SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dificilmente um presidente terá a aprovação de mais de 50% da população em sociedades muito polarizadas como as do Brasil e dos EUA, avalia Timothy Power, chefe do departamento de Ciências Sociais da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
O desafio de furar a bolha, em sua opinião, vale mesmo para o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que Power vê como caso único por liderar um mesmo partido por mais de 40 anos.
Professor de política com foco em América Latina em Oxford, Power falou sobre polarização em evento da Fundação Lemann com a Blavatnik School of Government, da Universidade de Oxford no fim de novembro
Com português fluente, ele avalia em entrevista à Folha que, apesar da capacidade de negociação de Lula, será mais complicado formar base ampla agora do que foi em 2003, entre outras razões devido à dificuldade de atrair parlamentares de estados bolsonaristas.
Em sua opinião, acenar ao centro na coalizão governista, o que ainda não aparece com força nos anúncios de ministros, será fundamental.
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Folha - Comentando a saída da Liz Truss [do cargo de primeira-ministra], Lula falou que ela não tinha tamanho para lidar com a crise do Reino Unido. Lula tem tamanho para lidar com a situação no Brasil, com crise social e gente protestando até agora em frente aos quartéis?
Timothy Power - Tamanho ele tem. Ele começou em 2002 com condições bastante adversas e conseguiu formar uma coalizão e, ao longo do tempo, aumentá-la. Mas eu acho que vai ser mais difícil desta vez do que foi em 2002.
Em 2003 e 2004, a grande conquista foi trazer o PMDB para o governo. Hoje, o MDB é um partido muito reduzido em tamanho, e o PSDB tem mais ou menos o mesmo tamanho do PSOL na Câmara. Vai ser mais difícil conquistar um centro que é mais superficial e reduzido.
Em segundo lugar, muitos deputados eleitos em estados que votaram em Bolsonaro vão ter mais dificuldade em entrar na coalizão, a situação é muito mais polarizada. O custo de aderir ao governo petista em 2003 era menor do que é hoje se você vem de Santa Catarina, Paraná e Distrito Federal.
E, em terceiro lugar, tem o quadro econômico externo, que não tem as mesmas condições favoráveis de 2003.
Folha - O senhor vê alguma chance do Lula terminar de novo o mandato com 83% de popularidade?
Timothy Power - Eu acho que, em sociedades polarizadas, não existe mais espaço para presidentes populares. Por exemplo, nos Estados Unidos não vai ter mais presidente popular, porque o teto de aprovação é 50%. O Lula com muita sorte podia fazer isso, mas o teto será bem menor do que 83%.
Folha - Por que dificilmente um presidente hoje vai ter mais que 50% de popularidade?
Timothy Power - Os índices de rejeição de Lula e Bolsonaro foram muito previsíveis ao longo do ano todo, 45% a 55% dos eleitores rejeitavam totalmente a outra proposta. Isso de certa forma permanece, então existe um teto de vidro de 50%, um pouco mais, de popularidade para o presidente no primeiro ano. Nos Estados Unidos é a mesma coisa, Biden e Trump nunca vão ultrapassar 50%.
Folha - A polarização é um cenário que já está dado ou há algo que o governo eleito possa fazer?
Timothy Power - Não vai ser fácil. Na campanha, o Lula deu sinais de que queria quebrar esse muro. O grande contraste foi justamente a indicação dos respectivos candidatos a vice-presidente. Todo mundo sabe que candidato a vice não agrega muita coisa matemática, mas tem valor simbólico muito grande de sinalizar aos adversários para o centro.
Lula escolheu Alckmin. O Bolsonaro tinha a mesma chance de sinalizar e optou por substituir um general por outro general. Desperdiçou a possibilidade de sinalizar. Podia ter virado o jogo numa eleição tão apertada.
Agora, sinalização não é a mesma coisa que conquistar cadeiras na Câmara ou compor um governo. O importante é repetir o exemplo de Alckmin em cargos ministeriais. Os primeiros nomes anunciados vêm do PT. Deveria haver mais nomes de natureza simbólica, como Alckmin, em cargos importantes.
Folha - Como se chegou a esse grau de polarização?
Timothy Power - Há uma distinção entre polarização macropolítica e micropolítica. Na macropolítica, você define quem são os inimigos e não se posiciona em termos de políticas públicas ou decisões, você simplesmente sabe que se aquela ideia veio do outro lado, é uma ideia ruim e não precisa mais ter debate. Tem muito a ver com a disseminação de mídias sociais, a simplificação de mensagens, a rapidez, desinformação.
