Nascido e criado na comunidade de São João, no Engenho Novo, e com 32 anos de polícia, o coronel PM Ubiratan Angelo viu de vários ângulos o crescimento da criminalidade no Rio. Após tentar combatê-la com ações que deram origem às UPPs — projetos de segurança pública centrados não apenas na polícia, mas em serviços sociais —, o hoje coordenador de Segurança Humana do Viva Rio continua pensando em como transformar a polícia na que queremos ter e também em como recuperar a cidade, e a Região Metropolitana, como sonhamos. Segundo ele, isso só será possível com uma nova política antidrogas, que legalize e regule seu comércio.
É impressão ou, de tempos em tempos, a violência no Rio chega a índices insuportáveis que levam a população a reagir?
Há movimentos cíclicos, mas há coisas novas. Por volta de 1979, o crime aumentou e ficou mais violento. Os grupos de extermínio, formados por justiceiros, passaram a atuar em toda a Região Metropolitana. A tendência é que sejam formados por policiais e depois cheguem às milícias. Por outro lado, o tráfico de drogas ficou mais forte. É a lei de mercado: aumenta o número de usuários, aumentam as vendas.
Até aí, a situação se assemelha à de outras cidades. O que fez o Rio chegar a esse ponto?
No final dos anos 1970, início dos 1980, houve um racha entre traficantes. Começou uma disputa de territórios, que levou ao aumento da criminalidade violenta. Basta ver que, em termos de roubo de rua, violência e confronto em área metropolitana, o Rio é pior que São Paulo. Já a violência no sistema penitenciário é maior lá porque só existe uma facção. Sem disputa territorial, só há confronto entre bandido e polícia. No Rio, é bandido e bandido, bandido e polícia, polícia e polícia, por causa das milícias. O que difere o Rio é a disputa territorial, inclusive em espaços urbanos. Se o Rio não produz drogas, ela é transportada para cá e tem que ser estocada até ser distribuída. Qualquer empresa precisa de proteção, mas no caso tráfico, por ser um negócio ilegal, quem faz a segurança são eles mesmos. Com a alta circulação de dinheiro com o comércio ilegal de drogas, os traficantes se apoderaram de três coisas fundamentais: drogas, munições e capital humano.
A questão das armas dificulta?
A necessidade de proteção faz com que o tráfico de armas e de munição entre na jogada. A polícia fala muito de drogas, mas a quantidade e o poder de armas e munições são enormes, o que aumenta a violência. A facilidade de aquisição de armas longas mudou o cenário. Quando fui treinado, entre 1976 e 1978, o alcance do tiro policial era de seis a dez metros. Não havia a expressão "bala perdida". Mas já há algum tempo policiais estão morrendo com tiro a 200 metros. Como prender alguém assim? É matar ou ser morto. O policial não se sente seguro se não tiver um fuzil a tiracolo. A violência é tão grande que o fuzil é arma de defesa, e não o colete. Isso é absurdo! Como se defender de um disparo a 200 metros? Usando armas de grande potencial ofensivo e cinético, você atira no que viu e no que não viu. E a rajada tira a possibilidade de precisão.
O perfil dos criminosos mudou?
Os traficantes antigos tinham relação com a comunidade. Hoje, a fila anda depressa e pessoas cada vez mais jovens e irresponsáveis chegam ao comando do tráfico. Costumo dizer que a promoção não é por merecimento, mas por tempo de serviço. Alguém vai morrer, ou ser preso, e o cara vai chegar lá. Se sei que tenho chance de chegar ao topo rapidamente, e vai durar pouco tempo, vou viver um ano em um dia. Esses garotos não têm medo de ser presos nem de morrer. Não têm o menor respeito à vida. Não são só violentos, são cruéis. Não são respeitados, são temidos. Não sairão por demissão, serão mortos. A demissão só chega até o nível 1, dos fogueteiros, que não são mais necessários e foram assaltar. Então, temos um aumento do crime de rua. E não há policiais para atuar nessa área porque estão todos nas UPPs.
O senhor ajudou a desenhar o modelo das UPPs. O que deu errado?
A ideia da UPP era muito boa. Surgiu em 2009 nos mesmos moldes do Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais, de 2000, que seguiu o desenho do GAP, de 1992/93: primeiro, uma grande operação para retomar o território; depois, ocupação com forças especiais para aliviar a tensão; e, por fim, policiais treinados, na expectativa de que com eles venham os programas de inserção social. Só que, das três vezes, não vieram. Por ser um projeto do governador, a UPP criou, ainda que falsamente, a sensação de envolvimento de outros órgãos do governo. Por isso a iniciativa privada participou. Mas, nas três vezes, três coisas foram terríveis: a não inserção do apoio social para as comunidades e os policiais; a irresponsabilidade política do governo, que espalhou unidades sem planejamento; e não dizer ao policial o que estava fazendo ali. Afinal, qual o objetivo das UPPs? Não é atacar o tráfico, mas reduzir a criminalidade violenta, o que aconteceu. Eles saberiam, então, que estavam lá para evitar tiroteios. É preciso coragem para assumir que evitar a morte das pessoas é mais importante que apreender armas, munições e drogas.
A legalização das drogas mudaria esse cenário?
Sou contra o uso de drogas. Mas, no caso das bebidas, o estado tem regras simples e repressivas. Não posso levar uma criança para beber, não posso beber e dirigir, não compro álcool na farmácia. O argumento de que droga é crime porque faz mal à saúde é falso. Se fosse assim, o secretário de Saúde falaria de drogas, mas quem fala é o de Segurança. É preciso repensar a política antidrogas. Não se vê na área de saúde uma política adequada. Não se vê na área social um programa bem elaborado. Deixar na mão do policial definir se quem foi pego com droga é traficante gera discriminação racial e social na ponta, facilita a corrupção pelo usuário e a violência, porque, como é crime, todo o aparato em volta é criminoso e violento. Se não fosse assim, teríamos outro cenário.
Qual o caminho?
As políticas públicas têm que priorizar a preservação da vida. Repensar a política antidroga implica repensar a segurança do policial e do cidadão. Sempre haverá crime e violência, mas o patamar precisa mudar. Se lá atrás tivéssemos entendido que era necessário reformular a política antidrogas, quem sabe não teríamos aproveitado essa garotada que está no tráfico e tem potencial. Não sei como aproveitá-los, mas eles têm potencial. Não adianta falar "vou prender, vou matar”, porque a fila anda, e o capital humano está sempre sendo renovado. Já perdemos muitos jovens. Não quero mais ver isso.



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