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Cadeg atrai novos negócios e pode virar patrimônio cultural

RIO - Em um boxe na avenida principal do Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara (Cadeg), José Ramos, um português de Beira Alta, conta que chegou ali em 1964, dois anos após a fundação do mercado. Atrás de seu pequeno balcão, sacos e mais sacos de batata estão espalhados pelo estabelecimento, cujo nome — Benfica — é, na verdade, uma homenagem ao time do coração do comerciante, e não ao bairro. À uma da manhã, ele já está de pé para pegar no batente. No fim da tarde, enquanto descansa para a madrugada de trabalho, uma outra loja do Mercado Municipal do Rio de Janeiro (denominação feita por decreto) inicia os trabalhos: é a champanheria Baby Beach, aberta há poucos meses por Ruan Nemeczyk, de 28 anos, que começou no ramo vendendo sacolé com champanhe nas praias. Hoje, ele não agita uma das vias do Cadeg apenas com música e tilintar de taças — continua vendendo sua invenção no saquinho. Entre José e Ruan, há dezenas de boxes, incluindo a banca de frutas, verduras e legumes do Bira, que abastece endereços nobres da gastronomia carioca; o Empório Gourmet Show, com suas prateleiras de vinhos de até R$ 2 mil; o Ayumi, casa japonesa recheada de produtos orientais; e o Mundo das Cervejas (o nome diz tudo).

Quando ouvir de alguém que o Cadeg tem de tudo, pode acreditar. Espaço único na cidade, com frequência 24 horas por dia, o mercado anda cheio de novidades: a última é a notícia de que caminha para se tornar um patrimônio oficial do Rio de Janeiro. O processo de tombamento corre no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), como adiantou a coluna do GLOBO Gente Boa, e deve levar 40 dias para ser concluído. Fora isso, o Cadeg (e não a Cadeg, já que o nome vem de centro, e não de central) vive um momento delicado, de transição. A diversidade em seus corredores e as propostas de “modernização”, como o estacionamento 100% pago, já em funcionamento, são motivos de embates lá dentro. Desde que os grandes supermercados deixaram de comprar no Cadeg, há aproximadamente dez anos, o antigo reduto de portugueses e italianos vem mudando. O varejo ultrapassou o atacado, e muita gente atraída pelo movimento e pelos aluguéis baixos passou a ver ali uma oportunidade de novos negócios. A estimativa é de que o lugar, com cerca de 350 empresas, movimente mais de R$ 30 milhões por mês.

Não deixa de ser inusitado um passeio por esse mercado de “atacarejo”, onde uma casa de vinhos com uma cozinha superequipada para quem quiser preparar pratos tem como vizinha uma loja no melhor estilo R$ 1,99. Em outra “rua” do galpão, um boteco que vara a madrugada com linguiça e bife à milanesa no balcão fica ao lado de um mercadinho de orgânicos e uma patisserie.

O presidente do mercado, Marcelo Penna, que, dono de cinco restaurantes, chegou ali com a família na década de 1990 para tocar um distribuidora de ovos, tem planos ambiciosos. Ele diz que está em negociação com a rede Kinoplex para a instalação de quatro salas de cinema no velho centro de abastecimento. Além disso, conversa com uma universidade. Muitos da velha guarda olham torto para essas ideias.

— Eu gostava do passado, quando o Cadeg era mais mercado. Está ficando sofisticado. Não dá, né? — critica, sem cerimônia, o português Carlos Ernesto Cadavez, o Carlinhos do Cantinho das Concertinas, que, aos sábados, dia de música e dança portuguesa, vende três mil bolinhos de bacalhau, que começam a ser produzidos à meia-noite. — Cadeg é ovo, é saco de batata. Não dá para ser shopping. Não dá!

E o que é o Cadeg hoje? A pergunta é de difícil resposta no grande galpão, cheio de peças de bacalhau nos corredores lotados por causa da Páscoa — cerca de 40 mil pessoas devem circular por lá neste fim de semana.

— O Cadeg não é supermercado nem shopping — diz André Lobo, diretor social do lugar e que herdou do pai, português, a sapataria Feirante. — O Cadeg é um grande ponto de encontro no Rio.

Hoje, pelos corredores, não se fala em outra coisa que não seja o estacionamento cobrado. São 1.200 vagas em quatro pavimentos — as do último andar eram de graça. A revolta é grande, muitos temem que a mudança afaste clientes. Os valores começam em R$ 7, mas a discussão agora é implantar uma hora e meia de tolerância para carros de passeio. Penna diz que a proposta é ordenar as vagas, antes usadas por qualquer um, inclusive por pessoas que não compravam no Cadeg.

