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Agremiações da Série E, a sexta divisão carioca, se apresentam no subúrbio

RIO - “Vamos ao ateliê”, convida Marcelo Santos, diretor de carnaval da escola de samba Boi da Ilha do Governador. Ele deixa o Bar do Portela, sede da agremiação desde que a quadra foi vendida, onde estão reunidos integrantes da velha guarda, e passa em frente a um terreno baldio, na Rua Jussiapé.

— Aqui, o Boi foi feliz — diz o dirigente, de 29 anos. — Era a nossa quadra, tinha camarote e tudo, mas foi vendida por um ex-presidente. Nunca vimos a cor do dinheiro.

Ele caminha poucos metros e chega ao “ateliê”: o baú de um caminhão estacionado no meio-fio. Lá ficam guardadas as 350 fantasias do desfile. Com enredo sobre os 50 anos do clássico “Máscara negra”, de Zé Kéti, a escola deve gastar R$ 30 mil neste carnaval. Parece pouco, mas ainda falta dinheiro para pagar o transporte dos componentes e o guindaste que carrega a única alegoria. É dura a vida na Série E, sexta e última divisão do carnaval carioca, que desfila na noite deste sábado na Estrada Intendente Magalhães, em Campinho.

— A gente tinha quadra, barracão, máquina de solda, serra de corte de ferro, madeira de sobra, cinco carros alegóricos — recorda o caçula da velha guarda, Palito, como é conhecido Eduardo Gomes, de 66 anos. — Agora, só temos o amor pelo Boi, e a vontade de brilhar outra vez.

Quinze agremiações vão desfilar pela Estrada Intendente Magalhães. A Passarela Popular, como é chamado o palco da festa no subúrbio, fica a apenas 20 quilômetros da Marquês de Sapucaí, onde, na mesma noite, haverá o Desfile das Campeãs do Grupo Especial. Se, de um lado, cada apresentação terá custado R$ 65 mil, do outro, a conta chega a R$ 15 milhões. Apenas a fantasia de um destaque ou de uma rainha de bateria da elite pagaria dois carnavais na Série E, única em que as agremiações não recebem um centavo sequer de subvenção.

— No ano passado, o carnavalesco, meu cunhado, gastou R$ 10 mil do próprio bolso — conta o presidente do conselho deliberativo do Império Ricardense, Nino Smith, que também é diretor de carnaval. — Desta vez, conseguimos apoio de alguns empresários de Ricardo de Albuquerque. Mas é uma batalha diária.

Uma batalha tão grande que, se não fosse a ajuda de outras agremiações, o carnaval não aconteceria. O carro alegórico da Império, por exemplo, foi feito com esculturas de desfiles passados, doadas por duas agremiações: a Acadêmicos de Vigário Geral e a Boca de Siri, ambas da Série C. As fantasias foram feitas com material reciclado da Portela, do Império Serrano e da Beija-Flor, onde Nino já trabalhou. O Boi da Ilha, por sua vez, recebeu ajuda da vizinha, a União da Ilha do Governador. Mas, com a falta de recursos, as dívidas de outros carnavais vão se acumulando.

— Devemos um pouco para a senhora que fez as sapatilhas, mais um pouco para a costureira das fantasias, e assim vamos levando, pagando aos pouquinhos — afirma Marcelo Santos enquanto abre o caminhão para mostrar as fantasias das baianas. — Já temos quase tudo pronto. Só falta o carro alegórico — disse, a uma semana do desfile.

Quase todas as agremiações dos grupos de acesso usam como barracão um espaço chamado de Carandiru, que fica perto do local de desfile, em Vila Valqueire. Ali funcionava uma antiga fábrica da Antartica, e o imóvel foi herdado por Marcelo Falcon, presidente da Portela assassinado no ano passado de maneira ainda não esclarecida pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil. No local, alegorias de quase cem agremiações ficam espalhadas à espera do grande momento. O aluguel do espaço custa R$ 5.800 por ano para cada escola. Muitas da Série E não têm esse valor e acabam usando o Carandiru quando conseguem que uma escola amiga ceda o lugar, normalmente a poucos dias do desfile da Série E. Esta semana foi uma corrida contra o relógio, usando material recolhido até mesmo na dispersão do Grupo Especial, para que tudo ficasse pronto antes deste sábado.

As agremiações da Série E formam um grupo heterogêneo. O Boi da Ilha, por exemplo, já passou três vezes pela primeira divisão do carnaval. Em 2001, com o enredo “Orun-Ayê”, surpreendeu o mundo da folia ao conquistar o Estandarte de Ouro do GLOBO na categoria samba-enredo, prêmio sempre lembrado no Bar do Portela, entre uma cerveja e outra. O rebaixamento veio em 2003, quando a agremiação pôs na Sapucaí um enredo sobre a cidade de Cabo Frio. De 2013 a 2015, veio uma sequência terrível de últimos lugares, desfilando apenas com a velha guarda, bateria e carro de som, e caindo para a Série E. A tentativa de dar a volta por cima começou em 2016. Mas, este ano, dívidas ressurgiram e o presidente renunciou ao cargo.

— Renunciou, não, foi “renunciado” — afirma Seu Portela, dono do bar e fundador da velha guarda. — Tivemos gestões muito ruins, mas a verdade é que o Boi da Ilha não aprendeu a desfilar na Intendente Magalhães. Nosso lugar é a Marquês de Sapucaí.

Já o Império Ricardense luta para acabar com o estigma de ser uma dissidência, fruto do rompimento entre diretores da Arame de Ricardo, que nasceu como time de futebol, virou bloco carnavalesco e se tornou escola de samba, obtendo o 4º lugar na Série B este ano. O Império está em seu segundo carnaval. No primeiro, ano passado, bateu o recorde de componentes, com 471 foliões percorrendo a Passarela Popular. Não foi promovida por apenas quatro décimos. Há também uma escola fundada há pouco mais de um mês, a Acadêmicos de Pilares. A agremiação se preparava para se apresentar como bloco carnavalesco, mas foi pega de surpresa com o convite de Heitor Fernandes, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba da Série B (Liesb, que cuida também das séries C, D e E), após cinco agremiações desistirem de desfilar por falta de recursos — entre elas a União de Vaz Lobo, uma das mais antigas do Rio, fundada em 1930.

— Mudamos as regras para elevar o patamar da Série E, que é um grupo de avaliação criado para as agremiações não voltarem a ser blocos. Vamos rebaixar sete das 15 escolas — afirma Heitor, lembrando que o grupo receberá quatro que descerão da Série D. — Vamos ter menos agremiações ano que vem. Ficará mais fácil negociar uma subvenção.

No carnaval em que o lixo de uns é ouro para outros, é preciso sambar para continuar existindo. E encontrar esperança onde menos se espera: como a carreta de um caminhão.

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