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Chegada de militares deixa cidade partida

A impressão de que a segurança pública do Rio perdeu o controle parece um consenso, mas a intervenção federal militar divide opiniões entre autoridades, especialistas e moradores do asfalto e da favela.

Presidente da Associação de Moradores de Ipanema, bairro onde foram registrados arrastões no carnaval, Carlos Monjardim aplaudiu a decisão do presidente Michel Temer.

— A intervenção é importante porque manterá os salários dos policiais e garantirá investimentos para a segurança — opina.

Já a presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiarardia, considera que a intervenção é um retrocesso:

— Trata-se de um equívoco gigante, que vai acabar gerando mais violência. Queríamos apoio, união. As tropas deveriam vir somar esforços, e não passar por cima das instituições.

Um dos diretores do jornal “Voz da Comunidade”, do Complexo do Alemão, Betinho Casas Novas também teme que a intervenção traga mais violência para os moradores das comunidades:

— As favelas já sofrem intervenção militar desde a implementação das UPPs. De 2013 para cá, somente no Complexo do Alemão, houve 81 mortos e 235 baleados em tiroteios — condena Betinho, que reivindica atuação mais incisiva do Estado em outros setores. — Se houvesse intervenções em áreas como saúde e educação, o Rio não estaria assim.

O assunto também fez parte ontem das aulas de música na Orquestra da Maré. Segundo o músico Carlos Eduardo Prazeres, todos temem que a presença militar agrave ainda mais a situação dos jovens, que, como andam com instrumentos, volta e meia são interpelados pelos policiais como se estivessem armados.

— Estou orientando a todos que passem a andar com suas identidades e já cheguem informando com delicadeza que carregam apenas instrumentos musicais, que são caros e frágeis — explica.

‘modelo falido de segurança’

Ex-secretário nacional de Segurança, o coronel José Vicente defende a medida. Segundo o consultor, o Rio “fará escola para ver as vantagens e os problemas dessa ação”:

— O Rio perdeu a condição de garantir a segurança. Simplesmente pedia uma ajudinha. É preciso um outro tipo de remédio. No ano passado, a Polícia Federal apreendeu só cem armas no Rio. Em Brasília, mais de mil — compara. — Alguma coisa está errada.

O inspetor Marcio Garcia, presidente do Sindicato dos Policiais do Estado do Rio de Janeiro (Sindpol), define a intervenção como “uma insistência em um modelo falido de segurança”.

— Deveríamos focar numa política que privilegie a inteligência, a investigação e a tecnologia, não em mais confrontos armados sem planejamento, enxugando o gelo, visto que o financiamento do crime não está sendo combatido — avalia.

Em nota, a presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Angela Costa, afirmou que a intervenção é uma medida “imprescindível”. Já a diretora da ONG Human Rights Watch no Brasil, Maria Laura Canineu, afirmou em nota que a atuação de militares em operações de policiamento é “problemática”, já que eles seriam treinados para a guerra, e não para o trabalho policial.

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