com quem trabalha nele. Para sobreviver aos preços praticados no Leblon, trabalhadores já garimpam no bairro serviços mais em conta. A turma que corre atrás de uma pechincha inclui também aposentados e até mesmo moradores que atuam no setor público ou enfrentam o desemprego. Nos últimos anos, a ordem tem sido ignorar os restaurantes do bairro mais caro do país, onde o metro quadrado de um imóvel custa, em média, R$ 23 mil. As empresas de quentinha triplicaram, e os poucos botequins que ainda resistem criaram promoções para tentar manter parte da clientela e não alimentar a falência.

Esse lado B do Leblon, longe do glamour atribuído ao bairro, começa de manhã cedo. Por volta das 10h30m, a rede informal de vendedores de quentinhas já está a pleno vapor. Quase sempre em carros, mas também em motos e até em bicicletas, eles oferecem refeições, com direito a bebida, a preços de R$ 10 a R$ 12. O público que encara o “PF”, consumido às vezes em pé na rua, é eclético. Vai de homens de terno, vendedoras de lojas chiques (ou nem tanto) a seguranças de carro-forte.

— Eu gosto de variar. Tem dia que compro aqui, outros na Venâncio Flores, mas o da Urquiza também é muito bom — ensinou a vendedora Michele Matos, enquanto comprava uma refeição com peixe na Rua Rainha Guilhermina.

Atrás dela, na fila que se formou rapidamente, estava o administrador de condomínio Júlio Martins:

— Está tudo muito caro, não dá mais para ficar comendo todo dia em restaurantes do bairro — contou.

Em outro ponto, no mesmo horário, dava início às atividades Guerreira, apelido escolhido para uma ex-lojista que prefere se manter no anonimato. Ela resolveu investir nas quentinhas para conseguir pagar o aluguel. Negócio que parece prosperar: bastou ela abrir o porta-malas do velho Fiat, que logo uma fila surgiu.

— Acordo às 4h45m para fazer a comida e venho para cá, onde fico até as 15h. Neste horário, eu já estou cansada, mas não dá para contratar ninguém. O que ganho só dá para garantir minhas contas — disse Guerreira.

Conhecida por seus variados restaurantes, a Rua Dias Ferreira é uma das poucas da cidade que consegue ter, numa distância de pouco mais de cem metros, o que existe de mais badalado e o de mais barato na gastronomia carioca. Enquanto o concorridíssimo Sushi Leblon segue vendendo a dupla de namorado a R$ 21, o dono do Embalo Bar, um dos botequins sobreviventes do bairro, já não consegue atrair a clientela apenas com os pratos que custam pouco menos que os dois sushis do japonês vizinho. Por isso, ele também acrescentou ao cardápio a quentinha de R$ 10.

— A minha clientela maior é a operária. Com o fim das obras do metrô, meu movimento caiu 60%. E ainda enfrento a concorrência das quentinhas nas ruas. O jeito é também oferecer pratos menores a R$ 10. — contou.

Segundo ele, em 35 anos de existência, seu bar nunca viu tamanha crise:

— Se estava ruim antes, agora está horrível. E eu trabalho de 4h45m até 15h, de domingo a domingo. E só de contas fixas, gasto R$ 35 mil por mês.

Mas não é só no almoço e no jantar que quem circula no Leblon está tentando economizar — na hora de cuidar da saúde, também. Outro serviço que vem sendo ampliado é o ambulatório da paróquia Santa Mônica, antes restrito a pessoas carentes, moradoras da Cruzada de São Sebastião ou trabalhadoras do bairro. Ali, a consulta odontológica custa R$ 15.

— Nos últimos dois anos, a gente vem percebendo uma mudança no perfil. Agora, além dos carentes, há pessoas que perderam o emprego, senhoras viúvas ou mesmo servidores estaduais e já não têm como manter plano de saúde — explica a dentista Eliane Santiago.

O serviço faz parte da Clínica Santa Mônica, mantido desde 1979 pela paróquia, que realiza também atendimento médico em pelo menos 12 especialidades. Na fronteiriça Gávea, outra opção vem seduzindo os moradores e trabalhadores do Leblon. A Casa de Medicina da PUC atende a uma média de 30 pacientes por dia, ao custo de R$ 60. E também oferece exames de imagem a preços que variam entre R$ 82 e R$ 184. O serviço, que existe há cinco anos e atendia basicamente a moradores da Rocinha, mudou nos últimos meses.

— Hoje recebemos pacientes que vêm do município de Caxias até Leblon e Ipanema. O atendimento saltou de cinco para 30 por dia, em média — explicou a assessora de comunicação da Casa da Medicina, Milene Couras.

Fundado em 1919, o Leblon já teve quilombo e abrigou operários, antes de se tornar o que é hoje.

— Eu sou do tempo em que aqui se cantava “de dia falta água, de noite falta luz”. De quando existia a Favela da Praia do Pinto. Mas, do bonde daqueles tempos ao metrô da Antero de Quental, muita água já correu por aqui. E se antes era o território dos excluídos, o bairro está, pelo menos nos preços, cada vez mais excludente. Por isso, exitem muitos lebloninos buscando hoje suas próprias alternativas — analisa o advogado e historiador do bairro João Fontes, que está preparando o livro sobre os cem anos Leblon.

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