RIO — Eles trocaram os subúrbios do Rio pela Barra da Tijuca na década de 1990, quando o bairro começava a aparecer no mapa do high society carioca, num tempo em que ainda se usava o termo high society. Usavam joias grandes, bolsas grandes, roupas com logotipos grandes de grifes. Dia sim, outro também, estavam nas colunas sociais de jornais e revistas, sempre retratados em regabofes com champanhe e coquetel de camarão, em mansões de condomínios decoradas com tapetes persas e cromados em profusão. Logo ganharam um nome: sociedade emergente.
Socialite vira monarquista
Duas décadas depois, nada está como antes. Ostentar, por exemplo, deixou de ser um verbo conjugado pela empresária Vera Loyola, pelo decorador Eder Meneghine e pela socialite Hosana Pereira, pilares da “emergência”. Mais do que isso: preferem esquecer o passado nouveau-riche — muitos dizem que já não são tão riches assim. Também não são tão festeiros, nem se dão tão bem assim — apesar de morarem no mesmo bairro da época dourada. Num momento em que fama se mede por likes, compartilhamentos e aparições em sites de celebridades, andam fora da órbita dos holofotes. Até que...
Há duas semanas, Vera voltou à tona para declarar que agora é monarquista, como noticiou Ancelmo Gois em sua coluna. Eder continua republicano e investiu no ramo de festas e gastronomia, deixando para trás a fase decorador/promoter. Hosana formou-se em direito e trabalha num escritório no Centro.
Encontro com princesa
Às vésperas de completar 76 anos, Vera diz que sua monarquização é um protesto contra a corrupção. Para mostrar a seriedade de seu ato, decidiu comemorar o aniversário com um almoço de apoio à família real. Vai fretar um ônibus, enchê-lo de amigas e usar um historiador como guia de uma viagem a Petrópolis.
— Quero esquecer essa história de emergente. Vivemos num momento crítico, em que as pessoas estão desempregadas, e eu estou mais preocupada em me colocar politicamente contra essa corrupção — diz Vera. — Vou levar 30 amigas para almoçar com a princesa Dona Cristina Bourbon de Orleans e Bragança. Acredito que a monarquia pode ser uma solução. Pelo que sei, reis precisam ter comportamento e caráter nobres. E isso anda fazendo falta no país.
Ela mora na mesma casa de três andares no Jardim Oceânico. Vive com o marido, o empresário Pelino Bastos, empregados, a cachorrinha Tererê, da raça pug (Pepezinha, a pequinês que aparecia sempre no colo da dona, morreu em 2002) e a gata vira-lata Princesa. No ano passado, vendeu a rede de padarias da família, mas ainda é dona do motel de luxo Vips, na Avenida Niemeyer. Fisicamente, a ex-socialite está bem diferente: escureceu os cabelos e aplicou Botox no rosto.
Vera acha que sempre foi incompreendida, principalmente no que dizia respeito à sua paixão pelos animais:
— Ainda hoje sofro preconceito. Dizem que sou “botocuda”, mas não me importo, sou autêntica e me orgulho de ser honesta. Uso Botox, sim, porque posso — desabafa ela, que, nos anos 1990, chegou a cortar um tapete persa da família para usar no carro. — Hoje, até os tapetes persas estão modernos, já são encontrados em formatos menores.
No auge do sucesso da NSE (a Nova Sociedade Emergente teve até sigla), Eder Meneghine, de 56 anos, era chamado de Helio Fraga da Barra — uma alusão ao decorador da TSC (a Tradicional Sociedade Carioca, que nunca teve sigla) — e adorava o título:
— Não havia um dia em que não saísse notícia sobre mim nos jornais. Confesso que ficava deprimido quando isso não acontecia. Tinha apartamento em Miami, BMW importado, motoristas. Éramos convidados para viajar o Brasil todo, com tudo pago.
Eder, que vive no Itanhangá e divide seu tempo entre o trabalho e a paixão por aves exóticas, garante não ter saudades do período das vacas gordas:
— Olho para o passado e vejo: fomos usados, sugados e esquecidos — diz ele, que, além de trabalhar com decoração de eventos, tem um bufê com o companheiro, o chef Hugo Oliveira.
Contas sob rígido controle
A mudança de rumo, ele jura, não veio acompanhada de novos amigos. Eder diz manter contato com Vera e Hosana, embora pouco sejam vistos juntos. Segundo Eder, o grupo de emergentes era composto pelo ex-senador Ney Suassuna, a ex-mulher dele Tania Paranhos, Lucy Romanneli e, um pouco mais adiante, Ariadne Coelho, conhecida como Rainha das Quentinhas por ter sido casada com o empresário Jair Coelho, que, morto em 2001, tinha se envolvido num esquema de superfaturamento no fornecimento de comida para presídios do Rio.
A paraibana Hosana Pereira, hoje com 52 anos, prefere esquecer os tempos de socialite. O ano do Big Bang particular, segundo ela, foi 2006. Desde então, separou-se do marido, o empresário Julio Pereira, do ramo de tratores, concluiu a faculdade, casou-se novamente e ficou viúva do segundo marido. Atualmente, vive focada na carreira, nos filhos e em ações filantrópicas.
— Hoje faço trabalho voluntário na Vara da Infância, na Fundação Leão XIII e na Paróquia Santa Rosa de Lima. Na igreja, coloco a mão na massa: faço tapioca, baião de dois e curau para vender nas barraquinhas. Tenho que fazer minhas contas. Aliás, neste país, só gasta sem controle quem ganha dinheiro ilícito.



