Apesar da pretensão do presidente, o primeiro ano de seu terceiro mandato não será marcado pela reconciliação nacional. Lula tomou posse em 1.º de janeiro destacando a "necessidade de unir o País" e ressaltando que "não existem dois Brasis". No entanto, nas semanas que se seguiram à chegada ao poder pela terceira vez, o chefe do Executivo federal fez uma série de declarações nas quais sugere a disputa entre grupos antagônicos na sociedade, tanto nas preferências políticas quanto em relação a classes sociais.
Quase um mês após a invasão das sedes dos três Poderes, no início de fevereiro, o petista afirmou que os atos golpistas na capital federal foram obra dos "ricos que perderam as eleições". O Planalto, sob seu comando, também não conseguiu segurar a instalação de uma CPI Mista sobre o 8 de Janeiro no Congresso. A comissão virou basicamente um palco de embates entre governistas e oposicionistas, ampliando a agressiva polarização que envolve a esquerda - capitaneada pelo PT - e a direita mais radical - representada principalmente pelos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
No dia seguinte aos ataques de 8 de janeiro, Lula reuniu governadores no Palácio do Planalto e liderou um ato contra a ação dos radicais. A comitiva formada por políticos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) atravessou a Praça dos Três Poderes a pé para visitar a sede depredada da Corte.
Ontem, o presidente sugeriu a repetição do gesto. "Estou convidando todos os governadores porque no dia 8 de janeiro nós vamos fazer um ato aqui em Brasília para lembrar o povo que tentou-se dar um golpe dia 8 de janeiro e que ele foi debelado pela democracia desse país", afirmou durante cerimônia sobre financiamento de obras nos Estados por bancos federais.
"Pretendo ter todos os governadores aqui, deputados, senadores, empresários, para a gente nunca mais deixar as pessoas colocarem em dúvida que o regime democrático é a única coisa que dá certeza das instituições funcionarem e o povo ter acesso a participar da riqueza que ele produz. O restante é balela", disse Lula.
O 8 de janeiro também acentuou o desgaste na imagem do Supremo. A extensão das prisões e a condução dos processos dos réus geraram críticas contundentes à Corte, inclusive da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
'Bordões fascistas'
Relator das ações resultantes dos ataques aos prédios dos três Poderes, o ministro Alexandre de Moraes rebateu as críticas ao modo como vem lidando com os réus pelos atos antidemocráticos. Para ele, quem critica o tratamento penitenciário aos processados "nunca se preocupou com os 700 mil presos brasileiros".
"Enquanto não havia gente ligada a essas pessoas, elas tinham bordões fascistas em relação àqueles que cometiam crimes", disse Moraes em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. "Nunca defenderam o que elas (os réus) têm agora no Supremo, devido processo legal, direito a advogado, a um julgamento por 11 ministros".
Para o ministro do STF, que foi ovacionado com gritos de "Xandão" anteontem no Palácio do Planalto, não há excessos na condução dos processos e as penas elevadas se explicam pela gravidade e cumulatividade dos crimes enquadrados.
A resposta dos representantes das instituições republicanas ao convite de Lula vai indicar o quanto os "dois Brasis" foram unidos ou o quanto se mantêm separados.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

