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Beira-Mar comandava quadrilha de dentro de presídio em Rondônia

RIO - Um barbante, um lápis e alguns pedacinhos de papel bastaram para colocar em xeque a credibilidade do sistema prisional de segurança máxima do país. Essa era a “parafernália” usada por Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, para continuar comandando o tráfico e cobrando taxas em 13 comunidades de Duque de Caxias, a quase 2.500 quilômetros de distância da Penitenciária Federal de Porto Velho, em Rondônia, onde ele está encarcerado há quatro anos. Deflagrada nesta quarta-feira em seis estados brasileiros, uma operação da Polícia Federal desbaratou o esquema, baseado em bilhetes passados para um detento de uma cela vizinha.

A Polícia Federal começou a investigar o esquema em março do ano passado, quando agentes penitenciários encontraram pedacinhos de papel misturados a restos de comida deixados por Beira-Mar. As sobras estavam dentro de uma quentinha, que seria devolvida à cozinha do presídio de segurança máxima. Juntando os papéis, os agentes descobriram que havia, ali, uma mensagem.

Um exame grafotécnico atestou que o bilhete havia sido escrito por Beira-Mar. Foi montada uma rede de monitoramento, e, por meio de câmeras de segurança, policiais federais constataram que o traficante também passava mensagens para o preso de uma cela vizinha. Desfiando um lençol, Beira-Mar fez um barbante, ao qual amarrava pedacinhos de papel, que eram jogados para o outro preso. Esse receptor, ao contrário de Beira-Mar, tinha direito de receber visitas íntimas. Ele repassava os bilhetes para sua companheira, que os escondia nas partes íntimas.

— Isso, infelizmente, passava despercebido nas revistas — disse o delegado Leonardo Marino, chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal em Rondônia.

Ao longo da investigação, foram apreendidos cerca de 50 bilhetes escritos pelo traficante ou endereçados a ele. A Operação Epístolas (cartas) detectou dezenas de ordens de Beira-Mar para integrantes de sua quadrilha, inclusive parentes.

A pedido de investigadores, a Justiça Federal expediu 22 mandados de prisão preventiva, 13 de temporária e 85 de busca e apreensão. Até a noite desta quarta-feira, 24 suspeitos foram detidos, 14 no Estado do Rio. Também foram capturados supostos comparsas de Beira-Mar em Rondônia, na Paraíba, no Ceará, no Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal. Além disso, agentes conduziram 27 pessoas para prestar depoimentos de forma coercitiva.

Um dos filhos do traficante, Marcos Marinho dos Santos, o Chapolim, foi capturado na Paraíba. Um outro, que mora em Mato Grosso, está foragido. Cinco filhos do criminoso, uma ex-mulher, a sogra e sobrinhos estão entre os que tiveram prisão preventiva decretada. A advogada Alessandra da Costa, irmã de Beira-Mar, que seria a destinatária de vários bilhetes do criminoso, foi presa pela manhã em sua casa, no bairro Vinte e Cinco de Agosto, em Duque de Caxias.

— A operação demonstra que, mesmo recluso há anos, o principal investigado ainda detém o controle do tráfico de drogas e de diversas atividades em 13 comunidades da cidade da Baixada Fluminense. Ele e sua quadrilha dominam a venda de botijões de gás, cigarros e bebidas. Também exploram máquinas caça-níqueis e até sinais de internet — afirmou o delegado Leonardo Marino. — Ninguém poderia vender algo nas favelas sem o consentimento de Beira-Mar.

Cristiano Torquato, diretor da penitenciária federal de Porto Velho, lamentou o funcionamento do esquema de comunicação de Beira-Mar dentro da cadeia, e disse ser contrário às visitas íntimas no sistema de segurança máxima:

— Infelizmente, a legislação permite que presos tenham direito a visitas íntimas em presídios federais. Temos um rígido protocolo de segurança, com 250 câmeras e detectores de metais. Ao longo de 11 anos, os presídios federais nunca registraram fugas, uso de celulares ou rebeliões. Queremos, por questões específicas, que a lei que garante ao preso o direito de visita íntima não seja aplicada no sistema.

Cumprindo penas que somam 320 anos de reclusão, Beira-Mar, segundo a Polícia Federal, não só continuava comandando sua quadrilha dentro do presídio como conseguiu expandir os negócios de seu bando. De acordo com investigadores, ele vinha faturando cerca de R$ 1 milhão por mês. O traficante deve ser transferido hoje para uma outra penitenciária federal.

Os bilhetes escritos por Beira-Mar eram entregues a uma mulher em Rondônia. Ela digitalizava os textos em um e-mail, que foi invadido por agentes da Polícia Federal especialistas em informática. A investigação resultou no bloqueio de 51 contas bancárias que eram movimentadas por parentes do traficante. Nelas, estão depositados cerca de R$ 9 milhões.

De acordo com a Polícia Federal, Beira-Mar tem um patrimônio avaliado em R$ 30 milhões. Ontem, equipes de investigadores estiveram nos principais redutos da quadrilha do traficante: as favelas Beira-Mar, Parque das Missões e Parque Boavista, em Duque de Caxias. Parte dos agentes também foi a um condomínio no bairro Vinte e Cinco de Agosto, onde prenderam a advogada Alessandra da Costa, irmã de Beira-Mar. Apontada como destinatária de vários bilhetes escritos pelo criminoso dentro da cadeia, ela é acusada pelo Ministério Público Federal de formação de quadrilha e de comandar um esquema de lavagem de dinheiro que usava empresas e estabelecimentos comerciais, incluindo casas de shows, bares e um lava-jato.

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