Início Rio de Janeiro As preces não ouvidas da Cidade de Deus
Rio de Janeiro

As preces não ouvidas da Cidade de Deus

Envie
Envie

RIO — ‘Paz na favela’, diz a mensagem pintada em verde e amarelo na porta do barraco de madeira. Lê-se também “essa cidade é de Deus", mas as duas frases não passam de palavras distantes da realidade na comunidade que passou o último fim de semana em meio a um intenso tiroteio. A miséria corrói as paredes do que os moradores chamam de casa, e o cheiro de chiqueiro domina o ambiente, com porcos obesos de tanto comer lixo. De um pântano escuro saem cobras e jacarés, botando todos para correr. Os bichos são um dos principais medos dos que ali vivem. Mais temido do que eles, só o caveirão.

— Semana passada acordei com minha vizinha gritando. Tinha um jacaré de um metro e meio no quarto dela. Saem do brejo à noite para procurar comida, a gente vê o olho do bicho brilhando. O medo é uma criança ser engolida — conta Luan Conrado do Nascimento, de 23 anos, que saiu de sua roça no sertão baiano há dois anos em busca de uma vida melhor. — Nunca imaginei que moraria num lugar assim. Ninguém está aqui porque quer. Com essa guerra, mandei minha mulher e filha para a casa de um primo. Só não fui também para não roubarem nossas coisas.

Existe na Cidade de Deus, bairro onde vivem 50 mil pessoas, uma comunidade chamada Karatê. Lá dentro fica uma das áreas mais pobres da cidade, conhecida como Brejo. É a favela da favela. Ainda não nasceu alguém que goste de morar lá — são pessoas que não têm nenhum outro lugar para ir. Quase todos desempregados que ganham a vida fazendo biscates. Muitos tinham carteira assinada em grandes obras da Zona Oeste, como BRT e Parque Olímpico, mas acabaram dispensados ao fim do serviço e foram parar nos fundos do Karatê, onde todas as casas são de madeira e ninguém paga aluguel, nem luz, nem água.

Na manhã da quinta-feira, crianças jogavam bola quando deveriam estar em sala de aula, mas todas as creches e colégios da Cidade de Deus tiveram as atividades suspensas a semana toda por causa dos confrontos, deixando mais de sete mil alunos em casa. Essas mesmas crianças viram os sete corpos encontrados no Brejo no último domingo, após um dia de terror na favela, com trocas de tiro demoradas, e a queda de um helicóptero da PM, que matou quatro policiais.

Com o que sonham essas crianças, tão expostas à violência? Suzane, de 5 anos, quer morar numa casa de tijolos; Rafael, de 6, sonha com biscoito recheado; Bryan, da mesma idade, com uma barra de chocolate. Os mais velhos veem na bola a chance de que precisam: Leonardo, de 10, planeja jogar no meio-campo do Flamengo; Joan, de 12, quer defender o gol do Vasco da Gama; Kauã, de 13, sonha ser camisa 9 do Botafogo. Os três andam sempre juntos. Assim se sentem mais seguros.

— Ontem dois policiais falaram alto que a gente era “cria” do tráfico. Respondi que somos apenas crianças — diz Kauã, parecendo adulto ao falar. — Não é certo tratarem a gente assim.

Com as mulheres, são relatados casos de policiais ainda mais grosseiros. Moradoras de várias idades contam já ter sido chamadas de “piranha”, “vagabunda”, “mulher de bandido”. Os moradores também dizem que os policiais queimaram a mata do Karatê, na busca por traficantes, fazendo cobras e jacarés saírem de todos os lados. Quando passou, o caveirão arrebentou os fios que conduzem eletricidade, deixando todos sem luz. Uma senhora vê da janela a vida passar.

— Não aguento mais, moço, ninguém merece isso — diz, e começa a chorar. — Queria que meu filho me levasse daqui, mas a mulher dele não deixa.

Um pouco à frente, Maria Isabel da Silva, de 40 anos, pendura as roupas da família no varal improvisado, ao lado de sua casa. Mora com três filhos, três netos e um sobrinho em um espaço de apenas um cômodo. Quem não cabe na única cama, de casal, dorme no chão.

— A vida ficou difícil quando meu marido morreu do coração há dois meses. A gente morava de aluguel aqui na Cidade de Deus. Tivemos que vir pro Karatê. Eu mesma ergui o barraco. Uma parte da madeira arrumei no lixão, outra tive que comprar.

A Cidade de Deus tem uma das piores marcas no Índice de Desenvolvimento Humano do município. Segundo dados do último Censo, ficou em 113º lugar entre 126 bairros. Lá, a esperança de vida ao nascer é de 66 anos. Na ponta de cima da tabela está a Gávea, com 80 anos de esperança de vida e renda per capita dez vezes maior — R$ 2.139 contra R$ 207. É impossível conhecer os dados do Brejo. Seriam, provavelmente, muito piores do que a média da Cidade de Deus, onde muitos moradores vivem em casas de alvenaria de até três andares, com carro na garagem.

— Meu pai falou que, em 15 minutos a gente chega na praia, mas até hoje não conheço o mar — conta o mineiro Eduardo, de 9 anos.

Apesar da pouca idade, e de viver há apenas um ano no lado mais miserável da cidade com a qual sonhava, o menino já sabe o que fazer ao ouvir tiros:

— Lá em casa só tem concreto no banheiro, embaixo da caixa d’água. Todo mundo fica abaixado lá.

Na casa vizinha, vive Suzana Rodrigues, mãe de 13 filhos aos 39 anos. Também desempregada, alimenta os filhos com a cesta básica que ganha de uma igreja. Quando o caveirão passa, todos correm para casa e deitam no chão. Para Laila, a caçula de um mês, Suzana espera um futuro diferente.

— Acredito que vai ser melhor. Só não sei como.

Siga-nos no

Google News