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Arena para blocos na Barra custará R$ 3,3 milhões e terá área VIP

RIO - Cordões de isolamento, pulseira, área VIP... O carnaval da Bahia parece que pegou um trio elétrico e aportou por aqui, mais precisamente, na Barra da Tijuca. O Projeto Arena Carnaval Rio, no Parque dos Atletas, vai custar R$ 3,3 milhões. O que já era polêmico — os blocos tradicionais veem ali um blocódromo capaz de engessar a folia — ficou ainda mais controverso apóso lançamento de dois editais de licitação. As concorrências revelam o que até agora não tinha sido dito e converge para a ideia da baianização da festa.

No Diário Oficial, estão listados detalhes que já provocam arrepios nos puristas da folia das ruas. Enquanto em Salvador as cordas já são questionadas — inclusive com movimento por mais liberdade e menos restrições aos foliões —, o município vai contratar dez pessoas para a equipe de apoio.... nos cordões.

Mas não é só. Haverá uma área VIP com 20 mesas bistrô, 80 banquetas altas, quatro sofás de dois lugares e 64 pufes, onde serão servidos canapés quentes e frios para 300 pessoas, os VIPs, que ganharão pulseirinhas. O dinheiro também será empregado para o pagamento de cachês artísticos. E também na contratação de uma empresa de cenografia e infraestrutura da arena (R$ 1,4 milhão) e de uma produtora de eventos (R$ 1,8 milhão). A prefeitura afirma que os recursos vêm de patrocinadores. Os editais, no entanto, informam que a verba vem da chamada fonte 100 da prefeitura, ou seja, de recursos próprios.

A folia com hora e local marcados para um público de 100 mil pessoas tirou o rebolado de representantes dos blocos da cidade. Para Rita Fernandes, presidente da Liga Sebastiana, que reúne blocos como Escravos da Mauá e Carmelitas, é a “higienização do carnaval”.

— A ideia é totalmente inadequada. O turista não quer ir para uma arena na Barra, mas ter uma experiência de cidade. As ligas da Zona Portuária, da Zona Oeste e da Zona Norte não têm dinheiro para desfilar, e aparece o projeto de “blocódromo”, com área VIP e pulseirinha. Não vamos lá nem para tocar, nem para brincar — avisa.

Rodrigo Rezende, presidente da Liga Amigos do Zé Pereira, que tem oito blocos da Zona Sul e do Centro, como a Orquestra Voadora, faz coro. Ele diz que “o carnaval do Rio é a rua”.

— Vamos passar aperto mais uma vez, e entristece saber que há dinheiro, ao contrário do que pensávamos. Infelizmente, o carnaval de rua não recebe atenção como manifestação cultural, e o fomento continua não existindo — lamenta.

Parceiro de João Bosco na música “Plataforma” — aquela do verso “não põe corda no meu bloco” —, Aldir Blanc diz que a arena “tem como única finalidade cercar, isolar, defecar regras no que é espontâneo e bagunceiro por excelência”:

— Fico triste de ter que cantar, mais de 40 anos depois, “não põe corda no meu bloco”.

Para o professor do Instituto de Artes da Uerj e jurado do Estandarte de Ouro (prêmio do GLOBO para os destaques das escolas de samba) Felipe Ferreira “o mais grave de tudo é a segregação espacial”:

— Baile fechado tem o ano inteiro, pode ter em qualquer lugar. O carnaval é de todo mundo, sem área VIP.

Segundo a Riotur, a Arena Carnaval Rio terá shows gratuitos de samba e a participação de blocos interessados. Será uma alternativa e não afetará a programação dos blocos. O órgão afirma que as cordas são para isolar os trios elétricos dos foliões, que a área VIP é para patrocinadores e que as pulseiras são apenas para acesso ao espaço.

A proposta original da prefeitura, no entanto, era transferir parte dos blocos da Barra para o Parque dos Atletas. Mas o conceito mudou. Grupos tradicionais, como a Banda da Barra, continuarão a desfilar na Avenida Lúcio Costa. Já blocos que atraem muito público, como o Giro do Arar e do Bloco da Gold, serão deslocados para o Centro.

— A transferência desses blocos de maior porte para outros lugares era uma demanda dos moradores. Se parte ficar no Parque dos Atletas não vejo problemas. Mas reconheço que o formato lembra alguma coisa de Bahia — disse o presidente da Liga dos Blocos da Barra e do Recreio, Marcos Marinho.

RIOTUR: CONCEITO DIFERENTE

O presidente da Riotur, Marcelo Alves, garante que “não há possibilidade de comparação com o carnaval da Bahia”:

— Nossa essência não mudará nada. Vai ser fantástico.

O Cordão do Bola Preta foi sondado. O cachê seria de R$ 50 mil. Mas o presidente do bloco, Pedro Ernesto Araújo Marinho, disse que ainda não confirmou se vai ao “blocódromo”:

— A proposta da Riotur, de fato, é um conceito diferente. Não acredito que afete o carnaval de rua tradicional. Nós vamos desfilar sábado de carnaval no Centro, como todos os anos.

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