O comerciante engata a conversa em outras mudanças. Ainda este ano, ele quer colocar wi-fi e abrir uma usina de produção de energia, que seria gerada a partir das 600 toneladas de lixo orgânico descartadas por mês. A ideia é que ela seja capaz de abastecer todo o centro, inclusive com biogás.

— Não esperam de mim tapinha nas costas. Meu propósito é o crescimento — afirma Penna em resposta aos críticos, mas com um jeito bonachão de falar.

Ele é um dos que investem na diversificação do mercado: há 15 dias, abriu o transado Penna do Zé, uma choperia onde não falta bacalhau. Tempos atrás, recuou da ideia de inaugurar uma casa de espetinhos.

— Comida farta com preço justo é o que dá certo aqui — decreta ele, que, no seu segundo mandato na presidência, foca em serviços e no turismo. — Com cinema e faculdade, vamos agregar gente num horário que o Cadeg não é tão movimentado. Mas não queremos esquecer nossa história.

A questão é que os herdeiros dos comerciantes mais antigos parecem não querer levar os negócios adiante. Os descendentes de Carlinhos seguem outros rumos, assim como os de José, da Importadora e Exportadora Benfica.

— Os mais jovens não se interessam. Na minha época era diferente. A gente chegava aqui com pouca instrução. Eu estudei em Portugal até a 4ª série — diz ele, que, como a maioria dos patrícios presentes ali, veio para o Brasil porque não queria se alistar no exército. — Antigamente, o Cadeg era todo aberto, sem cobertura. Naquela época, os atacadistas vendiam 50 caminhões de batata. Hoje, são dois. Vende-se principalmente para restaurantes e mercadinhos. Ganho menos dinheiro, mas também tenho menos prejuízos. Sempre tinha algum comprador que quebrava.

Nas contas da administração do Cadeg, o atacado representa hoje somente 30%. O mercado tem a peculiaridade de ficar aberto o dia todo, sendo que cada horário tem um perfil: das 2h às 5h, a procura maior é por verduras; das 4h às 7h, por frutas e legumes; das 3h ao meio-dia, o forte são as flores; e, das 11h às 16h, chega o pessoal para almoço. O fim de tarde e começo de noite ficam por conta de novas casas como O Beco do Vinho, na parte de baixo do galpão, o chamado “Cadeg underground”. Inspirado em casas de São Paulo, o importador de vinhos Tito Rocha transformou há cinco meses um espaço que foi do seu pai, português, em um misto de loja e cozinha, aberta a clientes. O local também funciona como seu escritório, que ficava na Barra:

— A loja estava fechada desde 2014, e eu não conseguia alugar por R$ 2 mil. Decidi vir para cá, daqui para o Santos Dumont são apenas dez minutos. Já para a Barra, dá mais de uma hora.

No lado underground do Cadeg, a cliente encontra produtos para embelezamento automotivo (!), sapatos e toda sorte de quinquilharias, além de produtos nordestinos.

Construção modernista

O Cadeg é um condomínio de proprietários particulares que possui cem mil metros quadrados, 714 unidades, sendo 104 salas comerciais. Entre as cerca de 350 empresas, há 150 floristas. Começou a ser erguido em 1957, em substituição ao antigo mercado da Praça Quinze, derrubado para a obra da Perimetral. A construção, em estilo modernista, dos arquitetos Vigor Artese e Moacyr Gomes da Costa, foi inaugurada em 1962. Cerca de 80% dos ocupantes hoje são inquilinos. Os aluguéis vão de R$ 5 mil a R$ 9 mil na Avenida Central e de mil reais a R$ 4 mil nas ruas laterais.

Paulista, Enzo Astério abriu numa das ruas internas do andar principal uma linguiçaria cheia de bossa. São 28 tipos, incluindo vegana, javali e avestruz.

— Eu já queria abrir uma loja no Rio e comecei a pesquisar. Vi que não era caro o aluguel no Cadeg, que tem o perfil do Mercado Municipal de São Paulo — afirma Enzo.

Pelo velho galpão, circulam de floristas da Zona Norte aos mais badalados donos de restaurantes do Rio, como Rogério Fasano. Na última terça, Denise Leal, do restaurante Afrânio, em Araras, circulava pelos boxes com uma longa lista de produtos na mão:

— Acho tudo aqui — garante.

Para Kátia Barbosa, do Aconchego Carioca, na Praça da Bandeira, o Cadeg é sinônimo de parque de diversões:

— Compro batata-baroa, frutas, moranga, pupunha... E bacalhau, é claro! Até uniforme para os funcionários compro no mercado. Também experimento várias coisas. Passo um dia aqui e volto para casa feliz.

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