Início Rio de Janeiro Engenheiro responsável por carro que feriu 20 tem contratos com dez escolas
Rio de Janeiro

Engenheiro responsável por carro que feriu 20 tem contratos com dez escolas

RIO — No quesito infraestrutura, um nome reinou absoluto na Marquês de Sapucaí: o do engenheiro Edson Marcos Gaspar de Andrade. Contratado pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), ele, além de coordenar os serviços de engenharia na Avenida e na Cidade do Samba, foi o autor dos projetos estruturais de carros alegóricos de nove das 12 escolas do Grupo Especial e de uma agremiação da Série A: Paraíso do Tuiuti, Portela, Salgueiro, Ilha, Mocidade, Estácio, Mangueira, Vila Isabel, São Clemente e Viradouro. As informações constam das Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) que estão arquivadas no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado do Rio de Janeiro (Crea-RJ). O órgão informou ontem que investigará se Edson esteve realmente à frente de tantos serviços ou se apenas assinava documentos.

— O profissional é obrigado não apenas a fazer o projeto, deve acompanhar toda a montagem dos carros alegóricos. É isso que vamos verificar: se ele está sendo só o instrumento de formalidade junto ao Crea-RJ ou se efetivamente participou da execução dos trabalhos. É óbvio que um número grande demais de ARTs causa estranheza, mas isso vai ser examinado — disse o presidente do conselho, Reynaldo Barros. — É preciso haver compatibilidade de tempo, de local. Se não ficar dentro da razoabilidade, ele e a escola devem ser responsabilizados. Temos que saber se o profissional foi chamado pela agremiação só para assinar os papéis, o que é chamado no mercado de “canetinha”.

Edson assina todas as ARTs referentes ao carro da Paraíso do Tuiuti que, no domingo, bateu em grades do Setor 1 do Sambódromo e deixou 20 pessoas feridas. Uma perícia do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) apontou que a alegoria, montada sobre o chassi de um ônibus, apresenta problemas estruturais: as soldas são de má qualidade, uma roda quebrou e a cabine do condutor não tem visão para frente, apenas para as laterais. De acordo com a documentação arquivada pelo Crea-RJ, a escola de samba contratou o engenheiro no dia 12 de janeiro por R$ 3.500, e somente ele responde pela estrutura.

O registro no Crea-RJ do contrato firmado entre Edson e a Tuiuti tem a mesma data e as mesmas descrições de serviços encomendados a ele por outras oito escolas do Grupo Especial: Portela, Salgueiro, União da Ilha, Mocidade, Estácio, Mangueira, Vila Isabel e São Clemente. Já a ART sobre o contrato com a Viradouro, da Série A, foi assinada um dia depois — 13 de janeiro. Os honorários variam de R$ 2.500 a R$ 4.500, e totalizam R$ 38 mil.

PROFISSIONAL E LIESA ACHAM TUDO NORMAL

As ARTs comprovam que, ao mesmo tempo em que prestava serviços para escolas de samba, Edson fazia trabalhos para a Liesa. Ele cuidou do projeto que permitiu o uso de um posto de gasolina como ponto de queima de fogos durante os desfiles da Sapucaí, recebendo R$ 6 mil pela tarefa. Além disso, por R$ 3 mil, projetou e legalizou as estrutura metálicas e fez os testes de carga dos carros de som usados nos ensaios técnicos e desfiles. O engenheiro ainda ganhou R$ 216 mil para coordenar e supervisionar todos os trabalhos de infraestrutura na Cidade do Samba e na Avenida, incluindo pintura da pista e montagem de passarelas e sistemas de combate a incêndio em camarotes.

Nesta quinta-feira, uma equipe de reportagem do GLOBO foi ao endereço da empresa de Edson, a Ferreira e Andrade Serviços de Engenharia. Ela fica em um edifício residencial no Rocha, onde, segundo o porteiro, o engenheiro vive com a família. Ele não foi encontrado no local. Também ontem, Edson prestou depoimento na 6ª DP (Cidade Nova), que investiga os acidentes com o carro da Tuiuti e com a alegoria da Unidos da Tijuca na qual houve um desabamento que deixou 15 feridos. O engenheiro argumentou que o veículo sob sua responsabilidade passou por vistoria do Corpo de Bombeiros e por testes de força, e não apresentava problemas até entrar na Avenida.

Na quarta-feira, ao ser questionado pelo GLOBO sobre a grande quantidade de ARTs que assinou, Edson disse que “não há problema algum nisso”:

— O carnaval não começa em fevereiro. Tenho um ano inteiro para fazer os projetos dos carros. Conto com uma equipe de bons profissionais.

O presidente da Liesa, Jorge Castanheira, também não vê problema no fato de Edson ser contratado pela entidade para realizar vários serviços e por dez escolas para projetar carros alegóricos.

— Não são funções sobrepostas nem incompatíveis; são distintas. Uma coisa é ele verificar a montagem, atestar e preparar carros alegóricos, outra coisa é cuidar da manutenção da Avenida e da Cidade do Samba. Ele está o dia inteiro trabalhando, e já faz isso há muito tempo — justificou Castanheira, nesta quinta-feira.

Alheios à polêmica e ao fato de o acidente com o carro da Tuiuti ter deixado 20 feridos, cariocas e turistas passaram boa parte do dia tirando fotos na alegoria: policiais civis a levaram ao Sambódromo para fazer um trabalho de perícia chamado de “reprodução simulada” e a deixaram na pista. Um homem disponibilizava, por R$ 5, uma escada para quem quisesse subir na estrutura.

Siga-nos no

Google News

Receba o Boletim do Dia direto no seu e-mail, todo dia.

Comentários (0)

Deixe seu comentário

Resolva a operação matemática acima
Seja o primeiro a comentar!