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Jovem morto na Cidade de Deus queria ser jogador de futebol

RIO - Jeremias Moraes, de 13 anos, não gostava de matar aula. Na tarde da última terça-feira, ele estava na Rua Tancredo Neves porque sua escola, o Ciep Hélio Smidt, no Complexo da Maré, tinha fechado as portas por conta de uma operação policial - assim como outras 39 unidades da região. O menino participava de uma pelada quando começou um tiroteio, pouco depois das 14h.

Tentou buscar refúgio na casa de um amigo, mas não chegou a tempo. De acordo com o laudo da necrópsia, Jeremias estava de perfil quando foi atingido no tórax por uma bala que atravessou seu corpo. Ele ainda foi levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, mas já chegou ao local sem vida.

A vida de Jeremias era cheia de sonhos. Ser jogador de futebol era um deles. Também queria se tornar músico, aprender idiomas e ser missionário. Desde que foi batizado na Igreja Assembleia de Deus Ministério Leblon, na Maré, há seis meses, nunca faltou a um culto.

Apesar da pouca idade, fazia jejuns e acordava de madrugada para rezar. O templo, localizado a poucos metros do tiroteio, receberia o velório de Jeremias, na madrugada desta quinta-feira. O enterro será às 11h, no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador.

- Ele era um garoto de ouro, amado por todos. Tinha um futuro brilhante pela frente. Sonhava ser jogador de futebol e, entre outros projetos, queria ser missionário. Tinha no coração essa vontade de conhecer mais as coisas de Deus. Um garoto especial, uma grande perda para nós - lamentou o pastor Adelson Galdino, que acompanhou parentes nesta quarta-feira no Instituto Médico-Legal.

Nascido e criado na comunidade Nova Holanda, que integra o Complexo da Maré, Jeremias aprendeu cedo a ser responsável. Mais velho entre cinco irmãos, tomava conta deles quando os pais - um ajudante de pedreiro e uma auxiliar de serviços gerais - estavam no trabalho.

Ainda assim, arrumava tempo para desenvolver novas habilidades. Sempre que podia, se inscrevia em oficinas oferecidas pelas ONGs Redes da Maré e Luta Pela Paz, que atuam na região. O projeto mais recente do qual participou foi o Mão na Lata, no qual aprendeu a técnica de fotografia pinhole - feita com máquina de lata, sem lente.

Certa vez, pediu para participar de um projeto de reforço escolar, mas foi impedido por ter boas notas.

- Ele tinha um desenvolvimento escolar bom, então não havia necessidade de fazer aulas de reforço. Queria participar porque gostava de estudar - conta Lidiane Malanquini, coordenadora da área de Segurança Pública da Redes da Maré.

Decidido a aprender a tocar violão, mas sem dinheiro para pagar por aulas, o jovem pediu ajuda ao pastor. Em troca, tocaria nos cultos. Na segunda-feira, um dia antes de morrer, teve sua primeira aula. A mãe de Jeremias, Vânia de Moraes, de 39 anos, estava no velório de um amigo, na tarde de terça-feira, quando recebeu a notícia de que o filho havia sido baleado. Em um relato emocionado, no Souza Aguiar, ela falou sobre os sonhos do filho e contou que ele se preparava para iniciar cursos de inglês e espanhol:

- Deus me deu cinco filhos, agora só tenho quatro. Eu sei que muitas mães estão passando por isso hoje... Mas é uma dor de arrebentar a alma acordar e não ter meu filho.

A rua onde Jeremias foi baleado é uma das principais da Nova Holanda, com 1,6 quilômetros de extensão, ligação entre a Linha Amarela e a Rua João Araújo. Nela há três igrejas, um posto de saúde, uma unidade administrativa da Comlurb, associações de moradores, sedes de projetos sociais e oito escolas - inclusive o Ciep onde Jeremias deveria estar naquela terça-feira.

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