RIO - Uma anomalia climática vem mudando a paisagem das praias da Zona Sul. Enquanto banhistas encontram cada vez menos espaço nas areias do Arpoador, a faixa do Leblon não para de crescer. E a tendência deve continuar até o fim do verão. O fenômeno preocupa especialistas porque, sem a proteção da areia, o calçadão fica mais exposto à ação do mar. O mesmo vale para o emissário submarino, que já está à mostra em Ipanema.
— Isso é um problema cíclico do mar. Quando estamos sob o efeito do El Niño (aquecimento acima do normal das águas do Oceano Pacífico Equatorial), não existe o movimento pendular. Então, o ano inteiro a areia fica indo do Arpoador para o Leblon. É o mesmo problema que afeta a Praia da Macumba — explica o professor de engenharia costeira da Coppe/UFRJ Paulo Cesar Rosman. — Se a praia tivesse um estoque de areia decente, não teria problema. Esses efeitos acontecem pois falta areia. E isso é causado porque, por mais de 50 anos, se dragou o Canal do Jardim de Alah, no Leblon, retirando um milhão e meio de metros cúbicos de areia de lá.
No outono e no inverno, o natural é que os ventos soprem da direita para a esquerda (olhando de frente para o mar), levando, assim, a areia do Leblon para o Arpoador. Mas o movimento foi inverso este ano. Agora, na primavera e no verão, a tendência é que os ventos continuem — como é normal — a levar areia para o Leblon, deixando o Arpoador ainda mais “magro”. A direção dos ventos mudou de abril a setembro, segundo especialistas, por causa da trajetória das frentes frias, que passaram a chegar à cidade vindo do alto-mar, e não pelo litoral como seria o esperado.
Além do El Niño, outra possibilidade debatida por estudiosos é a influência do aquecimento global no agravamento da situação. O oceanógrafo David Zee acredita que as mudanças climáticas têm relação direta com o que está acontecendo no litoral carioca. Já o doutor em engenharia costeira pela Coppe/UFRJ Guilherme Aguiar concorda com Rosman e diz que o fenômeno é cíclico. Ele acrescenta, porém, que o quadro vem se agravando cada vez mais por causa do aumento do nível do mar e da redução da quantidade de areia. Ele cita ainda a ocupação irregular do solo:
— Não dá para dizer que é aquecimento global. É a natureza sendo natureza. Urbanizamos mal. As nossas praias estão como se fossem um cobertor curto. São fenômenos cíclicos, mas não acontecem todos os anos. A frequência tem sido, aproximadamente, de três em três anos, mas não há data específica.
Guilherme Aguiar diz ainda que a tendência é que o problema se agrave porque as praias continuam a perder areia, principalmente pelos canais do Jardim de Alah, no Leblon, e do Rio Morto, na Praia da Macumba.
— A areia entra no canal levada pelas correntes de maré e não é devolvida. A solução é prolongar a embocadura desses canais, levando a uma profundidade maior (de seis a oito metros), para que a areia não se movimente. Dragar o canal e jogar a areia de volta para praia também amenizaria o problema — disse o professor.
Se as causas ainda são discutidas, especialistas não têm dúvidas sobre a necessidade de se tomar medidas emergenciais no Arpoador, com o objetivo de evitar tragédia semelhante à que ocorreu na Praia da Macumba, onde a força do mar destruiu parte do calcadão, derrubou quiosques e danificou imóveis. Lá, afirmam os especialistas, a areia perdida para o Canal do Rio Morto era usada para a construção civil, e não retornava à praia.
O movimento natural para equilibrar a faixa de areia só deve começar com a chegada do outono, em março de 2018, quando, se nenhuma anomalia voltar a acontecer, os ventos levarão areia do Leblon para o Arpoador. Enquanto isso, as consequências já começam a aparecer. Uma das escadas usadas por banhistas no Posto Oito quebrou com a ação do mar.
Para David Zee, o governo deveria fazer o que a natureza não fez este ano: transportar areia do lado direito para o esquerdo, forçando assim o “engordamento” do Arpoador.
— A prefeitura deve fazer isso. É a única saída em tempo hábil. Depois, pensando no emissário submarino exposto, pode fincar estacas ao longo da tubulação para estabilizá-la e garantir que sofra menos com essa movimentação do mar. Mas é fundamental um acompanhamento da estrutura pela Cedae, para evitar um rompimento, como já ocorreu em 1999 — acrescentou.
A Cedae informou que monitora constantemente o emissário e que, até o momento, “não foram identificadas ações que possam prejudicar o funcionamento” da estrutura. Segundo a empresa, “as alterações de maré são previstas”, mas, “caso seja identificada alguma mudança significativa que impacte na estrutura e na operação do sistema”, as medidas necessárias serão tomadas. Em 1999, informou a Cedae, houve um rompimento no emissário devido à fadiga de pilares de sustentação, que foram substituídos.
Já a prefeitura informou que a Fundação Rio-Águas iniciou um estudo para o gerenciamento costeiro, mas que busca “parcerias técnicas e convênios para o seu prosseguimento”. Sobre a escada no Arpoador, prometeu fazer uma vistoria no local.



