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Chafariz no Rio é cascata

RIO - Não há um pingo de consideração com os chafarizes históricos do Rio de Janeiro. Além de alguns dos exemplares estarem depredados, desfalcados de ornamentos e com peças enferrujadas, a maioria está seca. No Dia Mundial da Água, os monumentos estão longe de lembrar os tempos que matavam a sede dos viajantes, dos animais e embelezavam a cidade.

— É um conjunto importantíssimo — lamenta o historiador Alexei Bueno —. Pena que alguns exemplares estejam em muito mau estado e nenhum deles com água, o que é uma característica brasileira. Todos os inumeráveis chafarizes de Roma ou de Paris têm água. No Rio de Janeiro, todos são absolutamente secos. A perda de função ajuda na degradação. A manutenção da função faz a pessoa perceber o que é aquilo. Não é só um pedaço de muro. É uma fonte. É um chafariz parietal (em parede).

Ex-diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e poeta, Alexei é também autor, ao lado de Vera Dias, do livro “Os monumentos do Rio de Janeiro”, um inventário que catalogou 1.100 obras, entre elas os chafarizes. Ele destaca uma série de oito fontes de grande valor histórico, entre o período da Colônia e o Reinado. A maioria — com a licença para a expressão infame — corre o risco de ir por água abaixo.

Pelo menos, para Alexei, não é o caso do que talvez seja o mais belo do Brasil: o chamado Chafariz da Pirâmide, na Praça 15. Descrito como ‘absolutamente extraordinário’, de autoria do Mestre Valentim, está em bom estado. Os demais estão bastante castigados. Entre os que merecem amis preocupação estão os chafarizes de Paulo Fernandes e do Lagarto, ambos na Rua Frei Caneca, no Centro. A Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma) informou que são peças do Governo Federal. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) contestou. Afirmou que as duas fontes devem ser reparadas pela prefeitura. “São protegidos em âmbito federal, mas a responsabilidade de manutenção é do proprietário”, esclareceu o órgão, por mensagem.

Os chafarizes eram fundamentais no Rio Colonial e Imperial. Às vezes, eram bebedouros de animais, como o erguido na década de 1850 na Estrada Velha da Tijuca, tombado pelo Iphan.

— A finalidade era a distribuição de água. Não havia água dentro de casa. Você tinha de ir à rua com uma tina, um barril, qualquer coisa, para levar água para casa — explica Alexei Bueno.

O técnico de eletrônica Jorge Ricardo Tavares Duarte, de 58 anos, já se acostumou a ver chafariz sem água no Rio.

— No meu tempo de garoto, entre Madureira e Vaz Lobo, havia um chafariz lindo. Eu brincava muito ali. Também via um em Cascadura. Meu filho tinha até medo. Nem lembro mais quando vi algum com água na cidade — lamenta ele, que trabalha na Rua da Constituição e anda muito pelo Centro.

Já o professor da Uerj João Baptista Ferreira de Mello não vê problemas na falta d’água nos chafarizes. Teme até que o fluxo de água possa danificar as peças. E mais: lembra que as fontes e rios que abasteciam esses chafarizes já secaram e não haveria mais razão para manter o fluxo de água.

— É desnecessário. Não há razão para ter água. É melhor o artefato ficar como testemunho geográfico, como o do Mestre Valentim, na Praça Quinze. É um símbolo da Colônia. Era abastecido com água que vinha do então caudaloso Rio Carioca, mas que agora se reduz a uma pequena saída para o mar — afirma João Baptista, responsável pelo Projeto Roteiros Geográficos do Rio.

Dois monumentos do Brasil Império, porém, estão em condições bem melhores. O antigo chafariz da Praça Onze, que testemunhou os primeiros desfiles de escolas de samba na década de 1930, hoje fica na Praça Afonso Viseu, no Alto da Boa Vista. É um projeto de 1846, de Grandjean de Montigny.

— Está lá meio longe do seu local original, mas em estado razoável — reconhece Alexei Bueno.

A Bica da Rainha é uma exceção no mar de monumentos caindo aos pedaços. Está bem conservada. Segundo a vice-diretora do Colégio Miraflores, Regina Rocha Lima, a unidade adotou a manutenção da relíquia, em 1999, após acordo com o Iphan. A fiscalização é da Fundação Parques e Jardins.

O monumento é um pórtico com toneira em um pequeno jardim gradeado, com acesso pela Rua Cosme Velho. Regina explica, porém, que o portão fica fechado devido a casos de vandalismo.

As águas ferruginosas da região eram consideradas curativas. E para lá seguiam frequentemente Carlota Joaquina, mulher do príncipe regente domJoão VI, e sua sogra, Dona Maria, a Louca.

— Elas iam de carruagem fazer piquenique. Como as distâncias eram grandes, paravam ali para descansar e tomar água. Dizem que Carlota, que tinha problemas de pele, jogava água no rosto — diz vice-diretora do colégio, Regina Rocha Lima.

A torneira tem água, mas não vem da mesma fonte do passado. Para a vice-diretora, o importante é mostrar aos estudantes um pouco da história do Brasil.

— Como o espaço é pequeno, temos de levar uma turma de cada vez. Os mais velhos fazem pintura em folha branca, reproduzindo o monumento. Como no passado, os alunos também fazem piquenique — conta.

— O projeto é de 1779. Instalado na beira do cais, abastecia a população e os navios. É uma obra do mestre Valentim, construído a pedido do vice-rei, Dom Luís de Vasconcelos. Está em bom estado, mas sem água. Segundo a Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma), o chafariz está desativado desde a década de 1980.

— De 1795, ficava no claustro do Convento da Ajuda. Após a demolição do convento em 1911, foi transferido para a Praça General Osório, em Ipanema. Já perdeu vários elementos, como as tartarugas que jorravam água no tanque de baixo e as saracuras, no tanque de cima. A Seconserva informou que esse chafariz foi esvaziado no período do carnaval e, devido ao vandalismo, está temporariamente desativado. O órgão ainda não agendou data para o religamento.

— As duas são do Passeio Público. A dos Meninos é a que mais preocupa. Funcionários a recolheram para a sede da Gerência de Monumentos e Chafarizes da Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente. O órgão informou que vai elaborar um projeto com orçamento para restauração.

— É um chafariz parietal, de 1816, na atual Rua do Riachuelo. A rua recebeu o nome de Mata-Cavalos por causar, devido às péssimas condições, contusões nos animais. A fonte foi erguida por ordem de D. João VI. Ainda hoje conserva a inscrição: “O Rei para o bem do seu povo mandou fazer essa obra pela polícia”. Encontra-se em estado de abandono.

- O mais velho que sobreviveu na cidade, de 1772. Mal cuidado. De acordo com a Seconserma, o chafariz ‘está temporariamente desativado em razão de constantes vandalismos’.

- Construído durante o Vice Reinado de Luiz Vasconcellos e Souza, em 1783, o chafariz fica no fim da Rua Frei Caneca, próximo ao Sambódromo. Uma pequena joia do Mestre Valentim. Está em péssimo estado. A Seconserma alega que a responsabilidade é do Governo Federal. Mas o Iphan diz que é da prefeitura.

- Fica em frente ao Batalhão Caetano de Faria. “Uma edícula magnífica, de Paulo Fernandes, que é de 1816. Está em estado lamentável. Há décadas está caindo aos pedaços e ninguém faz nada”, lamenta Alexei Bueno. A Seconserma também diz que o monumento é de responsabilidade do Governo Federal. O Iphan afirma que é da prefeitura.

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