SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com conclusão prevista apenas para 2023, a obra do trecho norte do Rodoanel deve ser inaugurada de forma fracionada e ter o seu principal pedaço livre para circulação ainda em 2022, antes do início das eleições. O fim de mais de duas décadas de obras do Rodoanel é o principal legado de mobilidade que a gestão João Doria (PSDB) deve deixar em São Paulo, e é essencial para ser usado em sua tentativa de se viabilizar à Presidência da República. O anel viário começou a sair do papel em 1998, na gestão Mário Covas, e ainda está incompleto. Falta entregar o Rodoanel Norte, uma das quatro divisões previstas no projeto, que terá ao todo 176 km. Se tudo correr como o planejado, a retomada das obras se iniciará em fevereiro do ano que vem e os primeiros lotes serão entregues em até 18 meses --ou seja, o mais tardar em agosto. O entendimento do Governo de São Paulo é que essas primeiras partes a ficarem prontas, que interligam as rodovias Dutra e Fernão Dias, são as mais importantes da construção. Ao todo, são seis lotes, dos quais dois têm previsão de 18 meses para ficarem prontos, outros três devem levar 22 meses e apenas um tem previsão de 24 meses. Além de liberar a rodovia aos pouquinhos, o governo planeja que até a conclusão definitiva das obras, em 2023, o pedágio nos segmentos já inaugurados Rodoanel Norte sejam gratuitos. O trecho norte do Rodoanel começou a ser construído em 2013 e tinha previsão inicial para ser entregue em 2016. Quando pronto, terá 44 km de extensão e um acesso ao Aeroporto de Guarulhos. Ao longo dos anos, sofreu com paralisações e pedidos das empreiteiras de mudanças contratuais que encareceram as obras. Em 2018, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal deflagraram a Operação Pedra no Caminho, que investigou suspeitas de fraudes na construção. Segundo a Procuradoria, houve superfaturamento de R$ 480 milhões nas obras. O ex-secretário de Transportes Laurence Casagrande e o ex-diretor da Dersa (estatal que tocava as obras) Pedro da Silva se tornaram réus sob acusação das práticas de fraude em licitação, associação criminosa e falsidade ideológica. As empresas têm afirmado que o encarecimento se deu devido à localização de grandes quantidades de matacões (grandes rochas) existentes no local, que dificultaram a terraplanagem e aumentaram o custo do serviço. Esses matacões, dizem, não estavam previstos no projeto inicial. Tanto Laurence como Pedro da Silva sempre negaram ter cometido irregularidades. Os problemas levaram o governo a desfazer unilateralmente os contratos, o que rendeu uma disputa na câmara de arbitragem, na qual as empreiteiras se dizem prejudicadas e fazem cobranças financeiras ao estado. Ao mesmo tempo, o estado de São Paulo cobra supostos prejuízos aos cofres públicos causados pelas empresas. O conflito ainda não foi encerrado. Agora, a gestão Doria retorna às obras após ter encomendado do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), órgão ligado ao governo, uma avaliação da situação das obras paradas. O estudo identificou 59 anomalias graves no trecho paralisado. Com esse laudo nas mãos desde o início do ano, o governo começou a preparar o lançamento do edital, mas foi atrasado pela pandemia. A concorrência acabou sendo publicada apenas na última quinta-feira (10) pelo DER (Departamento de Estradas e Rodagem), ligado à Secretaria de Logística e Transportes. Para que as empresas não aleguem desconhecimento sobre a existência de determinados tipos de rochas, como aconteceu anteriormente, as planilhas da licitação usam "ensaios geofísicos" --uma espécie de tomografia do terreno, que exibe aos interessados as características do solo onde acontecerão as obras. Em coletiva de imprensa, o governador João Doria afirmou que a previsão é que em janeiro de 2021 as novas empresas já estejam definidas e em fevereiro as obras sejam retomadas. A estimativa é que o restante da obra custe R$ 1,5 bilhão. Segundo Doria, serão gerados 2.000 empregos diretos e outros 10 mil indiretos. O governo também definiu uma série de medidas para ampliar a transparência das obras e evitar eventuais denúncias de corrupção ou de irregularidades. Por exemplo, o controle remoto até sobre o deslocamento dos caminhões que trabalharão nos canteiros. A ideia é que todos os veículos, inclusive tratores, tenham chips que permitam o acompanhamento em tempo real do que estão fazendo. Além disso, será lançado um site de transparência que permitirá aos usuários acessarem em tempo real o andamento das obras, os seus gastos e ter informações sobre as empresas vencedoras. Atualmente, o trecho norte já consumiu ao menos R$ 7,3 bilhões e tem 87,5% do projeto construído, segundo o laudo do IPT. O Rodoanel tem sido uma dor de cabeça para os últimos governadores de São Paulo e virou um empreendimento-símbolo de escândalos de corrupção em gestões do PSDB. Isso acontece mesmo antes do início da construção do trecho norte. O Rodoanel Sul, feito principalmente durante a gestão José Serra (2007-2010), é o que teve mais problemas. Nessa época, Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, era o diretor de Engenharia da Dersa. Atualmente em prisão domiciliar, ele foi alvo de quatro denúncias da Lava Jato de São Paulo. Entre outras acusações, ele é apontado como operador de propinas com recursos desviados dos contratos de obras viárias e de organizar um cartel das empresas que venceram as licitações. Chegou a ser condenado em duas ações penais, mas uma delas foi anulada por um ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que determinou que o processo volte à fase de alegações finais. O Ministério Público Federal recorre da decisão. Paulo Preto também tem negado ter cometido ilegalidades.