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Grávida que vende café na Avenida Brasil ganha chá de bebê de passageiros

RIO - Beatriz dos Santos, de 19 anos, carregava sua garrafa térmica cheia de café adoçado pelo asfalto da Avenida Brasil quando um ônibus parou. Enquanto andava entre os carros, vendendo a bebida por R$ 1 ou R$ 2 a motoristas, um passageiro do veículo gritou: “Você quer um chá de bebê?”. Isso aconteceu três semanas atrás, na altura da Ilha do Governador. Beatriz, sem entender direito a situação, sorriu, disse “sim”, deu o número de seu telefone e seguiu trabalhando. Esperava, no máximo, que algum dia o ônibus parasse perto dela outra vez, em meio ao engarrafamento das sete da manhã, e alguém descesse para lhe entregar um pacote de fraldas ou roupinhas usadas. Para sua imensa felicidade, não foi o que aconteceu.

No dia combinado pelo WhatsApp com os passageiros até então desconhecidos, Beatriz embarcou com a mãe e a filha mais velha, Emily Vitória, de 3 anos, no ônibus. Foi surpreendida com uma verdadeira festa: a turma da linha 113-D se preocupou em decorar o veículos com flores e balões, preparou bolo e salgadinhos, levou refrigerantes e, é claro, comprou muitas fraldas, além de roupinhas de bebê, para a vendedora de café, que está no sétimo mês de gestação.

Beatriz fazia bicos como manicure antes de começar a circular, já grávida, com sua garrafa térmica pela Avenida Brasil. Para ela, dia de sorte é aquele em que coloca R$ 50 no bolso. O valor corresponde à quantidade de café que prepara diariamente, por volta das 5h. O dinheiro que ganha no asfalto serve para montar um barraco num terreno que a mãe, Silane de Paula, de 40 anos, comprou no Trevo das Missões, em Duque de Caxias

— Ainda existem pessoas que pensam no próximo, o que é muito difícil. Fui ajudada por gente que eu não conhecia — disse Beatriz, que chorou ao ver o ônibus decorado para o chá de bebê.

Durante a festa, o batom de uma passageira virou pincel, e a barriga de Beatriz foi enfeitada com o nome de Heloísa e um coraçãozinho no umbigo. Depois, Beatriz foi vendada e recebeu o desafio de adivinhar os presentes que estava ganhando pelo tato. A brincadeira se estendeu até Niterói, e ela, a mãe e a filha voltaram de carona no veículo, uma cortesia de Jorge, o motorista.

“Se perder, já era” é a maneira como os passageiros se referem à linha 113-D, que parte de Itaguaí, cruza o Rio pela Avenida Brasil e chega a Niterói. O ônibus, que só faz duas viagens por dia (uma de ida e uma de volta), costuma pegar a mesma turma todas as manhãs — assim, surgiram amizades que já duram 15 anos. Pelo tom do “bom dia”, quem embarca já sabe quando Jorge acordou de mau humor. A empatia de todos pela vendedora de café crescia a cada dia: era impossível não prestar atenção naquela barriga que aparecia entre os carros.

O chá de bebê foi realizado no primeiro dia de viagem do estudante de história Rodolfo Mattos, de 22 anos, no “Se perder, já era”. Ao embarcar em Deodoro rumo à UFF, ele se surpreendeu com o veículo cheio de flores e balões. Ele registrou imagens da festa em seu perfil no Facebook, e, até a tarde desta quinta-feira, a postagem já tinha mais de cem mil compartilhamentos. Vários internautas o procuraram para saber como poderiam ajudar Beatriz.

— A reação de todo mundo foi muito calorosa. Ela ficou com os olhos cheios de lágrimas — contou o estudante, que se preocupa com a situação financeira da futura mamãe que acabou de conhecer. — Beatriz é uma pessoa muito humilde, e uma hora vai ter que parar de trabalhar. Está precisando de um carrinho e de material para construir a casa dela.

O pai do bebê, o ambulante David, de 19 anos, mora com a mãe em uma outra comunidade de Duque de Caxias. Assim como a namorada, ele vende café, mas em frente ao Hospital Moacyr do Carmo.

Beatriz quer trabalhar até os oito meses de gestação. Diz que não se importa de enfrentar sol, chuva e poeira “para terminar a casa”. Só resta à mãe, Silane, de quem Beatriz é a única filha, rezar todos os dias, pedindo proteção e prosperidade para a jovem. Desde que o calor aumentou, as vendas andam fracas: ontem, o café só rendeu R$ 10. Mesmo assim, a futura avó de Heloísa acredita que a festa foi um sinal de que dias melhores virão:

— Como tem sorte minha netinha!

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