RIO - Normalmente calmo e tranquilo, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, teve uma reação inesperada na tarde desta segunda-feira: ao ser questionado sobre a decisão do defensor publico da União, Daniel Macedo, que anunciou pela manhã que vai recomendar ao município que decrete estado de calamidade na saúde pública do Rio, Crivella reagiu irritado:
— É uma medida meramente política. A Defensoria não tem moral para colocar o dedo na minha cara — reagiu Crivella aos gritos: “É muito fácil ficar atrás de uma mesa criticando quem está suando a camisa. Que chega à prefeitura às 7h e sai às 10h. Não admito isso — afirmou o prefeito.
De manhã, durante uma inspeção com promotores do Ministério Público Federal aos hospitais públicos do Rio, o defensor público da União, Daniel Macedo, disse que após as eleições iria recomendar ao município do Rio que decretasse estado de calamidade na saúde pública. Macedo disse que a Defensoria da União tinha identificado “um quadro para decretar situação de calamidade pública na saúde”. Segundo o defensor, especialmente no Rio o prefeito precisa reconhecer este ato, que segundo ele, é um ato de humanidade.
— Ele decretando quadro de emergência na saúde, ele deve, em primeiro lugar, suspender as cirurgias eletivas. Não só no município. O estado também precisa fazer a mesma coisa, os seis hospitais federais e os três institutos. As suspensões das cirurgias eletivas são essenciais para concentrar os esforços na atenção básica e nas UPAs porque a situação é muito grave — afirmou Macedo.
O defensor público também defende a criação de um gabinete de crise com município, estado e União para apresentar soluções claras e factíveis para a população, como dar mais transparência às filas. Os pacientes não sabem quando serão atendidos. Macedo diz que as decisões liminares na Justiça para garantir atendimento na saúde estão se transformando em certidões de óbito, porque os pacientes não são atendidos a tempo. Segundo ele, isso é um descrédito do Poder Judiciário, já que as liminares não estão sendo cumpridas. Houve um aumento de 45% das ações judiciais.
— O que acontece é que quando economizo na atenção primária, na Clínica da Família, a unidade hospitalar é sobrecarregada em algum momento. Hoje, um paciente oncológico que demora até nove meses para conseguir uma consulta, quando o estado de saúde dele se agrava, ele entra numa Emergência. O Hospital Federal de Bonsucesso, por exemplo, há três meses não tinha morfina para pacientes. Tem de juntar duas cadeiras para internar um paciente por até dez dias, paciente oncológico. É uma situação gravíssima — revelou o defensor.
Visivelmente irritado com as declarações do defensor, Crivella foi duro:
— Zeramos filas. Quando foi feito isso na Cidade Olímpica? Claro que encontramos Organizações Sociais (OS) acostumadas a receber milhões. Não admito isso. É uma ação política. O Rio tem feito um esforço extraordinário para atender as pessoas. Calamidade total é lá na Defensoria. Aqui não. Aqui estamos trabalhando com honestidade, cuidando da saúde da população. Quem são esses defensores públicos para me dar lição de moral. Quando deixamos de atender? Quando fechamos uma clínica de família? Não admito isso.
A Defensoria Pública da União, em nota enviada ao GLOBO, revelou que "como Instituição pública, é apartidária e deve recomendar, ao senhor prefeito, a adoção de medidas que entende como impostergáveis, considerando um quadro já delineado de situação de emergência no âmbito da prestação de serviços de Saúde. Segundo o texto, "não é de hoje que a Defensoria Pública da União observa o quadro de grave desassistência, o que vem determinando o agravo do estado de saúde física e emocional de milhares de pacientes, munícipes ou não, da cidade do Rio de Janeiro. Upas sendo fechadas, pagamentos atrasados, déficit de pessoal, falta de insumos e medicamentos, são fatores que determinaram, por parte da Defensoria Pública da União, a adoção de uma medida mais contundente, de modo a evitar o agravamento da situação na prestação de serviços de Saúde".
A nota termina afirmando que "lamenta a postura do senhor prefeito e seu posicionamento sobre a atuação da Instituição. A atuação da Defensoria Pública da União não está atrelada ao calendário eleitoral, mas unicamente à busca de soluções para evitar que a situação futura torne-se insustentável".
A coletiva de imprensa usada pelo prefeito para criticar a Defensoria Pública da União, foi realizada na sede do Centro de Operações Rio (COR), no Centro da cidade. O assunto era outro: Crivella reuniu jornalistas para anunciar que o município encontrou problemas também na execução das obras de construção do BRT Transoeste, com prejuízos aos cofres públicos do município que ainda estão sendo calculados. A via expressa é importante para o transporte coletivo da cidade do Rio, ligando a região da Barra da Tijuca a Santa Cruz, e Campo Grande, passando por Guaratiba e Recreio dos Bandeirantes. Na semana passada, em outro encontro com os jornalistas, Crivella já havia revelado ter encontrado irregularidades no projeto de construção do BRT Transcarioca, obra da gestão anterior, do ex-prefeito Eduardo Paes.
O prefeito afirmou que o levantamento encontrou irregularidades principalmente no material e nas especificações técnicas usadas na pista por onde passa o ônibus articulado.
— As condições das calhas (pista por onde passam os ônibus) são as mais péssimas possíveis. O município foi lesado profundamente. Se alguém fosse escrever um livro sobre a corrupção no Brasil, essa obra merecia uma capítulo — afirmou Crivella.
As falhas no projeto, segundo Crivella, estão causando desgastes nas vias e causando danos aos ônibus. O prefeito garantiu também que a divulgação da inspeção, às vésperas do segundo turno da eleição ao governo do estado, não tinha intenção de prejudicar o candidato Eduardo Paes.
— A Intenção aqui, desde o início, é ressarcir o município. As consequências são inevitáveis, mas isso pouco me interessa. Meu dever como prefeito é fiscalizar. Tomar providências. Fosse quem fosse que estivesse disputando eleição — afirmou o prefeito do Rio.
Segundo Marcelo Crivella, a investigação nas obras feita por técnicos da prefeitura do Rio foi determinada após ele tomar conhecimento do depoimento do ex-secretário municipal de obras da gestão anterior, Alexandre Pinto. Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, em 4 de outubro, Pinto afirmou que o ex-prefeito Eduardo Paes, atual candidato a governador, teria aceito propina para obras da Transoeste. Pinto foi condenado a 23 anos de prisão.
O prefeito afirma também que a ação foi motivada por um processo do consórcio que administra as linhas de BRT. O consórcio estaria processando a prefeitura para que ela pague por consertos nos ônibus da linha Transcarioca. Segundo o grupo, as composições estariam danificadas por conta de problemas nas pistas.

