Outra indefinição envolve a presidência da Funasa. A fundação vinculada ao Ministério da Saúde, voltada à criação de programas de promoção e proteção à saúde, havia sido extinta em janeiro por uma medida provisória que perdeu a validade. Ontem o governo nomeou para o cargo o economista Alexandre Motta, servidor de carreira. Mas o economista é interino - o posto será ocupado em definitivo por um representante do Centrão, assim que o governo ajustar seus critérios de indicação política.
A incorporação de PP e Republicanos à base do governo é uma "tese consolidada", conforme o líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE). Parlamentares do PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, também podem ter lugar na reforma. O problema é como fazê-la. Lula quer evitar a saída de mais mulheres do primeiro escalão, depois da troca de Daniela Carneiro por Celso Sabino no Turismo, e preservar ministros que não têm mandato. Essas condições deixam mais complexo o xadrez da reforma ministerial.
Pessoas que acompanham as discussões dizem que há "dezenas de possibilidades diferentes" sendo consideradas para a "dança das cadeiras" na Esplanada. A expectativa é a de que a nomeação dos indicados pelo Centrão ainda demore para acontecer, a exemplo do que ocorreu com Sabino, cuja confirmação demorou mais de mês. "O presidente não bateu o martelo, não deliberou nada, qual tamanho, para onde, nada", disse Guimarães.
Responsável pela articulação política com o Congresso, Padilha também se reuniu com o líder do PT na Câmara, Zeca Dirceu (PR), que tenta evitar a saída de petistas da Esplanada. "Confio que o presidente Lula achará uma solução que contemple bem eles (Centrão) e mantenha bons espaços ao PT", disse o parlamentar à reportagem.
'Cota pessoal'
Com o impasse sobre quais pastas serão entregues ao Centrão, a tendência é de que ministérios do PT e do PSB ou da "cota pessoal" de Lula entrem nas negociações. Mas mesmo esse caminho tem se mostrado difícil.
Nesta quarta, 19, ainda na viagem a Bruxelas para a reunião de cúpula da União Europeia com países da América Latina e Caribe, Lula afastou a possibilidade de tirar Rui Costa da Casa Civil para acomodar o Republicanos ou dissidentes do PL. "Não existe a possibilidade", afirmou o presidente. "Não é o partido que pede ministério, é o presidente que oferece."
Nas últimas semanas, Lula também falou várias vezes que o Ministério da Saúde não entra em negociação. Com isso, o PP passou a mirar o Desenvolvimento Social, hoje ocupado pelo petista Wellington Dias.
A ambição do grupo político do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de comandar a pasta que controla o Bolsa Família foi, inclusive, reiterada na conversa com Padilha. Porém, na semana passada, o presidente sinalizou que o Desenvolvimento Social também não seria entregue ao Centrão.
Silvio Costa Filho (conhecido como Silvinho) foi, ainda, cotado para o Esporte, mas Lula tenta blindar a atual ministra da pasta, Ana Moser. Assim, os critérios estabelecidos pelo presidente para a reforma ministerial - contrapartida para fortalecer a base do governo no Congresso - deixam poucas opções em aberto.
Suporte
Além da discussão sobre novos integrantes da Esplanada, as decisões de Lula precisam contemplar o que fazer com aqueles que deixarão as pastas. A intenção é organizar as trocas de modo que os ex-ministros possam dar suporte ao governo de alguma outra forma. Por isso, o foco será priorizar auxiliares com mandato - fora do governo, eles poderiam engrossar o apoio ao petista em outro ambiente.
Foi esse o caminho da ex-ministra do Turismo Daniela Carneiro. Demitida, a deputada deve ocupar o cargo de vice-liderança do governo na Câmara. Com um bônus: por ser do Republicanos, ela tende a atrair para a órbita do governo o seu partido, que tem relutado em se agregar à base. O Republicanos espera credenciar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como candidato à sucessão de Lula, e líderes da agremiação não querem associá-la à atual gestão.
PCdoB
Há uma avaliação no governo de que, caso Lula mude de ideia e decida dar o Desenvolvimento Social a um dos indicados do Centrão, Costa Filho estaria mais cotado para o posto. Nesse caso, Fufuca poderia assumir a Ciência e Tecnologia no lugar de Luciana Santos. Única integrante do PCdoB na Esplanada, a ministra poderia substituir Silvio Almeida no Ministério dos Direitos Humanos.
Em 2020, Almeida participou de um comitê externo criado para acompanhar o caso da morte do João Alberto Silveira, homem negro assassinado por seguranças de uma unidade do Carrefour em Porto Alegre (RS). O hoje ministro, que é advogado, foi criticado por sua atuação. Sua imagem ficou desgastada com o movimento negro. Por isso, dentro do governo, há a percepção de que sua eventual saída causaria poucos problemas. (COLABORARAM JOÃO PAULO NUCCI, ITALO BERTÃO FILHO E GABRIEL DE SOUSA)
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


