“Bom dia”, diz Lellêzinha ao sair de seu quarto, com os pés descalços, vestindo short e blusinha. Acordou há pouco tempo, ainda não está quebrando de ladinho até o chão, como canta em um dos sucessos do Dream Team do Passinho, mas não consegue ficar muito tempo parada. Fala com as mãos e com o corpo o tempo todo, levantando-se do sofá vez ou outra, como se não coubesse em seu 1,65m de altura.
É uma menina de 19 anos e, ao mesmo tempo, uma mulher sensual. Sabe o que quer desde o tempo em que cantava e dançava em frente ao espelho, fazendo de conta que o desodorante era microfone, na casa da avó paterna, Maria José, a quem chama de “tesouro, tesourinho”. Os cabelos cacheados, pintados de ruivo há três meses, não estão soltos ao vento, como ela se acostumou a exibi-los nos 88 shows que fez ano passado, e também nas fotos e vídeos que compartilha com mais de meio milhão de fãs nas redes sociais — a maioria garotos que dariam tudo para sair com ela e meninas apaixonadas pelo seu jeito de ser. E pensar que, até poucos anos, sonhava com um cabelo diferente.
— Demorei a entender um conselho da minha avó: você é bonita do jeito que é. Colocava muita química, só parei de fazer alisamento aos 15 — conta, mexendo nos cachos. — Quando somos nós mesmos, todos querem ficar perto da gente.
Pode parecer frase de efeito, mas é a maturidade de alguém que sofreu para vencer. Nascida Alessandra Ayres Landim, Lellêzinha, musa do Dream Team — grupo formado por ela, Rafael Mike, Pablinho, Breguete e Hiltinho —, já levou Brasil afora a dança nascida nas favelas cariocas. Tocaram até em Nova York, onde muitos a paravam na rua para elogiar seu style.
Nas cerimônias de abertura da Olimpíada e de encerramento da Paralimpíada, poucos chamaram tanta atenção quanto a turma do Dream Team. O Maracanã lotado sabia cantar músicas como “De ladin”, que fez parte da trilha sonora da novela “A regra do jogo”. Ela ainda tem tempo de atuar na televisão, onde fez duas novelas e uma série na Rede Globo, e no cinema. O filme “Correndo atrás”, dirigido por Jeferson De e baseado no livro “Vai na bola, Glanderson”, de Hélio de la Peña, estreia este ano.
A menina que dançava sozinha na rua, sem música, imaginando estádio cheio, realizou um sonho no Maracanã. E está prestes a viver mais um, no dia 2, no festival Pepsi Twist Land, na Marina da Glória, com o show “Dream Team do Passinho canta e dança Jackson Five”. Serão 13 músicas do rei do pop no começo de sua carreira, quando se apresentava com os irmãos. Será o encontro de dois gingados da música negra: o da família Jackson e o do “time dos sonhos" do passinho.
O diretor e roteirista Rafael Dragaud conheceu Lellêzinha quando dirigiu a Batalha do Passinho, disputada até 2013 pelos melhores dançarinos do estilo, herdeiro direto do funk e muito popular entre os garotos nos bailes das favelas cariocas. Lellêzinha não chegou à final, mas deu um jeito de furar a barreira de segurança e se aproximar do diretor.
— Na hora tive um estalo. Ela não era mais competidora e achou um jeito de aparecer nos bastidores. Quando vi, estava do meu lado, completamente arrumada, de salto alto, e eu pensei: essa menina tem alguma coisa. Não sabia se era talentosa ou não, mas senti que era especial e queria chegar a algum lugar. Depois descobri que tem talento, mas tem algo ainda mais importante: perseverança, rigor e capacidade de manter o foco — afirma Dragaud.
No mesmo ano, ele escolheu cinco jovens da Batalha do Passinho para dançarem no clipe "Todo mundo aperta o play", numa campanha da Coca Cola. Lembrou de Lellêzinha, e também de Rafael Mike, criado em Nova Iguaçu, Pablinho, da Rocinha, Diogo Breguete, da favela da Chacrinha, e Hiltinho, também de Nova Iguaçu. O clipe tem mais de 17,5 milhões de visualizações no youtube. Nascia o Dream Team do Passinho, com o diretor gerenciando a carreira do quinteto.
