Ah, Paris... Era 1968, um ano histórico para a França, marcado por manifestações estudantis e greves de trabalhadores — o Maio de 68. Aos 16 anos, Gilberto Ururahy desembarcou com a família de mala e cuia na Rue des Écoles, no Quartier Latin. O pai, engenheiro militar, começaria um mestrado de três anos. A paixão da família pela cidade em ebulição foi imediata.
— Flanávamos em Paris como se estivéssemos em casa. A parada obrigatória era sempre na livraria Gibert Jeune, no Boulevard Saint-Michel — lembra Gilberto.
Foi nas aulas de anatomia, higiene e fisiologia do liceu, num curso equivalente ao nosso ensino médio, que o menino se encantou pela medicina. De volta ao Rio, em 1971, entrou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas nunca desfez os laços com a França. E esse caso de amor, que já dura quase cinco décadas, será selado nesta quinta-feira: praticante da medicina preventiva e sócio da clínica Med-Rio Check-up, ele receberá a Ordem Nacional do Mérito da França, no Country Club, em Ipanema, com a presença do embaixador da França no Brasil, Laurent Bili.
— Gilberto é associado há 14 anos da Câmara de Comércio França-Brasil. É um membro muito ativo e engajado, promove a nossa presença e reforça os laços franceses com o Rio e o Brasil, em particular no setor de saúde. É um embaixador da amizade franco-brasileira, e queremos reconhecer essa contribuição — destaca Brice Roquefeuil, cônsul-geral da França no Rio de Janeiro.
Na mesma ocasião, Gilberto também será homenageado com a medalha da Academia Nacional de Medicina da França, que será entregue pelo secretário perpétuo da entidade, Dr. Raymond Ardaillou:
— Raramente, em minha vida profissional, vivenciei o que estou sentindo agora, uma mistura de alegria e surpresa. As medalhas vão materializar a minha vida franco-brasileira. É um reconhecimento do meu dia a dia com a França, nos âmbitos médico, familiar, pessoal e cultural — destaca Gilberto, que já foi homenageado no Rio com as medalhas Pedro Ernesto e Tiradentes.
Gilberto é responsável pelo comitê de saúde da Câmara de Comércio França-Brasil desde 2003. Em 2005, participou de várias atividades culturais do Ano do Brasil na França. Na ocasião, lançou o seu segundo livro — “O Cérebro emocional” —, em Paris, onde conheceu sua atual mulher, Marie. Antes disso, fora casado com outra francesa, mãe de seu filho caçula, Philippe, um estudante de 19 anos. Em 2014, ele organizou o primeiro fórum médico franco-brasileiro, entre as academias nacionais de medicina dos dois países. E foi em solo francês que o médico conheceu a música de Paulinho da Viola e se tornou portelense.
— Em 1969, um primo desembarcou em Paris com um LP de Paulinho da Viola. Quando voltei para o Rio, a primeira coisa que fiz foi ir à Portela e fazer uma credencial. Me apaixonei.
Gilberto também é pai dos administradores Gilberto Bisneto, de 37 anos, e de Fabiana, de 35, e avô coruja de três meninos e uma menina, do tipo que conta histórias para eles dormirem. O médico tem outros dois “filhos” de papel: os livros “Como se tornar um bom estressado”, de 1997, e “Emoções e saúde”, de 2015. Suas três obras lançadas até agora foram escritas em parceria com o psiquiatra francês Eric Albert, considerado o maior especialista em estresse no trabalho na França.
— Em 1994, quatro anos depois de abrirmos a Med-Rio, li uma entrevista do Eric numa revista médica francesa com estatísticas do Ifas (Instituto Francês sobre Ansiedade e Stress), mostrando como os profissionais se estressam. Ele tinha a teoria e a prática no âmbito corporativo. E vi que isso tinha tudo a ver com meu trabalho. Na clínica, identificamos no corpo de cada cliente as manifestações do estresse — conta Gilberto, que se prepara para lançar o quarto livro, “A importância do diagnóstico precoce”, com o sócio Galileu Assis.
Para o parceiro Eric, Gilberto “não é especial, mas excepcional e de uma energia indescritível”:
—Quando Gilberto está envolvido em um projeto, ele move montanhas. É de uma generosidade sem limites. De uma inteligência e um profissionalismo ímpares.
A Med-Rio foi aberta em 1990, na torre do Riosul, já com um conceito pioneiro: afastar o check-up médico do ambiente hospitalar.
— O hospital é entendido como a casa do doente e da doença, suscetível a infecções. Achávamos que não era local para check-up médico. Em cinco horas, o cliente é atendido por uma equipe médica de ponta, faz os exames necessários, toma café da manhã ou lancha em nossa cafeteria e tem os resultados à disposição em nosso aplicativo, em 24 horas úteis, formando um dossiê médico, que, numa emergência, pode salvar uma vida — ressalta Gilberto, acrescentando que esse conceito já foi implantado em Genebra, na Suíça, e, em breve, será levado para Paris.
