RIO — O vento gelado bate junto à insegurança de viver nas ruas. Por volta das seis da manhã de uma sexta-feira, na Cinelândia, uma fila já se formava para a primeira refeição do dia. É preciso ir cedo para garantir o café da manhã, distribuído por um projeto social. O medo e a incerteza de comer de novo são realidade para as 14.279 pessoas que vivem nas ruas da cidade do Rio de Janeiro — um número que equivale ao total de moradores de Piquete, município do estado de São Paulo. São histórias que muitas vezes passam despercebidas pela maioria das pessoas, o que não as torna invisíveis.
— Nas noites de frio é melhor nem nascer, nas de calor você escolhe: é matar ou morrer — diz Rodrigo Ângelo, desde setembro nas ruas, citando Cazuza.
Segundo ele, o mais difícil nas ruas é dormir, pela vulnerabilidade e o frio que não o deixam pegar no sono.
— Apenas descanso para no dia seguinte buscar emprego e alguma coisa para comer — conta.
Rodrigo foi morar nas ruas depois de se desentender com familiares. Diz que, por isso, não consegue voltar para casa. Seu maior sonho é construir uma família: é sua motivação de todo dia. Antes da briga trabalhava como vigilante — afirma que nunca tinha visto nada parecido com o cenário da violência que encontrou nas ruas.
Uma pesquisa realizada pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) mostra que 35,58% dos entrevistados em situação de rua não são da cidade do Rio de Janeiro. É o caso de Luiz Dias, que saiu de Roraima há três meses rumo ao Rio, para tentar uma vida melhor. Mas encontrou uma realidade bem diferente do que esperava. Mesmo formado em Administração e dominando dois idiomas, conseguir um emprego não está sendo fácil.
— (No caso de) pessoas qualificadas, com diploma, que se preparam... estarem em situação de rua é constrangedor — opina Luiz.
A maioria dos moradores de rua relata que sofre segregação e se sente marginalizada.
— A experiência de estar na rua, para quem nunca passou por isso, tem como principal sofrimento a discriminação. Você se humilha para conseguir comida, e fazer isso não é fácil. Ver na televisão deve ser ruim, mas viver isso todos os dias é duro demais — completa ele, que procura emprego todos os dias, enquanto faz bicos como faxineiro em bares para conseguir dormir em algum lugar confortável.
O Centro é a região que mais concentra moradores em situação de rua, com 33,8%, seguido pela Zona Sul, principalmente Copacabana, Glória, Catete e Botafogo. Valença Dias, que dorme na rua Almirante Barroso, se enquadra nos 13,85% dos entrevistados pela SMASDH que possuem Ensino Médio.
— Comecei a trabalhar com 8 anos plantando milho e batata, não tenho medo de trabalho. O problema é que não aparece oportunidade — desabafa ela, que passou anos tentando se livrar do vício da cocaína, que usou pela primeira vez aos 12 anos na companhia do pai. — Não aguentava mais aquilo, era terrível todos os dias, e saí de casa. Nem conheço mais meus familiares, como vou voltar?
Paulo Roberto terminou o Ensino Médio e estuda para o Enem desse ano. Papel de pão, papelão e livros achados no lixo são usados como rascunho para treinar redação.
— Não desisto porque todo dia tento estudar da melhor maneira possível. Mesmo sem professor, tento aprender sozinho — conta ele, que diz ter aprendido muito, também, com a vida na rua. — Tudo na vida tem o lado bom e o ruim. Pude refletir sobre o conceito de família, porque na rua, querendo ou não, você cria uma. Conheci um mundo que até então era desconhecido para mim. Todos somos brasileiros, vestimos a mesma camisa e devíamos nos ajudar mais. A maioria das pessoas que vive nas ruas não está aqui porque quer. Passamos frio, passamos fome.
Com a crise no estado do Rio, o município também tem sido prejudicado, o que afeta as verbas para assistência social. Dos R$ 450 milhões previstos na Lei Orçamentária Anual-2017, a secretaria conta hoje com R$ 400 milhões, devido à queda nas receitas do município.
“Apesar da falta de recursos, conseguimos abrir dois abrigos para mulheres grávidas. Mas nosso principal desafio não é apenas o abrigamento, mas transformar a vida dessas pessoas. Levar o morador de rua de volta ao mercado de trabalho, reinseri-lo na sociedade”, disse, em entrevista por e-mail, a secretária Teresa Bergher. “A situação que encontramos é dramática. E só vamos conseguir mudá-la com o apoio da sociedade”.
O panorama ainda não permite resolver dramas como os de *Luana (nome fictício), que está grávida de 4 meses e passa mal diariamente, sem dinheiro para comprar alimentos. Ela tentou dar entrada num pedido para receber Bolsa Família para tentar sair das ruas. Mas, enquanto dormia, furtaram sua mochila com todos os documentos.
— Arrumei minha coisas para dormir e fui roubada. Estou sofrendo para tirar os documentos de novo, é a maior dor de cabeça — conta.
A administradora Ana Carolina Pimentel é voluntária desde janeiro no projeto "Dois pães e um pingado", que leva 200 kits de café da manhã para pessoas em situação de rua. Além da alimentação, ela diz, a iniciativa também tem como lema levar carinho e atenção
— Muitas vezes esse é o único gesto de amor que eles têm na semana. É maravilhoso ajudar, conhecer e entender o próximo — diz. — Sempre passamos por essas pessoas e não atentamos a elas. Então, conhecer suas histórias é muito gratificante, tanto para a gente quanto para elas.
O projeto começou em novembro de 2016 e conta com a ajuda de doações. Além do Rio, ele atua em Niterói e no Recife. Para mais informações, acesse www.facebook.com/doispaeseumpingado/
*Estagiária sob supervisão de Elisa Martins