— Lellêzinha é uma esponja, capaz de absorver qualquer conteúdo. Ela não sabia falar inglês, era uma admiradora de Michael Jackson, mas não tinha familiaridade com sua música no sentido técnico. Hoje tem domínio pleno. Os limites da Lellêzinha ela é quem vai decidir: vai até aonde quiser — diz Dragaud.
Quem vê Lellêzinha no palco, dançando com a ousadia do passinho, talvez não imagine que ela foi educada no seio de uma igreja evangélica, onde começou a cantar. A avó paterna, Maria José, é pastora. Nunca foi a um show da neta, mas gosta das músicas. Em 2016, Lellêzinha comprou uma geladeira para ela, daquelas inox, com dois andares - dona Maria José achava que só veria uma igual “em casa de madame”.
— Ela dizia pro homem da entrega: "Moço, por favor, cuidado com a minha geladeira". Fiquei olhando toda boba. Consegui comprar outra geladeira pra minha mãe também. As duas no mesmo ano! — exclama a menina, sempre sorrindo, dando um salto do sofá.
Lellêzinha fala muito da avó, seu "tesouro, tesourinho". Foi dona Maria José quem a criou na infância - Luana, sua mãe, tinha apenas 15 anos quando engravidou. Ela se divide entre a casa da avó, em Vila Valqueire, e de sua mãe, ali perto, na Praça Seca, onde todas as crianças da vizinhança a conhecem. Ao saber que a reportagem do GLOBO estava procurando a casa da artista, Beatriz, de 7 anos, pediu para gravar um vídeo mandando um recado.
— Oi, Lellêzinha, vem aqui na minha casa?
Se ela olhava-se no espelho, cantando mesmo sem música, querendo ser como Beyoncé — não apenas por ser uma artista famosa, mas também pela falta de referências de cantoras negras no Brasil, no estilo que a encantava —, hoje meninas do Brasil inteiro têm Lellêzinha para se inspirar. Querem ter o cabelo igual ao dela, vestir-se como ela, ser igual a ela. É a roda da vida girando, e o mundo mudando, ainda que lentamente.
Quando tinha 7 anos, a pequena Alessandra recebeu uma triste notícia dos lábios da mãe. Seu pai, a quem era muito apegada e que estava morando em Macaé, foi assassinado por um amigo, que lhe deu um tiro nas costas por motivo incerto.
— Era noite. Minha mãe contou e eu achei graça. Era impossível aquilo ter acontecido. Depois entendi. Consolei minha mãe e sofri calada. Nunca fui de conversar, não falava muito bem com as pessoas da minha família. Quando comecei no Dream Team, o pessoal da produtora (Toca Tudo Produções, dirigida por Rafael Dragaud) me ajudou a me abrir. Comecei a fazer análise e aprendi que é uma escolha o jeito como queremos viver — afirma a menina, com cabeça de mulher. — O ser humano não é preparado para perder, nem se for um celular, ainda mais um pai. Mas isso é comum entre as crianças negras do Brasil, ter o pai assassinado. Sou, como todos que passam por isso, uma sobrevivente.
Lellêzinha raciocina que, se tivesse nascido no tempo de sua avó, "jamais chegaria tão longe". Diz sentir-se, por isso, "uma negra privilegiada". Além de cantar e dançar como poucos, tem coragem de falar sobre o mal resolvido racismo brasileiro, e também sobre a distância entre favela e asfalto.
— Essa semana fui gravar um clipe na favela Tavares Bastos. Fiquei olhando, lá de cima, a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Fiquei pensando: daqui pra lá é tão perto, mas tão longe. Quem vem de lá é cool, é bacana, mas quem quer ir daqui pra lá sofre. Só o conhecimento e a informação faz a gente superar essa distância.
Antes dos shows, mantém o hábito de fazer a própria maquiagem. Ela e o grupo, amigos inseparáveis, rezam uma ave-maria e um pai-nosso ("quem tiver no meio também reza junto", conta). Ao entrar no palco, evoca a presença de Deus, pensa no pai que tanto amava e também em dona Maria José. Entra em cena quebrando de ladinho, rabiscando no passinho. Tesouro, tesourinho.



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