Bolsonaro se reúne com Mendonça e reafirma apoio diante de impasse com Alcolumbre

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

15/10/2021 19h36 — em Política

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após a tentativa frustrada do Palácio do Planalto de fazer as pazes com o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se encontrou, na quinta-feira (14), com o ex-AGU (Advogado-Geral da União) André Mendonça e reafirmou apoio para a sua indicação ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Mendonça foi ao Planalto na quinta acompanhado pelo presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado Cezinha da Madureira (PSD-AM). Eles também se encontraram com o ministro Ciro Nogueira (Casa Civil), que recentemente participou de uma articulação por um plano B para a vaga no tribunal.

"De fato o André Mendonça se reuniu com o presidente, que reiterou que tem chance zero de retirar o nome dele da indicação. Chance zero", disse Cezinha à reportagem.

"O Ciro nunca trabalhou contra o André. O Davi esticou a corda e os senadores estão chateados, porque ficaram expostos. Tudo isso fortalece o André", continuou o parlamentar.

O encontro com o presidente ocorreu no mesmo dia em que era esperada uma reunião de Bolsonaro com Alcolumbre.

Bolsonaro oficializou a escolha de Mendonça para a vaga do ex-ministro Marco Aurélio em 13 de julho, mas desde então o senador não pautou a sabatina na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça). O colegiado presidido por Davi é o passo inicial da tramitação de Mendonça.

Na segunda-feira (11), Alcolumbre esteve com o também senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ). De acordo com interlocutores, ficou combinado que Flávio tentaria viabilizar uma reunião com o presidente.

Entretanto, o encontro com Bolsonaro não aconteceu. A conversa com Flávio foi dura e a nota divulgada posteriormente por Alcolumbre repercutiu mal no Planalto.

"Reafirmo que não aceitarei ser ameaçado, intimidado, perseguido ou chantageado com o aval ou a participação de quem quer que seja", disse o senador no comunicado. Foi a primeira vez, desde o início do processo, que ele falou publicamente sobre o caso.

A avaliação de Bolsonaro e de ministros é que Alcolumbre esticou a corda a tal ponto que angariou a hostilidade dos demais senadores. A indicação do ex-AGU está parada na comissão há mais de três meses.

Segundo interlocutores, a situação de Mendonça de fato já esteve bastante ruim no Senado. Mas, recentemente, eles começaram a ver uma mudança de postura que, na avaliação desse grupo, tem favorecido o ex-AGU. Alcolumbre passou a ser cobrado por outros senadores para pautar a sabatina.

Para auxiliares do presidente, Alcolumbre perdeu o timing para derrotar Mendonça. Eles avaliam que o momento de maior fragilidade foi às vésperas do 7 de Setembro, quando o chefe do Executivo participou de manifestações de raiz golpista.

Interlocutores de Bolsonaro citam como sinal do enfraquecimento de Alcolumbre o fato que até mesmo senadores da oposição assinaram o requerimento apresentado pelo líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), pedindo que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), intervenha para que a sabatina seja pautada.

O documento já tem 17 assinaturas de senadores da CCJ —a maioria da comissão. Subscrevem o requerimento senadores críticos ao governo, como Simone Tebet (MDB-MT), Omar Aziz (PSD-AM), Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Eliziane Gama (Cidadania-MA).

Há cerca de duas semanas, quando o governo já vislumbrava a dificuldade de um desfecho para o impasse, auxiliares presidenciais e ministros, entre eles Ciro, deram início a uma busca de um plano B para a indicação. Segundo relatos, o chefe do Executivo teria autorizado o movimento.

Como a Folha de S.Paulo mostrou, um dos nomes que circulou foi o do presidente do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), Alexandre Cordeiro de Macedo. Outro foi o presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Humberto Martins. Apesar de já ter passado da idade máxima para ser indicado à corte, ele conta com a simpatia de nomes como Flávio Bolsonaro.

Além de não terem conseguido encontrar um nome de consenso, a articulação chegou ao conhecimento dos evangélicos, que rapidamente se mobilizaram contra.

O presidente prometeu indicar um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo e o segmento é hoje quem mais atua pela aprovação de Mendonça no Senado.

Os evangélicos também se mobilizaram contra Alcolumbre e dizem que sua oposição a Mendonça terá consequências eleitorais no Amapá.

O próprio segundo suplente de Alcolumbre, Marco Jeovano Soares Ribas, que é membro da Assembleia de Deus de Madureira, critica o senador.

“O Davi tem perdido muito voto, é uma pauta que ele puxou para si de forma desnecessária. Fica ruim, as pessoas nos cobram. Respeito a decisão [de segurar a sabatina], mas não concordo”, afirmou.

Não é a primeira agenda que Bolsonaro tem com Mendonça em meio à disputa com Alcolumbre.

Na sexta (8), Bolsonaro teve um café-da-manhã com o ex-AGU. Dois dias depois, o chefe do Executivo disparou contra Alcolumbre: “Quem não está permitindo a sabatina é o Davi Alcolumbre [...] Ele pode votar contra, agora o que ele está fazendo não se faz. A indicação é minha".

A declaração contrariou Alcolumbre. Por isso, segundo governistas e aliados de primeira hora do senador, ele teria deixado de sinalizar com um prazo para a sabatina.

A avaliação é que Alcolumbre está disposto a pautar a análise do nome de Mendonça apenas quando tiver certeza de que o nome será derrotado.

A intransigência do presidente da CCJ e a adesão até mesmo de senadores de oposição fizeram com que governistas tentem atrair o presidente do Senado para a crise envolvendo da sabatina.

O objetivo dos senadores próximos ao Planalto é focar a pressão em cima de Pacheco, para que o senador mineiro aponte uma solução.

Um vice-líder do governo afirma que a intenção não seria atingir diretamente o presidente do Senado, mas defende que ele “carregue o fardo” por não tomar medidas mais drásticas contra Alcolumbre.

Nesta sexta, a ministra Rosa Weber, do STF, pediu manifestação da PGR em uma ação que acusa Alcolumbre de estar cometendo crime ao segurar a indicação. O encaminhamento é praxe nesse tipo de processo.

Após o despacho de Rosa, Alcolumbre divulgou nota em que reafirmou “a regularidade dos atos praticados no exercício do mandato”.


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