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Em Mesquita, taxa de natalidade em alta

RIO - Em 2011, chegou Emily. Dois anos depois, Kevin. Nicolas veio em 2016. E, no último dia 12, os três ganharam mais um irmãozinho: apressado, Nathann asceu com 35 semanas de gestação no Hospital Estadual da Mãe, em Mesquita. Com 24 anos e os quatro filhos para criar, a dona de casa Vanessa Marinho se insere no perfil do município onde mora, mas está na contramão de dados gerais do Estado do Rio.

Vieram ao mundo no ano passado 210.734 fluminenses: o menor número desde 2002. Isso significa menos 7,3% nascimentos, computados por lugar de registro do bebê, de 2015 para 2016, uma queda só inferior à de Pernambuco (-10,09%) e superior à média nacional (-5,06%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Emancipado em 1999 de Nova Iguaçu, Mesquita destoa do estado, quando o tema é natalidade. Lá foram registrados 6.160 crianças no ano passado, o que corresponde a 3,6% de sua população. Com pouco mais de 170 mil habitantes, ele lidera o ranking dos municípios com maior número de nascimentos em relação a seus moradores, como informou Berenice Seara na Coluna “Extra, Extra !”. No que depender de Vanessa, no entanto, essa taxa não ficará maior:— Agora, chega. Em nome de Jesus. Vou fazer planejamento familiar.

Já a zika e o consequente medo da microcefalia estão por trás de o número de nascimentos ter caído tão abruptamente no estado. O secretário estadual de Saúde, Luiz Antonio Teixeira Júnior, embora não descarte outros, entende ser esse o fator preponderante. Afinal, dos oito óbitos por zikano ano passado, quatro aconteceram no Estado do Rio. Entre outubro de 2015 e dezembro de 2016, o Ministério da Saúde contabiliza 170 casos confirmados de microcefalia em bebês fluminenses, embora bem abaixo de Bahia (420) e Pernambuco (399).

— O Rio é um estado em que as mulheres recebem grande quantidade de informação. Certamente, algumas não engravidaram com medo da microcefalia — pondera Luiz Antonio.

Gerente de pesquisas do IBGE, a estatística Cristiane Moutinho concorda. Diz mais: que a exceção de Roraima, todos os estados brasileiros tiveram queda de nascimentos em 2016:

— A zika assustou as mulheres em todo o Brasil. Fatores mais sensíveis podem, sim, provocar variações muito grandes de um ano para outro. Mas não se pode descartar questões como a crise econômica e a inserção da mulher no mercado de trabalho. É um somatório. O Brasil está passando hoje pelo que a Europa passou há algum tempo. Embora a população brasileira esteja vivendo mais, já não cresce tanto. É a tendência.

A economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano, com mestrado em demografia e doutorado em população, lembra que em países como Japão, Alemanha, Canadá e Rússia, morrem mais pessoas do que nascem. Não é o caso do Estado do Rio, onde morreram 139.652 no ano passado (em 2015 foram 131.396 mortes).

Amélia acrescenta: — O primeiro estado brasileiro a ter mais mortes do que nascimentos será o Rio de Janeiro. Não dá para estimar quando, mas acontecerá antes do Brasil, que deve estar nessas condições em 2035, segundo estudos que desenvolvi. No Rio, a taxa de fecundidade é baixa, porque as mulheres são mais informadas, trabalham, estudam e adiam a maternidade — observa Ana Amélia.

Que o diga a professora Luciene Maria de Souza Zanardi, de 31 anos e casada desde 2009. Moradora de São João de Meriti, antes de ter um filho, ela quer concluir o mestrado em educação:— Ano que vem concluo o mestrado. Aí vou pensar em filho. É muita responsabilidade.

A designer de moda Thábata Santos Maggieri, de 29 anos, casou há três meses depois de cinco anos de namoro. Ela não pensa em ter filho antes de dois anos:

— Quero me firmar financeira e profissionalmente. Não me arrisco a ter filhos agora. Se tudo der certo, no futuro gostaria de ter dois. Senão um está de bom tamanho. Melhor criar um bem do que dois mais ou menos.

Apesar das Lucienes e Thábatas, o secretário de Saúde destaca que o ensino do planejamento familiar é fundamental nas escolas e na família:

— Ainda falta educação. Enquanto mulheres das classes A, B e parte da C estão postergando a gravidez, adolescentes das demais classes sociais estão tendo muitos filhos.

Com 19 anos, Caroline Santos Fortunato teve o terceiro filho, Yago, no último dia 7 no Hospital da Mãe. Heitor nasceu no ano passado na mesma maternidade. O mais velho não é mesquitense: Caroline, que mora em Nova Iguaçu, teve João Gabriel em Belford Roxo.

— Foi na troca de remédio que eu engravidei as duas últimas vezes — justifica Caroline. — São três meninos e não quero tentar menina. Quando eles crescerem haverá muitas meninas na minha casa, as minhas noras.

Embora tenham nascido tantos mesquitenses em 2016, só 36% são filhos de mães que moram no município. É o caso de Caroline, de Nova Iguaçu, com área 13 vezes maior do que Mesquita. No Hospital da Mãe, administrado pela OS HMTJ (Hospital Maternidade Therezinha de Jesus), há uma média de 700 partos por mês e cerca de 3.500 atendimentos por mês, segundo o diretor Ricardo Bruno.

A UTI, com dez leitos, e a UI, com 15, estão sempre lotados. Na semana passada, boa parte dos bebês internados na UTI da maternidade de Mesquita eram de municípios vizinhos. É o caso do pequeno mesquitense Dênis Adriano, que mora em Belford Roxo. O menino já está internado desde 28 de novembro. Além do carinho da mãe Aline Martins da Silva, tem um fiel companheiro de encubadora, como os as outras crianças da UTI: um polvinho de crochê.

— Embora não exista comprovação científica, estudos mostram que os bebês se apegam aos polvinhos. É como se estivessem no útero da mãe. Os tentáculos são como o cordão umbilical — afirma a fisioterapeuta Taiana Antunes.

— Os polvinhos são de algodão especial por dentro para evitar proliferação de micro-organismo. Depois de sete dias, as mães levam para casa. Orientamos para lavar com sabão neutro e deixar secar por 24 horas.

Para as mães que ficam por pouco tempo no hospital, são oferecidas palestras sobre os cuidados com o recém-nascido. O banho de ofurô para relaxar, no entanto, é um mimo só para os bebês. Como o tempo de permanência na UTI e na UI pode ser longo, a maternidade criou atividades para entreter as mães, que podem fazer ioga e participar de oficinas para confeccionar polvinhos.

Só que tanto tempo de UTI acompanhando Yasmin, que nasceu com hipertensão pulmonar no dia 3 de dezembro, fez Tielle Conceição Souza de Jesus, de 21 anos, refletir sobre o futuro:— São muitos dias e noites sem dormir ou dormindo pouco. O meu sonho é levar minha filhinha para casa. Mas acho que vou ficar só nela. Não quero mais filhos.

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