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Após declarações de Torquato, clima entre Planalto e governo do Rio azeda de vez

RIO e BRASÍLIA - Um dia após ser acusado pelo ministro da Justiça, Torquato Jardim, de ser conivente com a corrupção na Polícia Militar, o governo estadual partiu nesta quarta-feira para o contra-ataque: anunciou que vai interpelá-lo judicialmente por meio de uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF), conforme antecipou o colunista do GLOBO Ancelmo Gois em seu blog. A decisão foi tomada durante uma reunião no Palácio Guanabara, da qual participaram o governador Luiz Fernando Pezão, o secretário de Segurança, Roberto Sá, o comandante-geral da PM, coronel Wolney Dias, e oficiais que estão à frente de 44 batalhões. O estado subiu o tom, e, de Brasília, veio uma resposta igualmente dura. O vice-líder do governo na Câmara dos Deputados, Darcísio Perondi (PMDB-RS), saiu em defesa de Torquato afirmando que “o Rio é quase um caso perdido”. Um sinal de que o Planalto não está disposto a pôr panos quentes na crise instalada pela metralhadora giratória do ministro da Justiça.

— Ele (Torquato) foi sincero. Às vezes, a sinceridade machuca. O Rio é quase um caso perdido — disse Perondi.

Após participar de um evento em Brasília com a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, e o ministro da Educação, Mendonça Filho, Torquato não manifestou preocupação com a iniciativa do governo estadual de questioná-lo na Justiça.

— Essas reações são normais — disse o ministro, que não quis fazer novos comentários sobre a segurança pública do Rio: — Já falei o que tinha que falar.

A crise na relação entre os governos estadual e federal foi detonada na terça-feira, quando Torquato, em entrevistas ao site UOL e à rádio Bandnews, destacou que “o comando da PM decorre de acerto com deputado estadual e o crime organizado”, entre outras acusações. Ele também disse suspeitar que o assassinato, na semana passada, do coronel Luiz Gustavo Teixeira, do 3º BPM (Méier) foi uma execução, apesar de investigadores tratarem o caso como homicídio praticado durante uma tentativa de assalto. No mesmo dia, o ministro reafirmou as declarações ao GLOBO e acrescentou: “Se estou errado, que me provem”.

Ainda na terça-feira, Pezão, Sá e Dias repudiaram as acusações de Torquato, que também havia dito que “comandantes de batalhões são sócios do crime organizado no Rio”. Mas o desconforto que as declarações do ministro causaram em meio à tropa da PM levou o estado a adotar, ontem, uma postura mais radical. A reunião no Palácio Guanabara foi convocada às pressas pelo Estado-Maior da corporação. Em seguida, a Procuradoria-Geral do Estado do Rio apresentou ao STF pedido de interpelação motivado por “crime contra a honra”.

— O governador prestou solidariedade a cada componente da Polícia Militar — frisou Sá ao fim do encontro.

Após o secretário afirmar que a parceria com o governo federal no combate à violência continua, o comandante da PM mostrou sua indignação:

— Acho um absurdo (Torquato) levantar suspeitas sobre o coronel Teixeira, que dedicou sua carreira e tinha bons serviços prestados. A família não merece que sua imagem seja arranhada. Também queria dizer que não comando uma horda, eu comando uma legião de heróis.

Além de Darcísio Perondi, outros dois integrantes da Câmara dos Deputados reforçaram, de lados opostos, o clima beligerante. Alessandro Molon (Rede-RJ) pediu ao Ministério Público do Rio para investigar a suposta existência de uma relação entre comandantes de batalhões e o crime organizado, apontada pelas “declarações verossímeis” de Torquato. Já o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ) abriu fogo contra o ministro e o Palácio do Planalto.

— Ele pode ter atrapalhado a força-tarefa porque tudo que falou estaria sendo investigado, tem um trabalho que não é só do Ministério da Justiça. Pode ter jogado tudo fora. Se há informação de que o governador não manda mais, que o secretário não manda mais, e que os bandidos estão comandando os batalhões, é preciso tomar uma providência. Ou o governo não sabe o que está falando ou vai ter que intervir — criticou Maia, acrescentando que o presidente Michel Temer não tem condições fiscais ou políticas para fazê-lo.

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