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Matança de macacos preocupa especialistas

Somente este mês, 104 macacos mortos foram levados para o Instituto Jorge Vaitsman, órgão municipal responsável pela necrópsia de todos os primatas do estado — a média é de 4,5 por dia, bem maior que a registrada ao longo de todo o ano passado, 1,6. Funcionários da instituição estão assustados, já que pelo menos 50% dos animais têm sinais de envenenamento ou agressões, o que leva especialistas a acreditarem que o Rio de Janeiro começa a assistir a uma matança motivada por um grave engano: muitas pessoas pensam que primatas são transmissores da febre amarela.

O Instituto Jorge Vaitsman, que fica na Mangueira, passou a receber, nas últimas duas semanas, muitos corpos de saguis, que têm grande circulação em áreas urbanas. Há até, entre os animais examinados, um mico-leão-dourado, espécie que corre risco de extinção. Segundo funcionários, bananas com chumbinho, veneno usado para ratos, foram encontradas perto de primatas mortos em Valença, cidade fluminense mais afetada pela febre amarela. A Secretaria de Saúde do município já registrou 117 notificações e confirmou 14 casos, incluindo quatro que resultaram em óbitos.

— Está havendo um massacre. Chegam corpos de filhotes. O sagui é o mais comum. Trata-se de um animal pequeno que se aproxima das pessoas. É fácil matá-lo — lamenta Roberta Ribeiro, coordenadora do Laboratório Municipal de Saúde Pública de Vigilância do Instituto Jorge Vaitsman.

Não é de hoje que a relação entre o medo infundado da população e a morte dos primatas se mostra clara em números. Em janeiro do ano passado, o Instituto Jorge Vaitsman recebeu apenas sete corpos de macacos. Em março, quando foi confirmado o primeiro caso da doença no estado, em Casimiro de Abreu, chegaram 90 para exames.

menos primatas, maior risco

Pesquisadora da Fiocruz, Marcia Chame destaca que a morte de uma grande quantidade de macacos no estado aumenta os riscos de as pessoas contraírem febre amarela:

— É importante preservá-los porque eles são uma espécie de alerta, indicam que o vírus da doença está circulando, e, de certa forma, nos protegem contra a febre amarela. Com menos macacos, o e o , os dois mosquitos transmissores, buscarão se alimentar do sangue de outros mamíferos, deixarão as copas das árvores e se aproximarão dos humanos. Além disso, os primatas são fundamentais para o equilíbrio ecológico, pois espalham sementes pelas matas.

Especialistas também alertam que a morte dos animais prejudica o sistema de vigilância contra a doença, pois sobrecarrega as equipes responsáveis pelas análises dos corpos e os agentes de vigilância sanitária encarregados de recolhê-los. Para piorar, dificulta o rastreamento do caminho percorrido pelo vírus.

—A máquina que analisa amostras de humanos e macacos é a mesma. A matança de animais diminui a capacidade de trabalho e desestabiliza o sistema de diagnóstico e vigilância — frisa o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz Ricardo Lourenço.

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