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A memória entra na Avenida

RIO - Tem intelectual no samba. Uma equipe de bambas da arte de pesquisar vem dando uma forcinha para a Mangueira levar para a Sapucaí, sem margens para erros históricos, o enredo “Só com a ajuda do santo” — que trata a religião como manifestação cultural. Ou seja, vão desfilar na Avenida imagens de igrejas, terreiros, festas populares, crendices e mandingas.

O carnavalesco da verde e rosa, Leandro Vieira, diz que a ajuda de pesquisadores do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tem sido fundamental. A turma forneceu livros, fotos e relatórios de processos de tombamento. E não foi só. Deu dicas e até conseguiu alguns objetos folclóricos para serem usados como referências no desfile.

A parceria entre as turmas dos paetês e da preservação histórica vai ultrapassar o carnaval. Em troca da ajuda para o desfile, a Mangueira abriu seu barracão a antropólogos, sociólogos, fotógrafos e cinegrafistas. O resultado da imersão do pessoal do patrimônio no mundo do samba será extenso: estão previstos um livro, uma exposição e um documentário sobre o carnaval da Mangueira. Tudo deverá ser lançado no segundo semestre deste ano.

— Tenho procurado trabalhar com enredos que cumprem a vocação do carnaval, que é dialogar com a produção cultural de todo o Brasil. E o Iphan entendeu que isso é muito rico — explica Leandro Vieira.

Desde o final do ano passado, o carnavalesco e sua equipe participam de encontros com os pesquisadores. Funcionários do Iphan têm visitado o barracão da Mangueira, na Cidade do Samba, colhendo depoimentos e gravando imagens dos chamados operários do carnaval. No dia do desfile, uma “ala” do Iphan também vai estar lá, filmando tudo.

Quando a folia acabar, a Estação Primeira de Mangueira irá ceder algumas fantasias, adereços, carros e alegorias para os museólogos do Iphan montarem uma exposição sobre o carnaval da verde e rosa no Paço Imperial, no Centro. Na mostra, o público poderá conferir um vídeo que mostrará o da produção do carnaval da escola.

— Eles estão visitando a escola e documentando tudo, com o objetivo de levantar os “saberes do carnaval”. Estão entrevistando marceneiros, escultores, eletricistas, costureiras. Para mim, que estudei artes plásticas, é muito importante ver meu trabalho no carnaval reconhecido por um órgão cultural — diz Leandro.

Dos encontros, já saiu muita ideia boa. Para compor as alegorias que evocam as festas de São João, por exemplo, obras de Mestre Vitalino foram usadas como referência. Para mostrar o luxo da arte sacra e do barroco das igrejas, as delicadas pinturas de Manoel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, e as esculturas de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, serviram de inspiração. Nos dois casos, livros oferecidos pelo Iphan fizeram a diferença.

— Foram umas 60 obras, que nos ajudaram muito. Teve um título sobre oratórios brasileiros que direcionou muito o trabalho de artes cênicas em todo o barracão e serviu de referência para os pintores — explica o carnavalesco, referindo-se à publicação “Museu do Oratório”, de Angela Gutierrez, que reúne imagens dos mais de 160 oratórios que compõem a coleção sacra do Museu do Oratório, localizado na cidade histórica mineira de Ouro Preto.

CELEBRAÇÃO POR 80 ANOS

Segundo a presidente do Iphan, Katia Bogéa, a ideia da parceria surgiu assim que o enredo da escola foi anunciado. E caiu como uma luva, já que o instituto está completando 80 anos e fazendo várias ações para celebrar o aniversário:

— Quando soubemos do enredo da Mangueira, que fala das igrejas aos terreiros de candomblé, pensamos: isso é praticamente um resumo da história do Iphan nestes 80 anos. Vimos ali uma ótima oportunidade de troca.

Como a maioria das celebrações religiosas que serão retratadas na Sapucaí foi reconhecida pelo Iphan como patrimônio imaterial, as 27 superintendências do órgão têm farta documentação sobre suas características.

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