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Mangueira convida para desfile movimentos sociais e culturais envolvidos em polêmicas com Crivella

RIO - Para criticar o prefeito Marcelo Crivella, a Mangueira pretende tornar o seu desfile uma antítese da atual gestão municipal. Na festa da verde e rosa, o carnavalesco Leandro Vieira abrirá alas para valores culturais da cidade que, em sua concepção, têm sido negados pela administração carioca. Da folia de rua será celebrada a liberdade, contra a ideia de encarcerar a fuzarca num “blocódromo”. Todo credo religioso terá vez. E, depois de a prefeitura ter extinto o patrocínio à parada gay, a lacração vai ganhar protagonismo, com a estética LGBT espalhando cor e brilho no enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco” — uma resposta também ao corte de 50% das verbas às escolas de samba.

Na Velha Manga travestida de irreverência e pondo o dedo na ferida, um dos carros alegóricos será um botequim, onde bambas como Alcione, Sombrinha e Leci Brandão — que este ano volta a desfilar na Sapucaí — animarão uma roda de samba. Fazendo jus aos melhores bares da cidade, a cervejada rolará solta sob os auspícios de santos. No salão, haverá esculturas de São Jorge, São Cosme e Damião. E, na fachada do boteco, estará Nossa Senhora Aparecida, santa que já teve uma imagem chutada num programa de TV, em 1995, por um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (mesma denominação da qual Crivella é bispo licenciado).

— Ganhei a imagem de um torcedor mangueirense, benzida pelo padre da basílica de Aparecida. Num momento de tantos episódios de intolerância religiosa, achei pertinente reafirmar a pluralidade da fé. Serão santos, então, que abençoarão o boteco, dito mundano — diz Leandro. O carro, por si só, é altamente provocativo. O enredo não é uma pirraça. Em todo o desfile, traremos imagens afirmativas dos valores culturais da cidade que a atual gestão do município tenta diminuir — completa ele.

A “tentativa de domesticar a folia de rua carioca”, nas palavras do carnavalesco, será contestada num carro que proporá uma ode à subversão. Em cima dele, virão cerca de 200 foliões de vários blocos, como o Simpatia É Quase Amor, a Banda de Ipanema, o Cordão da Bola Preta, o Cordão do Boitatá e outras agremiações da Sebastiana. Todos juntos, eles promoverão uma espécie de “encontro dos blocos” no sambódromo. E manterão na passarela do samba o mesmo espírito anárquico que embala multidões pela cidade: cada desfilante vai ostentar sua própria fantasia, com aquele mesmo colorido que eles costumam tomar ladeiras de Santa Teresa ou avenidas do Centro.

— Não quero mascarar a possibilidade de as pessoas se fantasiarem para brincar o carnaval. Estamos, claro, fazendo uma seleção atendendo a critérios estéticos, dos foliões mais caprichados. Alguns são luxuosos, ou tros irreverentes — afirma Leandro, contando como escolheu os brincantes de rua que virarão destaque na verde e rosa. — Eu tenho uma memória afetiva do carnaval de rua. Boa parte dos personagens sempre habitou minha cabeça de folião. Então, usei as redes sociais para encontrá-los e convidá-los para desfilar.

Estará na alegoria o palhaço Doutor Giramundo, do Gigantes da Lira, de Laranjeiras. Pelo Facebook, Leandro encontrou grupos de pretos velhos que se divertem nas imediações da Avenida Rio Branco e da Cinelândia. Haverá pernas de pau, tão comuns a blocos como o Boi Tolo e Orquestra Voadora. Do subúrbio, virão os bate-bolas. E foi convocado também o famoso Homem Folha, que aparece em vários eventos da cidade coberto de plantas de plástico, como se estivesse camuflado.

Além dos blocos, Leandro tentará contato com o Jongo da Serrinha, cuja sede em Madureira fechou as portas por tempo indeterminado, no início deste ano, após deixar de receber investimentos da prefeitura por meio do edital de fomento.

Mas o protesto não vai parar por aí. Se a Parada LGBT do ano passado quase não aconteceu, sem apoio do município, o movimento de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e intersexuais estará em peso na Sapucaí. Para contrariar o baixo astral, famosas do Rio estarão no sambódromo, numa seleção de dar inveja a qualquer “RuPaul's Drag Race”. Terá Juju Maravilha, frequentadora assídua da Banda de Ipanema, com sua tradicional fantasia de Carmen Miranda; os irmãos Kary e Kátia Furacão, musas de blocos e paradas gays; e a Mulher da Mala, outra famosa personagem das bandas de carnaval cariocas, encarnada por Eduardo Rosemberg.

Já as inconfundíveis Isabelita dos Patins e Laura de Vison, ícones dos transformismo brasileiro, ganharão esculturas de cerca de cinco metros de altura num dos carros alegóricos.

— A imagem de Laura de Vison, por exemplo, é bastante escrachada, pondo seus grandes seios para fora — afirma Leandro, que em outubro do ano passado, quando divulgou os protótipos de suas fantasias, já tinha revelado que uma de suas alas faria uma alusão à polêmica da cura gay.

O artista só não revela se fará alusões diretas ao alcade, com alguma escultura, imagem ou nome dele em carro alegórico ou ala. Diz que, por enquanto, não. Mas também ressalva que ainda tem cerca de um mês para terminar de desenvolver seu carnaval.

A Mangueira será a sexta escola a desfilar no domingo de carnaval (11 de fevereiro). No mesmo dia, a Paraíso do Tuiuti, quarta a se apresentar, terá um destaque representando o presidente Michel Temer, vestido de vampiro, além de uma ala que fará alusão à Reforma Trabalhista. No mesmo dia, desfilam ainda o Império Serrano, a São Clemente, a Vila Isabel, a Grande Rio e a Mocidade Independente de Padre Miguel.

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