BRASÍLIA e RIO - A 62 dias do início dos desfiles do Grupo Especial, as escolas de samba estão diante de mais um obstáculo para chegar à Apoteose neste carnaval. Depois de a prefeitura cortar a subvenção pela metade e até de uma blitz de fiscais do Trabalho que fechou barracões na Cidade do Samba, agora foi a vez de o Ministério da Cultura (MinC) e a Caixa Econômica Federal, que tinham prometido R$ 8 milhões para o espetáculo, darem uma má notícia aos organizadores da festa. Os órgãos informaram nesta segunda-feira que os recursos não serão liberados porque a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) não cumpriu as “exigências” necessárias, sem explicar quais eram elas. E, para o governo federal, o cronômetro já bateu o tempo regulamentar, sem chances de um novo acordo: “Não há prazo hábil para os trâmites internos”, sacramentou. Com os revezes, o carnaval de 2018 está, no mínimo, pecando no quesito evolução.
Em nota, o MinC confirmou a informação divulgada por Ancelmo Gois, em sua coluna no GLOBO, de que os recursos estavam travados por problemas no projeto. A maior parte do dinheiro deveria ser captada pela Lei Rouanet, segundo a pasta. Sobre as exigências não cumpridas, órgão observou apenas que elas “são as mesmas feitas a todos os projetos culturais patrocinados”. O texto ressaltou que não foi possível viabilizar o apoio, “apesar do esforço do presidente (Michel Temer), da Caixa e do MinC. Irritado, o presidente da Liesa, Jorge Luiz Castanheira, garante que a entidade apresentou o projeto no prazo e diz que o ministério “deu uma desculpa” para desistir da ajuda:
— Se eles estão dizendo que nós não nos mobilizamos, isso não é verdade. Foi uma resposta política.
O Ministério da Cultura disse ter autorizado as escolas de samba a captarem R$ 13 milhões via Lei Rouanet. A Caixa, por sua vez, decidiu injetar R$ 8 milhões na festa, sendo R$ 1 milhão com a Lei Rouanet e R$ 7 milhões em recursos de marketing. Até agora, às vésperas da folia, a situação das escolas não é nada alvissareira: cada uma recebeu R$ 900 mil da prefeitura — menos da metade do que foi repassado no último carnaval pelo município —, com a promessa de mais R$ 100 mil com a prestação de contas após os desfiles. As agremiações ainda esperam R$ 500 mil, cada, de patrocínio da Uber. Procurada, a empresa de transporte não se pronunciou sobre os recursos.
Enquanto falta harmonia na negociação entre a Liesa e as autoridades, na Cidade do Samba, onde as alegorias são produzidas, a cadência está comprometida. Ontem, havia gente trabalhando em todos os barracões — que chegaram a ficar interditados quase um mês em outubro e novembro após uma fiscalização do Ministério Público do Trabalho. Mas o esforço não consegue ditar o ritmo acelerado comum a dois meses de se botar o carnaval na rua. Outro sinal de descompasso é visto nos corredores da loja Babado da Folia, uma das maiores fornecedoras de material para fantasias e adereços, que mal lembram o corre-corre típico de dezembro.
— A imprevisibilidade nos mata. Você começa com um orçamento de R$ 6,5 milhões, mas aí a prefeitura anuncia o corte de R$ 1 milhão. Você refaz o projeto, mas vem o aceno de que pode vir verba da Uber e do governo federal. Muda novamente. E hoje não temos previsão dessas receitas. O que eu planejo hoje perde o valor amanhã — afirma o dirigente de uma escola, que preferiu não se identificar.
Uma das saídas tem sido o uso de materiais alternativos, como ensina o carnavalesco Marcus Paulo, da comissão da Unidos da Tijuca.
— O ideal é começar a fazer as alegorias até três meses antes do desfile. Estamos tendo que trabalhar com dois meses e procurando materiais mais baratos, mas que mantêm o visual e a qualidade do desfile. Uma alegoria e uma ala inteira serão revestidas de jornal, já que o Miguel Falabella (enredo da escola) foi colunista do GLOBO — diz ele, apostando que o resultado não decepcionará.
A Mangueira vai suspender o turno noturno de funcionários e economizar em água e energia no barracão para tentar fechar as contas. O presidente da verde e rosa, Chiquinho da Mangueira, disse que a notícia de Brasília foi um “baque”:
— Eles deveriam ter avisado isso bem antes. Infelizmente, mais uma vez, afeta o coração do carnaval. E isso é muito triste. A gente, aos poucos, está acabando com a maior festa popular do mundo — lamenta, estimando que a escola só deverá concluir os preparativos na véspera do desfile, e não 15 dias antes como planejava. — O ministro (da Cultura, Sérgio Sá Leitão) dá entrevistas dizendo que o dinheiro está garantido. O que você faz? Gasta por conta. E foi o que a gente fez. Agora, temos que ver qual é a mágica que vamos fazer.
Já o presidente em exercício da Vila Isabel, Fernando Fernandes, afirmou que a postura do governo federal é “lamentável”:
— É a maior festa do mundo para os turistas, para a economia, até em recolhimento de impostos. Fomos a Brasília para participarmos de um ato e depois eles dizem que não (vão liberar os recursos)?
Segundo ele, a Vila Isabel fará adaptações para tornar o seu carnaval mais barato:
— De qualquer jeito, a Vila vai estar firme e forte na Avenida, mesmo com esses tropeços. Estamos economizando. O nosso carnavalesco está fazendo as adaptações para não deixar cair a qualidade.
Tendência dos últimos carnavais, os enredos patrocinados se tornaram escassos com a crise econômica no país. Das 13 escolas do Grupo Especial, apenas três escolheram temas que receberiam ajuda da iniciativa privada: Unidos de Vila Isabel (“Corra que o futuro vem aí!”), Mocidade (“Namastê: a Estrela que habita em mim saúda a que existe em você”) e o Império Serrano (“O Império do Samba na rota da China”).
Uma das poucas agremiações que respira com tranquilidade, atualmente, é a São Clemente. De volta ao Grupo Especial, ela já está com 80% de suas fantasias prontas. Para o carnavalesco Jorge Silveira, o desfile de 2018 é comparado a uma gincana, tamanho a quantidade de obstáculos enfrentados:
— Não vou precisar cortar nada do projeto porque o meu plano A já é, na verdade, o plano B. Pensei o projeto para um ano de crise, e a experiência de quem vem do Grupo de Acesso ajuda porque já está acostumado a trabalhar com poucos recursos.
Além da falta de verba, as escolas ainda ficaram sem limpeza na Cidade do Samba. Ontem, montanhas de detritos se acumulavam no pátio central. A Comlurb, em nota, explicou que tenta atingir a meta de redução de custos determinada pelo prefeito Marcelo Crivella. E acrescentou que a limpeza na Região Portuária, “é de responsabilidade da concessionária Porto Novo”. Mas, por ser uma grande geradora de lixo sólido, a Cidade do Samba deve contratar uma empresa privada. A Liesa enviou ontem uma carta à Comlurb pedindo a retomada do serviço.
— Além da crise no orçamento, as escolas ainda vão precisar pagar pelo lixo? — questiona Jorge Castanheira, presidente da entidade.



