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Com o salário atrasado, aposentada de 66 anosfoi vender balas no protesto dos servidores

RIO — Até chegar ao Largo do Machado nesta terça-feira para vender balas durante o protesto dos servidores estaduais, Mariá Casa Nova, de 66 anos, fez um longo trajeto. Formou-se auxiliar de enfermagem aos 22 anos, fez concurso público e trabalhou por mais de 37 anos no atendimento a crianças no Hospital Getulio Vargas Filho, em Niterói. Ela se aposentou em fevereiro, mas, em poucos meses, viu tudo que construiu para sua vida desmoronar feito um castelo de areia. Mariá é um dos mais de 200 mil servidores do estado que estão completando dois meses sem receber salários:

— Eu sei que são muitas as pessoas que estão na mesma situação, mas estou aqui falando de Mariá Casa Nova. E não tenho vergonha de dizer que me escondo da proprietária do apartamento onde moro porque estou com o aluguel atrasado há dois meses e não tenho de onde tirar dinheiro para pagar a dívida de R$ 1.400. A minha geladeira está vazia, e sinto que nem mais dignidade eu tenho. Você sabe o que é ligar para um parente para pedir um ovo? Um pedaço de frango? — chora a servidora, para depois explicar: — Meu marido é aposentado pelo INSS, mas eu tenho que pensar o que vamos pagar com a aposentadoria dele. O aluguel, a comida ou os medicamentos.

O governo acena nesta quarta-feira com um alento para os servidores. O estado promete depositar R$ 700 para quem ainda não recebeu o salário de abril. Só os servidores da educação e da segurança estão com os salários em dia.

ATRASADOS: R$ 560 MILHÕES

Assim como Mariá, a assistente social aposentada Wanda de Oliveira das Neves, 72 anos, tomou coragem nesta terça para deixar a casa do neto, de onde evita sair, para participar da passeata do Largo do Machado até o Palácio Guanabara. Com cartaz pedindo socorro, ela contou que não tem mais a quem pedir ajuda:

— Eu trabalhei 45 anos em hospitais e presídios, e agora estou presa a esta situação. Há dois meses estou sem receber nada. E se não fosse pelo meu neto, eu estaria num sufoco ainda maior. Trabalhei a vida inteira, fiz curso de pós-graduação. O mínimo que eu realmente esperava da vida era ter uma boa condição na velhice, viver com dignidade.

Sem plano de saúde, Wanda diz que ainda vive o drama de conseguir atendimento médico no sistema público:

— Antes, eu dependia do Iaserj (hospital para os servidores do estado), que também fechou. Tenho uma despesa de quase R$ 500 por mês com medicamentos e estou na fila do posto de saúde que leva quatro meses só para marcar um atendimento. Por isso, mesmo com medo de apanhar da polícia, eu decidi participar deste protesto — justificou.

Nesta quarta, décimo dia útil do mês, marca o aniversário da angústia dos servidores estaduais, que estão sem receber abril e maio. De acordo com a Secretaria estadual de Fazenda, o estado deve a eles R$ 560 milhões líquidos. Apenas parte da folha de abril (R$ 1,041 bilhão) foi paga. De acordo com a Secretaria de Fazenda, já receberam salários daquele mês os servidores da Segurança, incluindo ativos, pensionistas e aposentados, da Educação e do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase), da Fazenda, do Planejamento, do Proderj, da Casa Civil e Desenvolvimento Econômico e da Vice-Governadoria, além de ativos, inativos e pensionistas da Procuradoria Geral do Estado, por força de ordem judicial.

— A minha situação era um pouco melhor. Psicólogo do estado por mais de 30 anos, eu recebo R$ 6 mil de aposentadoria e tenho apartamento próprio. Mas, desde o ano passado, tenho consumido minhas economias. Porque a gente pode não receber os salários, mas as contas chegam todo mês — afirmou Gilberto Borel, que também participava da passeata.

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