No roteiro, apenas dois dias de compromissos oficiais - um na Rússia e outro na Hungria - e acenos a bases de apoio importantes para o chefe do Executivo às vésperas das eleições, como radicais de extrema-direita e líderes do agronegócio.
A parada de um dia em Budapeste, hoje, teve direito a agenda com o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, um dos principais expoentes da extrema-direita mundial e principal responsável pela guinada autoritária vivida pelo país europeu.
Após o encontro, o presidente brasileiro chamou o premiê elogiado pelo cosmo bolsonarista de "irmão", destacou a comunhão de valores entre os governos e utilizou uma frase de inspiração fascista. "Deus, pátria, família e liberdade", disse o presidente, que acrescentou "liberdade" ao lema da Ação Integralista Brasileira (ABI).
Houve assinatura apenas de memorandos de entendimento sobre gestão de recursos hídricos, ajuda humanitária a "cristãos perseguidos" e cooperação em assuntos de defesa. Assinados pelos ministros de Relações Exteriores, os textos são, na prática, cartas de intenções - isto é, não têm valor jurídico vinculante.
As trocas comerciais do Brasil com a Hungria ainda são baixas em termos comparativos. O próprio Itamaraty reconheceu, na declaração oficial sobre o encontro, que o relacionamento entre os países melhorou nos últimos três anos - ou seja, após a posse de Bolsonaro, próximo ideologicamente de Orbán.
"Reconhecendo a atmosfera de simpatia mútua entre os dois países, o compartilhamento de valores fundamentais e a convergência de visões no plano das relações internacionais, os mandatários húngaros e brasileiro reforçaram seu compromisso com a defesa da família, da liberdade religiosa, da liberdade econômica e da soberania das nações", diz a declaração conjunta sobre a agenda.
Já a viagem à Rússia reuniu na pauta temas pragmáticos, mas ainda com pano de fundo eleitoral. O grande objetivo do governo era avançar nas discussões sobre a crise dos fertilizantes, preocupação central do agronegócio. Nenhum entendimento formal a respeito do tema, contudo, foi editado. Quem lidera as negociações em torno da problemática desde o ano passado é a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, favorita do Centrão para a vice de Bolsonaro em 2022. Ela, no entanto, desfalcou a comitiva e não embarcou após testar positivo para a covid-19.
O único acordo selado na Rússia foi na área de proteção a informações. Ainda assim, Bolsonaro deixou Moscou com uma foto - e aperto de mãos, diferentemente do presidente da França, Emmanuel Macron, seu desafeto político - junto ao líder russo, Vladimir Putin, chamado pelo presidente brasileiro de conservador.
O chefe do Executivo se disse "solidário" à Rússia, neste momento em que o país vive tensões com a Ucrânia, chamou Putin de homem de paz e sugeriu parcerias na área de energia. O presidente, inclusive, insinuou uma falsa relação entre sua viagem e a retirada de parte das tropas na fronteira ucraniana.
Por outro lado, foi também em Moscou que Bolsonaro foi fotografado homenageando soldados mortos na Segunda Guerra Mundial, quando a Rússia ainda era a comunista União Soviética. A imagem de Bolsonaro, que tem ampliado as críticas à esquerda pela questão eleitoral, homenageando combatentes comunistas rodou a internet. "Soldado é simplesmente soldado", defendeu-se o presidente nas redes sociais.



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