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Ex-Rota para vice de Nunes reforça radicalismo e bandeira anticorrupção como munição eleitoral

Por Folha de São Paulo

15/06/2024 9h00 — em
Política



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a provável confirmação do ex-coronel da Rota Ricardo Mello Araújo (PL) para a sua vice, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) terá que enfrentar a artilharia das campanhas de Guilherme Boulos (PSOL) e Tabata Amaral (PSB), que devem explorar a escolha como um sinal de radicalidade do emedebista, com o objetivo de afastá-lo do eleitor de centro.

Mello Araújo foi indicado para o posto pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e endossado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Já a pré-campanha de Nunes, que vinha resistindo ao nome do ex-coronel exatamente por temer os efeitos da associação com o bolsonarismo entre os eleitores moderados, deve usar a experiência de Mello Araújo na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) como um exemplo de sucesso no combate à corrupção.

Na sexta-feira (14), Nunes, Bolsonaro, Tarcísio e Mello Araújo se reuniram na sede da prefeitura para discutir a indicação. Ao fim do encontro, o prefeito disse que há "argumentos fortes" a favor do ex-coronel, mas que seu nome deve ainda ser discutido com os demais partidos na próxima semana. Nos bastidores, o entorno da pré-campanha passou a reconhecer nos últimos dias que, com a pressão de Bolsonaro e Tarcísio, Mello Araújo se firmou como o favorito.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, a pressão para que Nunes escolha um vice bolsonarista e, assim, amarre o apoio do ex-presidente, cresceu depois que o coach Pablo Marçal (PRTB) entrou na disputa pela Prefeitura de São Paulo, ameaçando trazer para si o voto da direita conservadora e flertando com o apoio de Bolsonaro.

Aliados de Nunes queriam protelar a escolha, idealmente até o período das convenções partidárias, em julho. No início da semana passada, porém, Tarcísio cobrou agilidade na definição, e o entorno do prefeito entendeu que não seria possível esperar tanto tempo para dar uma resposta --o governador é visto como seu principal cabo eleitoral.

A pré-campanha do emedebista resistia ao nome do ex-coronel por entender que ele pode afastar os eleitores de centro. Eles avaliam que a radicalização seria prejudicial para o prefeito, considerando que o presidente Lula (PT) obteve 53% dos votos na capital paulista no segundo turno de 2022.

Coordenador político da pré-campanha de Tabata, Orlando Faria diz que a chegada de Mello Araújo à chapa, se sacramentada, amarra Nunes a Bolsonaro e ameaça os votos do prefeito entre os eleitores de centro. O entorno da deputada está otimista que, com isso, ela possa crescer entre os moderados.

"As pesquisas mostram que a maior identificação ideológica na capital é com o centro. Acho que ela tem chance [de ter uma vantagem numérica] porque ela fica sozinha nessa fatia do centro."

Segundo essa análise, a indicação do ex-coronel para a vice de Nunes é o melhor cenário para Tabata. Isso porque, se o prefeito escolhesse outro vice e perdesse o apoio de Bolsonaro, o emedebista teria mais sucesso em atrair os eleitores moderados, disputando esse grupo com a deputada.

Para a campanha de Boulos, a provável confirmação de Mello Araújo reforça a estratégia de incentivar a nacionalização do pleito e a polarização. Quanto maior a presença de Bolsonaro e maior a identificação do bolsonarismo com Nunes, avalia a equipe do PSOL, mais chances a pré-campanha do prefeito tem de acabar afetada pela forte rejeição que o ex-presidente enfrenta na capital paulista.

Tanto a pré-campanha de Tabata quanto a de Boulos avaliam que a entrada de Pablo Marçal na disputa foi positiva para os dois e prejudicial para Nunes. O emedebista, além de ter sido pressionado a abraçar Mello Araújo, também colou ainda mais sua imagem à de Bolsonaro com o almoço na prefeitura. Na ocasião, Nunes foi presenteado pelo ex-presidente com a medalha "dos três is" --"imbrochável, imorrível e incomível"--, que ele inventou e costuma distribuir a aliados.

O entorno de Nunes também tem receio de que a escolha de Mello Araújo leve o eleitor a associar a pauta da segurança pública a uma responsabilidade do prefeito, e não do governador. Como mostrou o Datafolha, para 23% dos paulistanos, o maior problema da cidade de São Paulo é a segurança. Nunes quer evitar ser fustigado com base no tema.

Por outro lado, aliados ponderam que a escolha de Mello Araújo como vice também pode ter o efeito contrário -eleitores preocupados com a segurança podem ficar satisfeitos com a escolha do coronel.

A pré-campanha do prefeito também pretende explorar a atuação do oficial na Ceagesp, defendendo que ele lançou mão de ações de combate à corrupção crônica na empresa pública. Nunes já sinalizou essa estratégia em entrevista a jornalistas depois do encontro na sexta-feira, quando fez elogios ao ex-coronel e o agradeceu pelo trabalho na companhia.

"A gente agradece por tudo que você fez pela Ceagesp, que é um equipamento super importante, principalmente no combate à corrupção, à exploração sexual ali dentro", disse o prefeito.

Mello Araújo seguiu a mesma linha de Nunes, falando sobre a atuação na empresa e apostando em um perfil de gestor.

"Essa empresa que nunca deu lucro, [acabou em] dois anos consecutivos dando lucro, e quitamos os R$ 90 milhões de dívida que tinha. Entendo que é um caso a ser estudado, com uma equipe bem formada, onde, se não roubar, sobra", disse.

A gestão do ex-coronel foi marcada por críticas por uma suposta truculência com sindicatos, mas também há relatos de que ele teria colocado ordem no local.

Políticos do estado avaliam que não há outro nome forte que empolgue para a vice.

Secretário de Relações Internacionais da prefeitura, Aldo Rebelo (MDB) era visto como uma boa opção--Tarcísio chegou a pedir que ele se filiasse ao Republicanos com esse objetivo.

Rebelo, porém, decidiu seguir no MDB, mesmo partido de Nunes, o que dificultou sua indicação. Segundo a lei eleitoral, ele precisaria ter deixado o cargo até o dia 6 de junho para poder ser vice do prefeito, o que não ocorreu.


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