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Mais um soldado denuncia agressão de militares durante trote

O promotor Jorge Augusto Lima Melgaço, do Ministério Público Militar do Rio de Janeiro, informou nesta sexta-feira ao GLOBO que mais um soldado da 27ª Brigada de Infantaria Paraquedista foi identificado como vítima de agressão durante trote para ingresso na unidade. Esse segundo caso foi incluído na denúncia apresentada à Justiça Militar em março deste ano. O rapaz relatou que foi agredido por um grupo de cabos no mesmo dia em que um outro soldado passou por uma sessão de espancamento — após o ataque, ele teve um dos testículos extraídos. Com lesões graves, o militar reconheceu os algozes e todos foram denunciados por lesão corporal.

— Ele foi submetido ao mesmo ritual de espancamento, um violento trote, com a aplicação de todo tipo de agressão física — afirmou o promotor.

A agressão também aconteceu no alojamento de cabos. Segundo a denúncia, o militar teve os pés e as mãos amarrados.

— Ele recebeu muitos golpes, chutes, sem condições de reação. Além disso, os agressores usaram cordas, toalhas, cintos, pedaços de fios e ripas de madeira e borracha, retiradas dos acabamento das mesas do alojamento — disse o promotor, que é o autor da denúncia.

Os agressores foram denunciados à Justiça Militar em 14 de março. Em seguida, foi aberto um processo na 3ª Auditoria da 1ª Circunscrição. A primeira audiência do caso está marcada para o dia 10 de maio. Todos respondem por lesão corporal qualificada e, caso sejam condenados, os militares poderão receber penas que variam de dois e oito anos de prisão.

Um terceiro soldado também seria submetido ao espancamento naquele dia, mas escapou porque desmaiou.

— Ele foi levado ao alojamento e passaria pelo trote. Acabou desmaiando quando viu o colega (o que teve o testículo extraído) ser brutalmente agredido. Vamos usar todo o rigor, com o devido respaldo legal, para que casos como esses não se repitam. É preciso interromper a prática. Já vimos isso até em universidades. Uma pessoa poderia ter morrido — afirmou Melgaço.

Como o GLOBO mostrou nesta sexta-feira, um soldado da unidade contou que foi violentamente agredido em maio de 2016, durante um trote aplicado por um grupo de 18 militares de patente superior. Uma espécie de batismo sádico, em que o calouro é submetido a intenso espancamento com os pés e as mãos amarrados. No caso do soldado, sem nenhuma chance de defesa. Segundo o militar, durante cerca de dois minutos ele levou chutes e foi espancado, com uso de paus, pedaços de fios e de plásticos.

No fim, um dos agressores ainda gritou: “Soltem o cachorro. Soltem o cachorro”. Nesse momento, um cabo, conhecido no batalhão pelo apelido de Cachorro Louco, partiu em direção à vítima, simulando ser um cão e mordendo violentamente suas nádegas, arrancando pedaços. Em casa, o soltado percebeu um sangramento no pênis e, mais tarde, precisou extrair um dos testículos. Ele foi operado no Hospital Central do Exército.

Em nota, o Comando Militar do Leste ressaltou que o Exército “não compactua com qualquer tipo de irregularidade, repudiando veementemente atitudes relacionadas a maus-tratos, que contrastam com a imagem de uma instituição conhecida e respeitada pela seriedade e transparência no trato de assuntos ligados à atividade militar”. Ainda segundo o órgão, “o envolvimento de militares do Exército em delitos de maus-tratos ocorre de forma pontual e isolada. Sempre que há denúncias, a instituição investiga e encaminha à Justiça Militar, a quem cabe julgar e aplicar penas”.

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