A polarização micropolítica é outra coisa que a gente entende muito menos, que é a polarização dentro das famílias, na mesa do jantar, no lugar de trabalho, na rua. É o estresse que a polarização política impõe nas relações.
Folha - Quais as possíveis saídas?
Timothy Power - Para a polarização micropolítica, não há resposta fácil. Já a polarização macropolítica pode ser quebrada por ação inteligente por parte das elites.
No Brasil, sempre houve duas instituições que atenuam a polarização na máquina política. A primeira é o presidencialismo de coalizão. Nenhum presidente chega com maioria pré-fabricada, então as pessoas têm que formar maioria com negociação e coalizões.
A outra instituição que atenua a polarização no Brasil é a governança multinível, municipal, estadual e federal. Muitos países têm apenas dois níveis ou um. Com três, as coalizões e as famílias políticas às vezes são incongruentes entre os níveis, e é natural que o palanque de um político em um município seja um e no estado seja outro. Isso ajuda a quebrar a polarização que existe numa eleição presidencial.
Lula é mestre em fazer coalizões imprevisíveis. Será mais difícil em 2023 do que em 2003, mas não é impossível.
Folha - A raiz da polarização está só rede social ou dá para pensar em outros fatores?
Timothy Power - As instituições políticas, as organizações e os movimentos sociais perderam espaço para os meios sociais. Quando Lula formou um partido, a grande arma do PT eram os sindicatos. Mas hoje uma conta de WhatsApp pode valer uma CUT, porque o custo de mobilização foi muito reduzido. Isso é muito diferente de uma campanha tradicional, com partidos, sindicatos, movimentos sociais com plataformas consistentes.
E eles tinham, quem sabe, menos mobilização intereleitoral do que hoje, porque hoje, mesmo nos anos não eleitorais, os meios sociais continuam muito ativos. O populista, quando ganha, não governa, continua em campanha. Foi assim com Bolsonaro e do Trump.
Folha - Quais são os pontos de diálogo com os bolsonaristas?
Timothy Power - Um pacto nacional para a incentivar o crescimento econômico seria o ponto número 1, o segundo a reconstrução dos serviços públicos, da saúde, da segurança pública, depois desses anos de bolsonarismo e pandemia. Temas culturais, de identidade e de direitos reprodutivos voltam à polarização eleitoral imediatamente.
Folha - Essa é uma preocupação frequente. O que as minorias, a população LGBTQIA+, por exemplo, podem esperar de um governo como este?
Timothy Power - Se eu participasse de qualquer movimento social no Brasil, estaria muito otimista, mas otimista em relação aos últimos quatro anos, não em relação à agenda total dos grupos. O PT tem uma tradição de trazer os movimentos sociais para o cerne do governo.
Agora, a criação de secretarias especiais etc. é mais difícil, porque isso infla o tamanho do ministério com pouco retorno político para o governo. Durante o mandato, o Lula aumentou o número de ministérios. Isso me parece uma estratégia defasada e sem muita eficácia neste momento.
Folha - Lula já declarou que não quer tentar reeleição. O que isso muda para pensar as forças internas do governo?
Timothy Power - Em vários outros momentos no passado, o Lula já tinha levantado a hipótese de o PT apoiar outro nome, fora do PT, como o Eduardo Campos. Sempre houve resistência dentro do partido a isso. Mas acho que falar isso também é uma mensagem interna para o partido de que é o momento de começar a pensar em nomes pós-Lula. Olhando para todo o planeta, é muito difícil pensar em outros partidos com o mesmo líder há 43 anos.
Folha - Simone Tebet, caso entre no governo, estará em situação peculiar, porque o governo vai abrigar alguém que provavelmente vai concorrer contra candidato do PT em 2026. Como vê a situação dela?
Timothy Power - O comportamento dela na eleição foi extremamente corajoso. Ela arriscou tudo para apoiar o Lula, sabendo que, se ela errasse nessa estratégia, a carreira política dela acabaria em um minuto. Acho importante o Lula usar esse nome para sinalizar aos setores econômicos ao redor dela, aos quais a esquerda tem pouco acesso.
Agora, ela teve 4% dos votos . É preciso cumprimentar as pessoas que tiveram papel coadjuvante importante, mas não é algo que dá muito poder político a essas pessoas.


