RIO — Antônio Marcos Pereira Batista, de 15 anos, foi um filho muito esperado por sua mãe, dona Nanci, de 55, que só conseguiu engravidar aos 40 após fazer inseminação artificial. Ontem à noite, estavam em casa quando a tormenta chegou: eles, o pai do menino e outros quatro parentes, que moram na casa 14 de uma vila no número 385 da Rua Miguel Rangel, em Cascadura.
Por volta das 2h, o que era a sala deixou de existir. A água da chuva, que desce das ruas Itamaraty e Santo Sepulcro, formou um rio e atravessou as paredes de três vilas coladas uma a outra, destruindo casas pelo caminho. Quando chegou à casa de Marquinhos, como as pessoas o conhecem, no ponto mais baixo do terreno, a corrente era tão forte que parecia uma tromba d’água. Desceu carregando lixo, sedimentos, sofás, televisores e até um carro. A enxurrada de lama e entulho derrubou a parede da casa e atravessou a casa de Marquinhos. A família não conseguia sair, pois no lado interno da vila a água também descia como se corresse para o mar. Quando os pais se deram conta, o menino tinha sumido. Os dois começaram a gritar por socorro, mas os vizinhos das outras 15 casas da vila ouviam os gritos desesperados sem saber o que fazer, pois também estavam ilhados, rezando para que suas casas próprias casas não viessem abaixo. A água subiu mais de três metros de altura: todos, sem exceção, perderam tudo o que tinham.
O corpo de Marquinhos só foi encontrado às 3h30, no quintal da casa vizinha, do outro lado do terreno. Estava com a barriga virada para baixo e o inchaço do seu corpo revelava que engoliu muita água. Tinha escoriações pelo corpo todo, pois foi se machucando ao ser tragado pela água. O corpo de Bombeiros o levou quando a chuva começava a parar. Era um menino calado e tímido: tão caseiro e diferente de outros adolescentes que, até hoje, sua mãe o levava e o buscava na escola, em Oswaldo Cruz, todos os dias. Quando O GLOBO chegou à vila, Marquinhos estava no Hospital Carlos Chagas, e sua família aguardava a remoção para o Instituto Médico Legal. Medicados, a mãe e seu marido foram para a casa do irmão, Roberto, enquanto os vizinhos se organizavam em mutirão para limpar a destruição. Até 18h, a Comlurb não havia chegado ao local.
— Minha irmã tem pressão alta, meu genro é diabético. O sonho deles era ter esse filho — conta Roberto, o irmão. — Ligamos muitas vezes para o Corpo de Bombeiros. Ninguém atendia ou dava ocupado.
Foi uma noite de terror na vila onde todos se conhecem. A família de Marquinhos mora há 60 anos na mesma casa, que foi construída pelo seu bisavô. Os vizinhos estão inconsoláveis com a morte do garoto.
— Era um garoto tão na dele que a gente tinha que chacoalhar ele pra ver se falava alguma coisa. Ele passava e sorria, sempre a caminho de casa, não era de ficar na rua — conta o vizinho Edio Merola. — Estamos trabalhando desde a madrugada. Passamos a ser funcionários da prefeitura, mas sem salário.
A dor e a solidariedade no momento da tragédia se misturam à indignação com o descaso da prefeitura. Todos os bueiros das ruas ao redor das três vilas destruídas estão entupidos. A viagem do prefeito à Europa é percebida pelo cidadão como uma forma de abandono num momento em que todos se sentem desamparados.
— Eu pago R$ 234 de IPTU todos os meses. Não moramos em área de risco, mas quem liga pra gente? — indaga Luiz Antônio Coelho, morador da mesma vila. — Enquanto isso, o prefeito passeia na Europa. É um escárnio.
O desconsolo é total. Laís Anselmo, que mora na vila ao lado, pede ajuda é casada com um homem que perdeu utem deficiência em uma das pernas. Um vizinho conseguiu tirá-lo por cima do muro de sua casa, sabe-se lá com que força. Na terceira vila, colada às outras duas, Alexandre de Souza, que mora desde que nasceu no local — 37 anos —, afirma que “isso só acontece porque não tem limpeza”.
— Não só nas ruas, nos bueiros, mas principalmente nas galerias pluviais. Quando a prefeitura limpa as galerias, pode cair uma tempestade que a água escoa que é uma beleza.
O corpo de Marquinhos continua no Hospital Carlos Chagas, para onde foi levado pelo Corpo de Bombeiros. De lá, seguirá para o IML, onde será reconhecido pelo tio Roberto, que foi à escola em que o sobrinho estudava em busca de algum documento dele, pois tudo se perdeu com a chuva.



