RIO - Famosa pelos 382 degraus que atraem peregrinos e pagadores de promessas, a Igreja da Penha é um dos cartões postais da cidade. O que poucos cariocas sabem é que ela tem uma homônima em Cosmos, perto de Campo Grande. Além de ser dedicado à mesma santa, a capela na Zona Oeste também foi erguida no ponto mais alto bairro, num morro de onde se tem uma vista panorâmica de toda a região. As semelhanças entre as duas igrejas da Penha param por aí: a subida para a capelinha de Cosmos não tem teleférico nem escadaria e, no entorno, não há estabelecimentos comerciais, agências bancárias e, muito menos, lojinhas vendendo artigos religiosos. E, até bem pouco tempo, a construção estava em ruínas.
A capela, que atualmente está sendo reformada, pertence à paróquia de Santa Sofia, que está financiando a restauração, com a ajuda de fiéis. As missas, celebradas semanalmente, foram retomadas há cerca de um ano.
— É uma construção muito simples, humilde, que ficou abandonada por muitos ano, virando uma grande ruína. É um lugar que faz parte da história do bairro e de onde se tem uma das mais belas vistas da Zona Oeste. Lá de cima é possível avistar Campo Grande, os bairros vizinhos e até a Baía de Sepetiba —conta o professor e historiador Carlos Eduardo de Souza, que escreveu um artigo sobre a igrejinha em seu blog “Memórias de Campo Grande.”
Há muitas lendas e mistérios envolvendo a Igreja da Penha da Zona Oeste. Moradores contam que ela foi batizada em homenagem à santa porque, em 1917, dois trabalhadores rurais, descendentes de escravos, encontraram uma imagem de Nossa Senhora da Penha ao pé de um coqueiro no alto do morro. A estátua foi levada para a casa deles, a uns 300 metros de distância, mas, inexplicavelmente, ela sumiu e voltou a aparecer junto à mesma árvore. Todas as vezes em que os dois tentavam pegar de novo a santa, ela teimava em reaparecer no mesmo lugar. Assustados, conta o historiador, os homens procuraram o dono das terras que, para acabar com o problema, levou a escultura para uma outra igreja. Só que, alguns dias depois, a imagem desapareceu do altar e... adivinhem: voltou a ser vista no morro.
Uma capelinha improvisada acabou sendo erguida no local, para abrigar a santa. Tempos depois, uma igreja foi construída, onde hoje fica a Estrada de Paciência.
Há quem pense que a capela é ainda mais antiga. O pesquisador Isra Toledo Tov defende a tese de que ela pertencia à antiga Fazenda da Mata da Paciência, que entre os séculos XVII e XIX ocupava terras que, nos dias atuais, correspondem aos bairros de Paciência, Inhoaíba e Manguariba, além de parte de Guaratiba. Ele investiga se, no passado, ela não seria, na verdade, uma igreja dedicada à Nossa Senhora da Pena, protetora das artes.
—Estive lá, visitando a região, por causa da minha pesquisa sobre a fazenda. O prédio estava destruído, só com três paredes em pé, mas me chamou a atenção o símbolo da flor de lis na fachada, logo abaixo da torre. Esse era o desenho do brasão da família Brás Carneiro Leão, dona daquelas terras. Isso me leva a acreditar que a capela pertencia à família — explica Isra, que é morador de Paciência e critica o fato de a igreja não ser protegida por nenhum órgão de patrimônio histórico.
O motivo do abandono também tem várias versões. Uma delas seria a de que um padre teria sido assassinado no local e, a igreja, incendiada. Alguns paroquianos dizem ainda que, na década de 1970, a imagem da santa foi roubada, e a dificuldade de acesso ao morro teria afastado fiéis.
Para Adinalzir Pereira Lamego, morador do bairro, a restauração da igrejinha é importante para o fortalecimento da comunidade católica local:
— Ela simboliza um período histórico importante da nossa região, que não é conhecido pela população.
A restauração da igreja ocorre de forma gradativa. A estrutura da construção já foi toda refeita, assim como os telhados. Parte da fachada ainda está sendo reconstituída. A área externa recebeu uma iluminação, que pode ser vista de vários pontos de Campo Grande e Cosmos.
— A obra começou em 2015, e o trabalho na igreja deve terminar até setembro, mas ainda falta o entorno. Não sei dizer quanto já foi gasto, mas só a reforma do piso custou R$ 25 mil — contou o paroquiano Felipe Cardoso, que vem acompanhando de perto a revitalização do templo.

