RIO - Quem percorre vielas da Rocinha ainda encontra cenários de guerra: dois meses após uma grande invasão de traficantes, incontáveis marcas de tiros continuam sendo vistas em paredes. O principal campo da batalha entre um bando formado em várias comunidades — supostamente a mando de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, preso em Rondônia — e a quadrilha local — comandada por Rogério Avelino dos Santos, o Rogério 157 — foi a Rua Dois. Ali, a fachada da casa número 76, crivada de balas, virou um retrato fiel da intensidade dos confrontos.
Na madrugada de 17 de setembro, a dona da casa e seu neto de 3 anos, deficiente físico, acordaram com o barulho de tiros e explosões e ficaram em estado de choque. Mais de cem disparos atingiram o imóvel. Balas cruzaram paredes, passaram perto das camas, quebraram móveis e utensílios domésticos.
— Eles quase não aparecem mais aqui. A mulher está amedrontada, acha que tudo pode acontecer de novo. Minha casa tem entrada para a Rua Dois, mas a sala e os quartos ficam nos fundos. Ouvimos tudo, mas não vimos nada. Ficamos escondidos, esperando a guerra acabar — contou uma vizinha.
O problema, hoje, é que ninguém garante que a guerra acabou. O medo prevalece em cada canto, poucas pessoas se sentem à vontade para conversar com a equipe de reportagem. Justificam o silêncio apontando para as marcas de tiros ou para jovens que ficam em cima de lajes acompanhando a movimentação na favela.
— Tenho certeza que, quando o reforço da polícia sair daqui, a guerra vai recomeçar. Os bandidos não querem perder um território que rende mais de R$ 10 milhões por mês — disse um morador, referindo-se ao suposto lucro obtido pelo tráfico não só com as drogas, mas com a venda de botijões de gás e outros produtos de primeira necessidade.
À ESPERA DE SERVIÇOS
Os cenários de guerra levaram o prefeito Marcelo Crivella a fazer promessas durante uma visita à Rocinha, no dia 27 de setembro. Ele anunciou que iria emassar e pintar todas as paredes atingidas por tiros. Enquanto passava pela Rua Dois, viu a fachada de um templo da Assembleia de Deus cheio de balas e lembrou que um outro, de sua igreja, não sofreu estragos.
— Deus protegeu. Na Universal, não bateu nenhum — disse o prefeito.
Em nota, a Secretaria de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação garantiu que vai restaurar, com argamassa e pintura externa, 12 imóveis das ruas Dois e Três atingidos na guerra do tráfico.
Os tiroteios não são mais constantes, porém a tensão não arreda pé da Rocinha. Ontem pela manhã, fogos de artifício foram disparados na região central da comunidade.
— Sinal de que ainda pode haver confronto. Mas desde domingo está calmo —- disse o frei Sandro Roberto da Costa, pároco da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, localizada dentro da favela.
A paróquia fica perto da Biblioteca Parque da Rocinha, visitada por Crivella no dia 4 de outubro, quando ele prometeu um investimento de R$ 1,5 milhão para reabri-la em três semanas. Mas, fechado desde o ano passado, o espaço, administrado pela Secretaria estadual permanece sem funcionar.
A prefeitura fez 25 promessas para a comunidade, e algumas estão em andamento. Outras vêm sendo negociadas, como a melhoria dos serviços de saúde, parcialmente paralisados por conta da greve de profissionais da Clínica da Família Maria do Socorro (funcionários de outras unidades também cruzaram os braços). Segundo o médico Marcos Goldraich, o objetivo do movimento é chamar a atenção para as más condições de trabalho:
— Ficou decidido em reunião que faríamos uma greve presencial. O objetivo não é prejudicar a população, mas, sim, mostrar à prefeitura que ela precisa dar mais atenção à área de saúde. Eu tinha uma fila no Sistema de Regulação de Leitos com 180 pessoas. Hoje, são mais de 500. Não consigo nem marcar exames. O outdoor com o nome da clínica caiu durante uma ventania e não foi consertado, o imóvel foi atingido por mais de 30 tiros durante a guerra do tráfico, marcamos uma reunião com o prefeito na segunda-feira e ele não apareceu.
Também por meio de nota, a Secretaria municipal de Saúde afirmou que todas as unidades que tiveram serviços interrompidos por causa de tiroteios voltaram a funcionar plenamente.
Alheios ao impasse na área de saúde, operários do município trabalham na Rocinha instalando uma grade num valão que corta parte da favela e desemboca numa estação de tratamento. A obra, no entanto, é criticada por Antônio Marques, vice-presidente da associação de moradores:
— Todo tipo de lixo é jogado ali, até sofás e geladeiras. Com as chuvas de verão, aquilo pode entupir e provocar um grande alagamento. Será necessário limpar sempre, e fazer um trabalho de conscientização.
Em um comunicado, a Comlurb informou que "faz limpeza diária na Rocinha com um contingente de 82 garis, e, todos os dias, são retiradas cerca de 110 toneladas de resíduos da comunidade”.


