TEERÃ E ANCARA — A vitória de Hassan Rouhani já no primeiro turno nas eleições iranianas não apenas garante um segundo mandato ao presidente, mas também demonstra o sucesso de seus esforços para atender às demandas do eleitorado reformista, que se mobilizou e foi às urnas dando-lhe um desempenho superior ao de sua primeira eleição, em 2013.
Vencedor em 2013 com 50,88% dos votos, o presidente — responsável por negociar um acordo sobre o programa nuclear iraniano com potências ocidentais — foi reeleito com 23,5 milhões de votos (57%), derrotando Ebrahim Raisi, um clérigo linha-dura que se apresentou como um defensor dos pobres e pregou um endurecimento nas relações do país com o Ocidente. No entanto, a retórica de Raisi, apoiada em promessas de redistribuição de renda, não convenceu a classe trabalhadora, diz Ali Vaez, analista de questões iranianas do International Crisis Group.
— Os votos para Rouhani, especialmente nas áreas rurais, mostram que o povo iraniano já não acredita mais no populismo econômico e em mudanças radicais — afirmou o analista à AFP. — Os iranianos têm maturidade para entender que a solução para os dilemas do país está na gestão competente da economia e na moderação nas relações internacionais.
No entanto, a vitória do presidente — celebrada por jovens apoiadores no centro de Teerã — também deverá representar uma nova série de desafios para Rouhani em seus embates com a linha-dura do país e nas complicadas relações do Irã com os Estados Unidos.
— Rouhani enfrentará uma pressão maior no segundo mandato. A Guarda Revolucionária e outras importantes organizações estatais criarão mais problemas para ele — diz Meir Javedanfar, professor do Centro Interdisciplinar Herzliya, em Israel, nascido no Irã. — Desde a revolução de 1979, sempre que a linha-dura perde uma batalha política, ela busca revidar.
Já na relação com Washington, o presidente recebeu a confirmação de que o governo americano — com o qual o Irã não mantém relações diplomáticas desde 1980 — continuará a manter suspensas sanções econômicas, cumprindo o acordo determinado durante a gestão de Barack Obama. No entanto, o sucessor de Obama na Casa Branca, Donald Trump, não apenas se refere ao acordo nuclear como “o pior da História”, como assinou ontem um acordo bilionário de venda de armas à Arábia Saudita, principal rival de Teerã no Oriente Médio. Em coletiva ao lado de representantes do governo americano, o chanceler saudita, Adel al-Jubeir, evitou se aprofundar em comentários sobre a eleição iraniana.
— Esta é uma questão interna — afirmou o chanceler. — Do Irã, queremos ações, e não palavras.
O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, disse ter esperanças de que Rouhani use seu segundo mandato presidencial para dar fim ao programa de mísseis balísticos e o que classificou como sua “rede de terrorismo”. O Irã nega qualquer envolvimento em atividades terroristas e afirma que seu programa de mísseis, recentemente alvo de sanções ordenadas por Trump, tem fins exclusivamente defensivos. No entanto, o país financia grupos como o Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no Líbano, considerados organizações terroristas pelo governo americano.
Entre os líderes internacionais que parabenizaram Rouhani pela vitória nas eleições está o presidente russo, Vladimir Putin, com quem o Irã reforçou relações comerciais e militares desde a escalada da guerra civil na Síria. Em um telegrama, Putin “confirmou a disposição a continuar esforços conjuntos para desenvolver a parceria entre os dois países”.
Os dois países apoiam o presidente sírio, Bashar al-Assad, que também parabenizou Rouhani pela vitória. “Esperamos cooperar para fortalecer a segurança e a estabilidade de nossos países, da região e do mundo”, afirmou Assad em nota.
O processo de reinvenção política de Rouhani, que se aproximou ainda mais do discurso reformista durante a campanha, conquistou os jovens eleitores do país. Em diversos momentos ele abordou temas espinhosos como o histórico de desrespeito aos direitos humanos pelas forças de segurança do país e o Poder Judiciário, referindo-se à linha-dura como “aqueles que cortam línguas e costuram bocas”, e acusando Raisi, durante um debate, de “abusar da religião por poder”. As palavras do presidente lhe renderam uma repreensão do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, que as classificou como “indignas”.
O apoio dos sedentos por abertura na política iraniana veio também de sua promessa de buscar a libertação dos líderes do Movimento Verde, presos desde os protestos de 2009, que pediam a saída do então presidente, Mahmoud Amadinejad. Em seu primeiro discurso televisionado após a eleição, Rouhani adotou um tom desafiador, e fez questão de agradecer ao ex-presidente reformista Mohammad Khatami, cuja menção pública foi proibida por um tribunal do país.
— A mensagem de nossa nação na eleição foi clara: o Irã escolheu o caminho da interação com o mundo, rejeitando a violência e o extremismo — afirmou.
No entanto, a retórica do presidente reeleito pode esbarrar na dinâmica de governo e na resistência que receberá por parte de setores mais extremistas do país.
— Para conquistar o eleitorado, Rouhani atacou poderosas instituições iranianas, de cujo apoio precisará para governar com eficácia — afirmou Karim Sadjapour, analista do Carnegie Endowment à Reuters.

