Início Política Projeto que limita Lei da Ficha Limpa amplia riscos de infiltração do crime nas eleições, diz ONG
Política

Projeto que limita Lei da Ficha Limpa amplia riscos de infiltração do crime nas eleições, diz ONG

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ONG Transparência Internacional divulgou comunicado com críticas ao projeto aprovado pelo Senado nesta terça-feira (2) que flexibiliza a Lei da Ficha Limpa e limita a inelegibilidade de políticos condenados a oito anos. Segundo a organização, o texto representa um retrocesso para os esforços de se combater a corrupção e de impedir a infiltração do crime organizado nas eleições brasileiras.

Aprovada no mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou o julgamento da tentativa de golpe de Estado, a proposta prevê mudanças em trechos da lei para diminuir o período durante o qual políticos que foram condenados ou tiveram os mandatos cassados ficam sem direitos. O texto segue agora para sanção ou veto do presidente da República.

Segundo a Transparência Internacional, o projeto aumenta os riscos de infiltração do crime organizado nas eleições ao possibilitar as candidaturas, em um prazo mais curto, de pessoas que foram condenadas por ligações com o crime organizado e outros delitos graves.

"As eleições de 2024 foram marcadas pela infiltração de organizações criminosas como o PCC e o CV em prefeituras e câmaras de vereadores por todo o Brasil. Seja pelo financiamento ilegal, seja por candidaturas de fachada, o crime organizado avançou sobre as instituições democráticas e é grande o risco de que isso se repita nos cenários estadual e federal", diz trecho do comunicado.

Ainda de acordo com a organização, o enfraquecimento da Lei da Ficha Limpa contraria a opinião pública, que seria "amplamente favorável à preservação" do texto. A organização menciona pesquisa divulgada pela AtlasIntel em fevereiro deste ano, segundo a qual 83% dos entrevistados se manifestaram de forma contrária à redução do prazo de inelegibilidade para políticos enquadrados nessa legislação.

A Transparência Internacional afirma também que a lei é uma das maiores conquistas da sociedade brasileira no Congresso Nacional. "A sua aprovação foi resultado do desejo legítimo da população em impedir que corruptos e criminosos voltem rapidamente ao poder", diz.

Atualmente, apesar de a legislação atual já determinar inelegibilidade por oito anos, em muitos casos a pena só passa a contar após o trânsito em julgado dos processos ou após o fim do mandato em que ocorreu a prática abusiva. Dessa forma, a condenação deixa o político fora da disputa por duas eleições para Câmara ou Senado, por exemplo.

O projeto aprovado prevê a antecipação dessa contagem para a diplomação. Com isso, mesmo se ficar oito anos inelegível, um político iria perder a chance apenas de concorrer em uma eleição para Câmara ou Senado, não duas.

Além de mudar o início da contagem, a proposta limita a inelegibilidade a 12 anos, caso haja mais de uma condenação.

O projeto de lei foi apresentado pela deputada federal Dani Cunha (União Brasil-RJ), filha de Eduardo Cunha (Republicanos-RJ), e aprovado pela Câmara a toque de caixa em setembro do ano passado.

Cunha está inelegível desde 2016, quando teve o mandato cassado pelo plenário da Câmara por mentir sobre suas contas bancárias no exterior. Caso a lei seja sancionada pelo presidente, a expectativa é de que ele esteja apto para disputar as eleições de 2026.

Apesar da flexibilização, o relator Weverton (PDT-MA) mudou um trecho que poderia beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pela prática de abuso de poder político, no caso dos ataques às urnas em encontro com embaixadores; e econômico, pelo uso eleitoral das comemorações do Bicentenário da Independência, em 7 de setembro de 2022.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?