RIO - A vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada no Rio na noite do último dia 15, é o que estatísticos costumam chamar de ponto fora da curva. O Conjunto Esperança, onde foi criada, é uma das 16 comunidades do Complexo da Maré, uma região com indicadores sociais muito aquém da média da cidade.
Mas uma análise feita pelo GLOBO a partir de informações do Atlas de Desenvolvimento Humano do Brasil, elaborado pelas Nações Unidas, e dados da ONG Redes da Maré, mostra que Marielle foi um exemplo de superação, ao fazer parte do grupo de 0,05% de moradores da favela com mestrado. Além disso, alcançou uma condição socioeconômica acima da média da população do Rio.
Na capital, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é 0,799, considerado alto - quanto mais perto de 1, melhor. Na Maré, é 0,686, apontado como médio. Criada na comunidade, desde o ano passado a vereadora morava na Tijuca, região com um dos maiores IDHMs do município: 0,941. E Marielle conseguiu superar a renda média da população do Rio (R$ 1.492,63) e da Maré (R$ 527,58), ao receber salário bruto de R$ 18.991,68, o que dá aproximadamente R$ 14 mil líquidos.
O IDHM é um indicador elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e formado por dados de renda, longevidade e educação. Ele mostra que Marielle conseguiu se descolar da realidade da maior parte dos moradores da Maré, e isso ocorreu bem antes de ela se formar socióloga pela PUC-Rio: a barreira foi ultrapassada quando terminou o ensino médio.
Em 2010, no Rio, 45,91% da população entre 18 e 20 anos tinham o ensino médio completo. Na Maré, eram 23,45%. O complexo hoje abriga 46 escolas, mas apenas três unidades estão voltadas para este segmento: o Ciep Professor Cesar Pernetta, a Escola municipal Bahia e o Colégio estadual Professor João Borges de Moraes, inaugurado em março deste ano. Diretor da Redes da Maré, Edson Diniz diz que a melhoria no ensino poderia ser um divisor de águas na região:
- Essa é uma luta histórica da gente. Temos uma demanda muito grande, mas as duas escolas que existiam, agora são três, não dão conta. Isso dificulta muito o acesso ao ensino médio. O morador da Maré começa a trabalhar antes de chegar à faculdade. Se não tem escolas próximas, ele pode acabar impossibilitado, ficando só no trabalho.
Para completar o ensino médio, Marielle teve aulas noturnas no Colégio estadual Professor Clóvis Monteiro, em Manguinhos. Um censo realizado em 2013 pela Redes da Maré mostra que, dos 139 mil habitantes, 85,9% tinham ao menos o ensino fundamental completo. Outros 29,6% tinham também o nível médio. Só 2,4% se formaram na faculdade. Em 2010, o índice era 1,9%. E apenas 0,05% dos moradores conquistaram o mestrado, que Marielle concluiu em 2014, na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Diniz, que foi professor de história da vereadora no pré-vestibular comunitário que ela cursou na Maré, não se lembrava de ela ter um perfil muito diferente do restante dos estudantes:
- O pai tinha um pequeno comércio perto do pré-vestibular, o que pode ter sido uma vantagem. Mas geralmente quem chega ao curso já costuma ter um conhecimento melhor. A maioria das pessoas não tem ensino médio. Isso é uma vitória, é chegar a um nível que quase ninguém chega. Concluir o mestrado te distancia muito.
As favelas da Maré são controladas por pelo menos três facções. De acordo com a Redes da Maré, em 2017 foram 35 dias sem aulas, devido a operações policiais, cerca de 17% do total de dias letivos. Para Eliana Silva, diretora da ONG, isso é outra barreira para os estudantes do complexo:
- Se a tendência de 35 dias sem aula por ano for mantida, ao fim do ensino fundamental o estudante da Maré vai ter tido um ano e meio a menos de escolaridade.


