RIO - Antônio Marcos Pereira Batista, de 15 anos, foi um filho muito esperado por Dona Nanci, de 55, que só conseguiu engravidar aos 40, após uma inseminação artificial. Era um menino tão caseiro e diferente que, até a semana passada, sua mãe o levava e o buscava no colégio todos os dias, no bairro de Oswaldo Cruz. Na madrugada desta quinta-feira, estavam em casa quando trovões começaram a ser ouvidos no número 14 de uma vila na Rua Miguel Rangel, em Cascadura. Por volta da 1h, o que era a sala deixou de existir. A água da chuva, que desceu das ruas Itamarati e Santo Sepulcro, formou um rio e atravessou paredes de várias casas, carregando lixo, lamas, sofás, televisores e até um carro.
Marquinhos, como as pessoas o chamavam, foi levado pela corrente e se tornou uma das quatro vítimas da tempestade. Seu corpo só foi encontrado duas horas depois, no quintal de uma vizinha, a mesma que acompanhou Dona Nanci à Maternidade Herculano Pinheiro no dia em que ele nasceu. A morte de Marquinhos é mais um sofrimento para o Rio, cidade castigada pelas águas logo após ser atingida por uma onda de violência no carnaval.
Somente na Barra, bairro onde mais choveu, o índice pluviométrico alcançou 133,8 milímetros em um período de 12 horas, acima do esperado para todo o mês. Mas, em outros bairros das zonas Oeste e Norte, a tempestade foi mais devastadora. Em Madureira, a dois quilômetros da casa de Marquinhos, choveu 95 milímetros em 15 minutos, quando 25mm num período de uma hora caracterizam uma chuva forte. Mesmo assim, especialistas em clima afirmam que as autoridades já deveriam contar com tempestades intensas nesta época do ano.
Em seis horas, o Rio foi atingido por 1.200 raios. O vento em Santa Cruz chegou a 92 km/h, e o caos se espalhou em velocidade não menos impressionante. A cidade amanheceu com duas mil pessoas desalojadas. Em Quintino, o muro de uma casa desabou na Rua Olina e provocou a morte de Jupira Magalhães Sereno, de 61 anos, e Marcos Garcia, de 59. Os dois eram vizinhos numa vila.
Em Realengo, o policial militar Nilsimar dos Santos, de 48 anos, lotado no 3º BPM (Méier), morreu ao ter seu carro atingido por uma das 35 árvores que caíram na cidade. A caminho de casa, ele tentava desviar do engarrafamento que parou a Avenida Brasil, tomada por bolsões d'água. Enquanto isso, o prefeito Marcelo Crivella estava na Suécia, terceira escala de um giro pela Europa. Ele só deve voltar nesta sexta-feira ao Rio.
Marquinhos, Jupira, Marcos e Nilsimar foram vítimas de uma tragédia anunciada. Um levantamento feito pelo gabinete da vereadora Teresa Bergher (PSDB) a pedido do GLOBO mostra que, no ano passado, a prefeitura destinou R$ 277,8 milhões para combater enchentes, o menor investimento neste serviço desde 2012, quando foram gastos R$ 218 milhões. A principal obra para minimizar inundações em parte da Zona Norte, a transposição do Rio Joana, segue parada, como o jornal revelou em janeiro.
A Secretaria de Conservação e Meio Ambiente começou 2017 com um orçamento de R$ 44,1 milhões para drenagem urbana, mas, deste total, apenas R$ 26,5 milhões foram gastos. Dragagens de rios são negligenciadas, e a falta de investimentos é sentida a cada chuva. Na vila onde Marquinhos morreu, Alexandre de Souza, que mora no local desde que nasceu, há 37 anos, estava revoltado.
- Quando a prefeitura limpa as galerias do rio que passa embaixo da nossa vila, pode cair tempestade que a água escoa que é uma beleza. A morte de Marquinhos não é acidente, é homicídio - afirmou ele, que tem gêmeos de cinco meses. - Perdi tudo. Graças a Deus, minha família está bem, mas sofro pelos pais do menino.
Outras duas vilas vizinhas foram destruídas, e, ontem pela manhã, moradores fizeram um mutirão para procurar pertences entre os destroços. Em todo o Rio, 77 sirenes de alerta de temporais foram acionadas em 44 comunidades. Em Rio das Pedras, centenas de pessoas passaram horas retirando a lama que invadiu as casas. No Complexo do Alemão, a enxurrada deixou 200 desabrigados. A cidade começou a quinta-feira com 51 imóveis interditados pela Defesa Civil.
O temporal causou estragos em unidades públicas de saúde. Um dos casos mais graves foi no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na Ilha do Fundão, onde o CTI do 13º andar ficou sem luz e os respiradores pararam. E até o pátio do 9º BPM (Rocha Miranda) ficou inundado, com vários carros encobertos pela água.
Na orla, cerca de 30 quiosques ficaram danificados, e um trecho da Ciclovia Tim Maia desabou, em São Conrado. Pela manhã, usar os transportes públicos em boa parte da cidade era uma tarefa quase impossível. Houve problemas nos trens, no BRT e no VLT. O Rio teve 95 quilômetros de engarrafamentos. Muita gente ficou em casa, mas sem luz. Faltou energia em vários bairros. Em alguns deles, como São Francisco Xavier, o apagão durou até o fim da noite.
Na vila onde Marquinhos morava, Dona Nanci e o marido passaram a primeira noite sem o filho na casa de Roberto, tio do menino.
- Eles estão à base de remédios. Minha irmã teve dificuldade para engravidar. Foi um filho muito esperado - disse o tio, emocionado.
Até as 21h, o corpo do menino continuava no Hospital Carlos Chagas. De lá, seguirá para o Instituto Médico-Legal. Como os documentos de Marquinhos se perderam na enxurrada, a família não sabia, nesta quinta-feira à noite, quando conseguirá enterrá-lo.



