RIO — O Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF) no Rio e em Angra dos Reis determinou ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e à Companhia Portuária Baía de Sepetiba (CPBS) a suspensão imediata da licença de dragagem do fundo da Baía de Sepetiba, “até a completa normalização do surto de morbilivirose”, que vem causando a morte de quase duas centenas de botos-cinza nas Baías de Sepetiba e Ilha Grande. A dragagem foi autorizada pelo Inea no ano passado, e começou a ser feita no último dia 12 de janeiro pela CPBS, que opera o terminal de minério da empresa Vale. O prazo para que o Inea e a CPBS informem se vão cumprir espontaneamente a recomendação é de 72 horas.
Segundo o MPF, a recomendação é baseada em um documento elaborado pelo Laboratório de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que concluiu que a dragagem afeta os mamíferos marinhos. De acordo com o estudo, “em relação às baleias e golfinhos, têm sido reportados impactos negativos que envolvem principalmente o abandono temporário ou permanente do ambiente. Além disso, a dragagem pode levantar plumas de sedimentos que, se contaminados, podem tornar os metais pesados biodisponíveis aos golfinhos e as baleias”.
Desde o fim de novembro, um surto do vírus vem causado a morte de dezenas de animais nas baías de Sepetiba e Ilha Grande. A doença compromete a imunidade dos botos. Até 10 de janeiro, 170 animais foram encontrados mortos nessas áreas, de acordo com o Boletim Técnico emitido pelo Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (MAQUA/UERJ) e o Laboratório de Patologia Comparada de Animais Selvagens da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (LAPCOM/FMVZ/USP).
Durante décadaas, a empresa metalúrgica Ingá e outras empresas instaladas no Distrito Industrial de Santa Cruz, se utilizaram da baía de Sepetiba como destino final de seus efluentes líquidos e sólidos ricos em metais pesados, como cádmio, zinco e cromo. “Altas concentrações de contaminantes desse tipo estão ligadas à depressão do sistema imune, principalmente em relação ao mercúrio, cádmio, chumbo, selênio e zinco, como foi o caso reportado para os golfinhos-nariz-de-garrafa”, afirma o documento da UFFRJ. O estudo revela ainda que o ruído produzido pelo processo de dragagem “tem o potencial de induzir estresse, que, por sua vez, pode reduzir a eficiência de forrageamento de mamíferos marinhos ou aumentar sua suscetibilidade a patógenos e aos efeitos das toxinas”.



