RIO - Confrontos entre policiais e quadrilhas deixaram em 2017 um rastro de 42 mortes no Complexo da Maré, um número 2,5 maior do que os 17 registrados em 2016. O levantamento foi feito pela ONG Redes da Maré, que, para avaliar o impacto da violência no cotidiano dos 140 mil moradores das 16 favelas da região, realizou pelo segundo ano consecutivo o boletim "Direito à Segurança Pública na Maré".
No ano passado, ocorreram pelo menos 108 tiroteios na área. Segundo dados do relatório, foram 41 operações policiais, 41 confrontos entre quadrilhas rivais e 26 entre bandidos de um mesmo grupo. Esses confrontos deixaram, além dos mortos, 57 pessoas feridas. Provocaram ainda o fechamento de escolas em 35 dias, e de unidades de saúde em 45 dias.
Em pelo menos 12 intervenções policiais, os confrontos tiveram mais de oito horas de duração. Para a coordenadora da Redes, Eliana Souza Silva, os números mostram um agravamento profundo da violência nas comunidades:
- A gente teve um crescimento muito significativo dos confrontos armados em 2017, em comparação a 2016. Houve um aumento de 24% na quantidade de operações policiais. E registramos mais do que o dobro de paralisações de atendimentos nos postos de saúde. O fechamento de escolas também foi 75% maior do que em 2016. Ou seja, a violência aumentou de forma significativa em 2017.
Para Eliana, a violência aumentou em todo o Rio, mas nas comunidades a situação é ainda mais grave.
- Tem a violência que a gente vive hoje no Rio de Janeiro, mas o que a gente vem percebendo é uma falta de controle em relação à própria segurança pública. A situação da violência se generalizou mas, em relação às favelas, a situação é ainda pior. O direito à segurança pública dos moradores de comunidades foi deixado de lado sem nenhuma discussão - opina.
O boletim também relata a luta dos movimentos comunitários para tentar frear a violência policial. Segundo o estudo, no primeiro semestre de 2017 houve quatro confrontos armados a mais do que no segundo semestre. No entanto, o número de mortes no período foi três vezes mais alto, com 31 casos. Moradores tentaram na Justiça, por meio da Defensoria Pública, algum tipo de controle da atuação policial:
- Como não conseguimos diálogo com a segurança, buscamos outras soluções. Tem uma ação civil pública em andamento pedindo que a Secretaria de Segurança elabore um Plano de Redução de Danos e Riscos referente às incursões na Maré. Houve também uma ampla mobilização de moradores contra a violência, que culminou com a Marcha da Maré, em maio passado. Sem dúvida, estas reações organizadas tiveram influência na diminuição do número de homicídios no segundo semestre - defendeu Eliana.
Entre os exemplos de operações indevidas no Complexo, o relatório cita um episódio ocorrido em março de 2017, após o roubo de um veículo pertencente a um policial civil, na Ilha do Governador. "No dia seguinte, sábado 25 de março, data da Campanha de Vacinação contra a Febre Amarela, alguns policiais se organizaram e foram até a Maré para recuperar o veículo.
A consequência foi um intenso confronto armado, que deixou três mortos e um ferido, além da interrupção imediata das atividades de vacinação nas unidades de saúde".
O relatório ressalta ainda que os casos de violação de direitos humanos também dobraram em relação a 2016, passando de 32 para 67 pessoas atendidas pela Redes.



