RIO - No número 56 da Rua dos Topázios, em Rocha Miranda, o filme é antigo e triste: o casarão onde funcionava o Cine Guaraci, inaugurado em 1953 e tombado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, está abandonado há mais de 20 anos. A fachada, pichada, foi tomada por cartazes e grades com mercadorias de vendedores ambulantes. O interior do imóvel de dois andares, outrora cheios de blocos de Mármore de Carrara e ligados por uma escadaria com corrimão em bronze, encontra-se caindo aos pedaços, tomado por lixo, ratos e morcegos. Um projeto em tramitação na Câmara Municipal tem como objetivo mudar essa triste situação, por meio do destombamento parcial do imóvel para fins comerciais.
— Acho importante manter a fachada, mas o prédio está em frangalhos. É um absurdo ficar parado, podendo ser revitalizado e virar um comércio, gerar empregos — afirma o vereador Jair da Mendes Gomes (PMN), autor da proposta.
Ex-lanterninha do Cine Guaraci e morador de longa data de Rocha Miranda, Severino Otílio, de 64 anos, lembra com carinho que foi ali que viu muitos dos filmes de Bruce Lee, com a sala de 1.300 lugares lotada.
— As filas para entrar no cinema davam voltas na calçada. É uma pena ver o Guaraci assim, deteriorado.
Dono há 35 anos de uma lanchonete que fica em frente ao casarão, Roberto da Silva conta, orgulhoso, que assistiu a “Rambo” no Guaraci. A memória afetiva o emociona, a vontade de ver outros filmes no local é enorme, mas ele concorda com a proposta do destombamento do imóvel para outros fins.
— Pelo menos vai revitalizar a área. Cansei de ver ratos e morcegos saindo dali — diz Roberto, apontando para o imóvel em ruínas.
O projeto de lei para o destombamento parcial do Cine Guaraci foi elaborado a pedido dos proprietários do casarão, uma família que também é dona de uma loja de tintas na mesma área.
— Estamos há muitos anos pagando IPTU sem direito de mexer em nada. Chegamos a alugar o espaço para o Banco do Brasil por dois anos, mas a prefeitura, na gestão de Cesar Maia, proibiu atividades de instituições financeiras no imóvel e decidiu tombá-lo — conta Francisco, um dos donos, que não quis informar o sobrenome.
Durante a gestão de Eduardo Paes na prefeitura, a RioFilme havia se comprometido a revitalizar o Guaraci, assim como outros cinco cinemas de rua da Zona Norte, por meio do projeto Cine Carioca, que nunca chegou a sair do papel. Agora, a Secretaria municipal de Cultura afirma que está aguardando a tramitação do projeto de lei apresentado pelo vereador Jair da Mendes Gomes para fazer “um estudo de viabilidade”.
Presidente do Instituto Amigos do Patrimônio Cultural, Paulo Clarindo diz torcer para que o Guaraci tenha sua arquitetura preservada:
— Sou contra o projeto de lei. Não acho certo que um imóvel com tanta história seja destombado para virar uma grande loja.
Já o presidente do Instituto Art Déco Brasil, Márcio Roiter, frisa que, “diante da migração dos cinemas para dentro dos shoppings, não podemos pensar com a cabeça de 1950”:
— É uma pena, mas fazer o destombamento parcial, preservando a fachada e permitindo o uso comercial do Guaraci, é a solução. Assim, não perderíamos completamente aquela arquitetura e evitaríamos que o casarão fique totalmente em ruínas.



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