Para quem não sabe da importância do check-up anual, Gilberto alerta que, num exame físico do paciente, é impossível detectar com os dedos, por exemplo, um tumor de quatro milímetros:
— Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor o prognóstico — diz o médico, acrescentando que, após check-up, é possível montar um programa de saúde levando em consideração o estilo de vida do paciente.
Para o médico, o grande vilão do mundo moderno é o estresse: segundo uma pesquisa da Universidade de Stanford, na Califórnia, 73% das mortes no mundo atual são decorrentes de um estilo de vida inadequado. E 80% de todas as consultas realizadas mundialmente têm relação direta com o estresse, segundo Harvard.
— A geração dos hormônios ligados ao estresse, como cortisol e adrenalina, acarreta problemas como queda da imunidade, depressão, baixo desejo sexual, destruição de células ligadas à memória, insônia e ganho de peso. Com o tempo, o corpo vai ficando fragilizado, e as portas para múltiplas doenças se abrem, dependendo das individualidades — explica Gilberto.
Ao longo de 26 anos — sendo os últimos cinco também em uma filial, na Barra da Tijuca —, mais de cem mil check-ups foram realizados na Med-Rio. Atualmente, mais de 400 empresas utilizam os serviços da clínica, para assegurar a saúde de seus profissionais estratégicos.
— A empresa hoje precisa contar com seus executivos em plena forma. Já entenderam que mais vale investir em saúde do que gastar em doença. Hoje, o check-up médico é considerado instrumento de segurança empresarial — observa Gilberto.
Da análise desses milhares de check-ups, foi possível identificar um aumento no percentual de doenças que atingem os executivos: em 2015, 8% deles sofriam de depressão. Em 2016, esse número saltou para 11% e, no início de 2017, chegou a 12%. Os pacientes vítimas de ansiedade deram um salto de 18% para 30%; os acometidos por insônia, de 20% para 26%.
A amostragem também identificou que, em 1990, de cada nove vítimas de infarto, uma era mulher. Hoje, as mulheres, cada vez mais jovens, representam um terço do total de infartados.
— A mulher moderna fuma mais do que o homem, bebe igual, tem dupla ou tripla jornada de trabalho. É alvo fácil do estresse. O câncer de mama é o que mais assusta, mas as doenças cárdio e cérebro-vasculares matam duas vezes mais do que todos os cânceres femininos reunidos — afirma Gilberto.
No entanto, há resultados bastante positivos entre os executivos que adotaram o programa de promoção à saúde após o check-up, com redução de casos de estresse, diabetes e tabagismo, segundo o médico:
— Os pacientes saem de nossas clínicas com a consciência de que têm que se cuidar. Entre as medidas que recomendamos estão melhoria nos hábitos alimentares, redução da ingestão de cafeína, nicotina e açúcar, prática de exercícios físicos regulares, sono de qualidade e interação com amigos.
E Gilberto segue à risca as indicações: aos 62 anos, pratica todos os dias, com o auxílio de um personal trainer, exercícios aeróbicos, musculação e pilates. Quando tem um tempinho livre, foge com a mulher para Paris: ao menos duas vezes por ano aportam em solo francês.
— Fazemos toda a programação que minha mulher gosta, como estar com a família e os amigos. Gosto muito de ir aos antiquários médicos da Rue Jacob, no quartier de Saint-Germain. Fico ali pesquisando, curtindo e aprendendo. Gosto do contraste do antigo com o moderno — conta.
Amigo de Gilberto há 20 anos, o deputado estadual Carlos Minc (sem partido), de 65 anos, faz check-up anual na Med-Rio desde 2002 e, seguindo as recomendações médicas, adotou alimentação equilibrada e rotina de exercícios diários. Os resultados positivos ele sente em momentos importantes de sua vida, como no carnaval:
— Eu me sinto melhor e mais forte hoje do que há 15 anos. Saio em muitos blocos e sambo até o final.
Para Gilberto, uma diversão é cozinhar. Ele é muito amigo do chef francês Roland Villard, que, desde a abertura das clínicas, é o responsável pela organização dos lanches para os clientes. Gilberto adora exercitar as receitas que ele ensina em seu livro, “A dieta do chef”.
— Gosto de cozinhar frutos do mar. Já minha mulher não cozinha, só consome — diverte-se o médico, que tem suas preferências à mesa: — Não dispenso um bom arroz com feijão e farofa.
Roland Villard lembra que Gilberto foi uma das primeiras pessoas que ele conheceu, assim que chegou ao Rio, em 1997:
— Quando tenho qualquer dúvida, a primeira pessoa que consulto é o Gilberto. A opinião dele é muito importante para mim.
Agora, Gilberto se prepara para um novo desafio: ampliar a Med-Rio Botafogo, que, até junho, ocupará uma fachada e meia da Torre do Rio Sul:
— Dobraremos de tamanho. Mas a minha maior satisfação é, por meio de diagnósticos, contribuir para a longevidade com autonomia.




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