Alessandro Valença tem 37 anos, um filho de 3 e outro a caminho — sua mulher está grávida de sete meses. Nascido e criado em Casimiro de Abreu, mora com a família no que se pode chamar de pedaço do paraíso: cercado pelo verde da mata e a 5 minutos da Cachoeira do Pai João, na localidade de Córrego da Luz, distante 10 quilômetros da cidade. Funcionário da área de saúde da prefeitura de Macaé, trabalha numa UPA. Sua rotina consiste em plantões segundas e quartas e cuidados com o filho no restante de seu tempo, já que a mulher trabalha em Petrópolis durante a semana. Tudo seguia assim até que, no último dia 3, uma sexta-feira, ele começou a sentir dores no corpo e de cabeça. Dores suportáveis, mas que se mostravam resistentes a analgésicos. Depois vieram enjoo e vômitos. Muito enjoo, principalmente.
— Parecia um resfriado comum. Eu não tinha noção da gravidade do que estava acontecendo dentro de mim — lembra ele.
Diante dos sintomas intermitentes, no domingo Alessandro decidiu ir até o hospital da cidade. Foi examinado, e amostras de sangue indicaram a queda de plaquetas. Foi orientado a voltar na terça-feira para acompanhamento caso não melhorasse. Ele não melhorou. E passou a apresentar a urina “cor de chá’’'. Na volta ao hospital, novos exames apontaram baixa de leucócitos e alteração nas taxas do fígado. Alessandro ficou internado. Hipóteses dos médicos: virose, dengue, hepatite A, leptospirose, febre amarela. A situação permaneceu inalterada — a dele e a do diagnóstico —até que uma prima, que trabalha no Corpo de Bombeiros de Casimiro, disparou o alerta sobre a possibilidade de febre amarela. Ela tinha participado do atendimento a Watila Santos, vizinho de Alessandro que apresentava os mesmos sintomas e faleceu no hospital da cidade.
A partir da mobilização dela, que insistiu na transferência do primo para um hospital com UTI, Alessandro conseguiu uma vaga no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), no Rio, onde ainda está internado. Segundo a Secretaria estadual de Saúde, pelos laudos de exames, Watila morreu em decorrência da febre amarela, e Alessandro também tem a doença. Mas ele ainda não foi informado disso.
— Estou indignado com a forma como a minha condição chegou ao público. Houve um telefonema comunicando o resultado do meu exame ao hospital, mas ninguém falou comigo ou com a equipe médica. Ninguém nos mostrou um laudo oficial. Esse comportamento por parte das autoridades ofendeu a mim e aos médicos. Nenhum secretário de saúde, prefeito ou governador cuidou de mim. Quem cuidou de mim foram os médicos e enfermeiros do HSE — critica ele.
Alessandro está bem. Ele e os médicos consideram que o pior já passou e que a doença foi superada:
— Os primeiros cinco dias são os mais críticos. O grande perigo era eu ter sangramentos, falência de órgãos e infecções. Agora, segundo os médicos, minhas estão se normalizando. Mas a atividade do meu fígado chegou a aumentar em 3 mil por cento. Os médicos falaram que meu fígado é muito forte.
A data de saída do hospital ainda não está definida. Assim que acontecer, Alessandro pretende voltar para Córrego da Luz e retomar a rotina que, segundo ele, em nenhum momento foi alterada antes de surgirem os sintomas:
— Não fiz nada de diferente. Tudo indica que há um foco na região onde moro. E o risco de isso virar uma epidemia é muito grande. Durante esse período de recuperação não tomei qualquer remédio. Somente soro. Não existe remédio para essa doença. O remédio está dentro do nosso corpo. Só que cada corpo reage de um jeito...
Ele demonstra preocupação pela mulher, que não pode tomar a vacina por estar grávida.
— Soube que o fumacê já passou pela região. Vamos passar repelente, botar tela na janela, ficar mais dentro de casa e ligar o ar-condicionado — planeja.
Alessandro tem outros planos para aproveitar a sorte que deu:
— Quero fazer algo melhor da vida já que tive essa segunda chance.



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