RIO - Se alguma escola de samba escolhesse como enredo as dificuldades de se levar o carnaval para o Sambódromo, o ano de 2017 mereceria figurar no abre-alas. Depois do corte de 50% na subvenção para as agremiações, feito pelo prefeito Marcelo Crivella, e que resultou até em ameaças de suspensão da festa, a folia recebeu um novo golpe, que pode afetar os preparativos para o desfile, que acontece em menos de quatro meses. Nesta sexta-feura, a Cidade do Samba foi interditada por tempo indeterminado por fiscais do Ministério do Trabalho. Após inspecionarem as instalações por dois dias, eles concluíram que o espaço, onde operários trabalhavam em ritmo frenético dentro dos barracões, tem problemas de segurança que podem colocar em risco os funcionários. Entre os itens apontados, estão instalações elétricas em mau estado de conservação e vazamentos de esgoto. Algumas escolas também foram intimadas a rever suas regras de segurança.
Durante a tarde, técnicos do Ministério do Trabalho se reuniram com diretores da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) para explicar os motivos da interdição de cada um dos 13 barracões. A assessoria do órgão não entrou em detalhes sobre os problemas identificados e afirmou que vai divulgar um relatório sobre a situação da Cidade do Samba na segunda-feira. O presidente da Liesa, Jorge Castanheira, disse que ainda é preciso entender quais são as exigências.
— Sabemos que as determinações estão muito ligadas à parte elétrica. Mas cada agremiação recebeu uma recomendação. A análise terá que ser feita caso a caso — disse Castanheira.
A interdição deixou atônitos presidentes de escolas de samba, como Ney Filardi, da União da Ilha. Ele classificou a medida tomada pelos fiscais como dura demais:
— Interditar os barracões é uma injustiça com as escolas. Trata-se de uma medida dura demais. Os fiscais deveriam ter dado um prazo para que as exigências fossem cumpridas.
O presidente da União da Ilha lembrou que toda a infraestrutura da Cidade do Samba foi implantada pela prefeitura, que construiu o espaço. As escolas assumiram o lugar em 2005, logo após o término da obra, que custou aos cofres do município mais de R$ 100 milhões (em valores da época). Segundo ele, as regras do Corpo de Bombeiros para instalações elétricas e sistemas e prevenção a incêndios eram diferentes das atuais. Nem todas as escolas, no entanto, se adaptaram às novas diretrizes.
— A Cidade do Samba foi liberada pelos bombeiros na inauguração. Mas, de fato, poucos barracões tiveram a estrutura de prevenção redimensionada, como a União da Ilha. A prefeitura reviu e modernizou nosso sistema de prevenção após um curto-circuito que destruiu o barracão em 2011 — acrescentou.
A São Clemente também alega que modernizou as instalações elétricas do barracão depois que um funcionário morreu eletrocutado, há dois meses, quando trabalhava na confecção de um carro alegórico. O presidente da amarelo e preto, Renato Almeida Gomes, calcula agora que, a cada dia de paralisação, pelo menos 200 fantasias deixarão de ser produzidas. Ele teme atrasos na montagem dos carros alegóricos.
— Os fiscais disseram que eu tinha que trocar a tubulação de esgoto de um dos banheiros e mudar o tipo de tomada que existe nos barracões. Mas não vi necessidade de fecharem tudo. Daria para trabalhar isolando as áreas interditadas — reclamou Renato.
O presidente de uma das maiores campeãs do carnaval, que pediu para não ser identificado, também criticou a ação:
— Em 2016, a Liesa cedeu barracões para o Comitê Organizador da Olimpíada preparar parte das fantasias e montar estruturas usadas nas cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos. Na época, toda a Cidade do Samba passou por uma inspeção rigorosa dos bombeiros. Não dá para acreditar que a situação piorou tanto em pouco mais de um ano — disse.
O inferno astral das escolas começou no início deste ano, aos olhos do público. Durante os desfiles, um carro alegórico da Unidos da Tijuca desabou parcialmente enquanto evoluía na avenida. Outro carro, da Paraíso do Tuiuti, perdeu a direção e imprensou espectadores contra as grades do Setor 1. A radialista Elizabeth Ferreira Jofre, a Liza Carioca, foi um dos 32 feridos nos dois acidentes. Ela morreu após dois meses de internação.
Meses depois, em junho, o prefeito decidiu reduzir de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão o subsídio que o município distribui para as escolas do Grupo Especial. As agremiações ameaçaram não desfilar, mas voltaram atrás diante da promessa de que a verba seria repassada em cinco parcelas este ano. O pagamento, no entanto, não aconteceu.
Depois de vários adiamentos, os R$ 900 mil que cada escola esperava receber na última quinta-feira não foram liberados. A previsão agora é que os recursos sejam repassados na semana que vem. Os R$ 100 mil que faltam só serão entregues em 2018. A Riotur ainda tenta captar R$ 6,5 milhões em patrocínios para as agremiações. A União também prometeu ajudar com apoio institucional das estatais, mas não há nada fechado. Por conta de tantos problemas e orçamento apertado, a Liga decidiu suspender os ensaios técnicos realizados na Marquês de Sapucaí. Parecia não poder piorar, mas piorou.


