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Coletivos da PUC lutam pelas causas sociais

RIO - Com 11.784 alunos perambulando pelos seus 104 mil metros quadrados na Gávea, a Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), uma das melhores universidades privadas do país, é um exemplo da elite acadêmica da cidade. Com a criação das bolsas de estudos nos anos 1990, as pautas dos movimentos negro, feminista, LGBT, de defesa das drogas e até de sustentabilidade, antes comuns nos centros acadêmicos das universidades públicas, começaram a ecoar entre os pilotis e nas salas de aula do campus da Zona Sul. A chegada de estudantes de bairros de diferentes classes sociais e áreas da cidade fez pipocar os chamados coletivos.

Hoje, a universidade tem grupos que contemplam várias visões de mundo. O professor Augusto Sampaio, que há 25 anos é vice-reitor comunitário, diz que a relação da universidade comandada por padres jesuítas com os coletivos é pacífica e de acolhimento. Segundo ele, o crescimento - a partir de 2009, com o surgimento do Coletivo de Mulheres (hoje fragmentado) — se deve ao aumento do número de bolsistas e de alunos do Programa Universidade Para Todos (Prouni), do governo federal. Ao todo, são 3.338 beneficiados.

— Tudo mudou com a chegada da "Turma do Biscoito", alunos que, logo de manhã cedo, estavam comendo algum biscoito no meio da aula porque tinham acordado muito cedo, às 4h da manhã, para estudar. Todos vinham de bairros muito afastados, e os jovens mais pobres andavam apenas juntos pelo campus, isolados dos outros estudantes. Hoje, existe mais integração e mobilização - disse Sampaio.

Mas a "Turma do Biscoito" cresceu e apareceu. Desse grupo, surgiu o Coletivo Bastardos da PUC-Rio. O nome é uma provocação ao termo Filhos da PUC, muito usado pelos alunos da Zona Sul. Os "bastardos", que têm quase 14 mil curtidas em sua página no Facebook, lutam para dar visibilidade a casos de preconceito e garantir mais oportunidades aos alunos de baixa renda.

Numa carta de apoio ao coletivo, a vereadora Marielle Franco - que se formou em Ciências Sociais na PUC e foi assassinada no último dia 14 - escreveu que "ser um filho 'bastardo' da PUC não pode ser encarado como algo ruim". E acrescentou que era preciso "reivindicar um novo significado político: o 'bastardo' é aquele que resiste às desigualdades".

Na fanpage do grupo, eles usam a hashtag #bolsistanãoéobrigado, para criticar aqueles "que não sabem nada sobre a realidade dos alunos mais pobres, como conversar apenas sobre viagens internacionais e o quanto alguém gastou em um jantar no Leblon".

O reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, explicou que a representatividade dos alunos é feita por meio dos centros acadêmicos, cujos membros são eleitos pelos estudantes, sob a coordenação da vice-reitoria comunitária. Já os coletivos são iniciativas dos próprios alunos.

A estudante de design Rafaela Magnani conheceu os "bastardos" em 2016 pela internet. Moradora de Inhaúma, a bolsista demora cerca de uma hora e meia para chegar às aulas. Antes, ela se sentia um peixe fora d'água. Com o grupo, a estudante percebeu que não era a única:

- Passamos a ter a sensação de que também fazemos parte daqui. Foi como se lançassem o sinal do Batman no céu, todo mundo visse e corresse para o mesmo lugar - diz Rafaela, que culpa a própria dinâmica da PUC por essa sensação de não pertencimento. - Em design, se gasta muito por mais que se tenha bolsa, e existe muita pressão por trabalhos em grupo. Aí, há estudante que não quer fazer trabalho com bolsista porque bolsista mora longe, não tem dinheiro, trabalha muito e não consegue tempo para se reunir. Esse pensamento é quase uma unanimidade.

Nessa batalha por espaço está o Nuvem Negra, um dos coletivos mais atuantes da PUC, que surgiu em 2015 com a proposta para estudantes negros se conhecerem e realizarem ações de combate ao racismo. São 143 alunos e ex-alunos, mas só negros podem participar das reuniões semanais. Já as demais atividades, como intervenções, ações culturais, palestras, workshops, minicursos e cine-debates, são abertas.

Outro coletivo que também entra na questão racial, mas para pautar discussões sobre preconceito contra gênero e sexualidade, é o Madame Satã. Surgido em 2016 como uma reação ao crime de homofobia contra o estudante Diego Vieira Machado, da UFRJ, morto próximo ao campus do Fundão, é integrado por 15 estudantes gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. Uma de suas atuações mais notórias foi no protesto contra o "Seminário de Ideologia de Gênero", promovido pela PUC ano passado e ministrado por um professor do Departamento de Teologia.

- O Brasil é o país que mata mais travestis e transexuais do mundo, segundo a ONU, e esse padre endossou retrocessos e violência contra a população LGBT ao colocar a ideia de gênero e sexualidade como uma ferramenta destruidora da família e dos valores da sociedade, usando de forma leviana argumentos pseudocientíficos - disse o estudante Lembá Reis. Já o Brisativa surgiu em 2014 para, como o nome sugere, defender a descriminalização da droga, propondo novas políticas.

- Priorizamos o debate da questão das drogas a partir de uma abordagem da saúde pública e da redução de danos, ao contrário do que vem sendo implementado em termos de segurança pública. Enfim, a ideia é que os custos sociais e humanos da proibição e da chamada guerra às drogas são muito maiores do que se elas fossem legalizadas e reguladas - diz o estudante Gabriel Gama.

Este ano, já tem novidade. Por enquanto, são 15 estudantes de relações internacionais que, ao perceberem que faltavam opções de alimentação vegana na universidade, não pensaram duas vezes e criaram o Coletivo Verde. No momento, o objetivo é fazer com que outros departamentos conheçam suas propostas, como o apoio ao projeto "Segunda sem carne" e a luta por uma alimentação livre de produtos de origem animal no bandejão, que custa R$ 9.

- A maioria das trocas de proteína animal que fazem é por queijo, o que não adianta para nós, que somos veganos - disse a estudante Mariana Bernal.

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